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O encantador de adolescentes: conheça o homem que mobiliza milhares de jovens em Salvador

No comando da Gang Entretenimento, Romero Ribeiro lidera um fenômeno em que gente muito nova aceita limites, enfrenta frustrações, se aproxima das famílias e passa por grandes transformações

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 27 de abril de 2026 às 12:17

Romero Ribeiro
Romero Ribeiro Crédito: Sora Maia

Romero Ribeiro é celebridade em um nicho desafiador: jovens com idades entre 12 a 20 e poucos anos. Fazer sucesso numa faixa etária frequentemente descrita como “difícil” já não seria pouca coisa. Só que tem mais. Nosso entrevistado encanta essa turma propondo problemas, estabelecendo regras rígidas, tirando das telas, fazendo com que limpem a própria sujeira e lidem com (muitas!) frustrações. Ou seja, trazendo tudo que, em tese, eles detestam. Aí está a complexidade e o inusitado da coisa.

À primeira vista, ele é apenas um produtor de eventos, mas em Salvador, seu nome circula entre estudantes como o de alguém que faz bem mais. Para muitos, ele conduz experiências que marcam a memória, transformam famílias e, muitas vezes, salvam pessoas.

Há duas décadas no comando da Gang Entretenimento, Romero produz gincanas escolares, que, ao longo do tempo, foram deixando de ser apenas competições recreativas e passaram a mobilizar profundamente redes inteiras de alunos, pais, mães e escolas. Sob o comando dele, esses eventos misturam tarefas físicas, desafios criativos, arrecadações e provas que exigem estratégia e improviso.

Em diferentes análises, atividades desse tipo são associadas ao desenvolvimento de importantes habilidades sociais e ao engajamento coletivo, além de promoverem impacto comunitário direto, com campanhas solidárias e ações sociais. Em Salvador, essa cultura ganhou escala e identidade próprias, envolvendo dezenas de escolas e milhares de alunos, em um calendário que se desenvolve durante o ano inteiro.

Na entrevista a seguir, o homem no centro desse fenômeno explica como tudo começou, abre os bastidores desse movimento e conta qual é o segredo para conduzir crianças e adolescentes em estado de efervescência: competitivos, vulneráveis, criativos e intensos.

Flavia Azevedo - A Gang nasceu há 35 anos. Conta um pouco dessa história?

Romero Ribeiro - A Gang nasceu em 1991, formada por ex-alunos do Colégio Anchieta, um colégio que já fazia gincana antes. Porém, em 1991, a convite da escola, formou-se um grupo para realizar gincana. Então foram cinco ex-alunos: Adrian Berenger, Lilian Carvalho, Mirela Possidio, Maurício Nascimento e Elmar Rocha. Esses cinco ex-alunos do Anchieta, juntos, deram início à Gang. Com o passar dos anos, esses ex-alunos foram tomando rumos diferentes e o grupo foi se dissolvendo, ficando apenas Elmar desse grupo. Ele foi o responsável por dar start nas futuras gerações que caminharam com a empresa. Então, Elmar foi o responsável por convidar novos participantes, novos ex-alunos, a fazerem parte.

F - Nas suas palavras, o que é uma gincana?

R - Dificílimo explicar o que é uma gincana, porque existem muitos aspectos vistos e muitos aspectos não vistos. Mas eu diria que gincana é uma “mini vida” em poucos dias, concentrada ali em três, quatro semanas, onde os alunos, os líderes, têm a possibilidade de compartilhar e de experimentar uma série de desafios e de vivências de uma vida adulta, desde as glórias, mas principalmente os desafios, os obstáculos e as dificuldades. Tudo isso condensado em poucos dias.

F - Você pede silêncio e mil adolescentes calam a boca instantaneamente. Você faz com que milhares de crianças e adolescentes desejem resolver enigmas e cumprir tarefas dificílimas. Qual é o segredo desse "superpoder"?

R - Eu não diria que é um superpoder. Eu acho que foi algo que nós conquistamos ao longo do tempo. Esse nosso espírito jovem traz uma proximidade muito grande com o alunado, porque a gente se sente falando de igual para igual, a gente consegue ter a mesma linguagem, consegue estar atualizado a todo tempo, mas, de certa forma, a gente precisa impor um certo respeito na condução. Liberdade, ousadia, tudo isso tem uma linha tênue, né? E eu acho que a gente sempre conseguiu conduzir isso de uma forma muito correta, com muita maestria. Acho que a gente consegue ter esse respeito dos alunos, dos colégios, muito por conta dessa forma de lidar, com muita escuta, mas também dando as broncas quando precisam, ouvindo quais são as considerações que eles precisam fazer, entendendo que nós também erramos, colocando ética, colocando justiça, colocando pontos de vista diferentes, escutando mais de um lado das histórias.

Romero Ribeiro por Sora Maia

F - O que pais e mães podem aprender observando o funcionamento das lideranças em gincanas e, mais do que isso, o que você mesmo aprendeu com as gincanas e aplica na sua vida pessoal, como pai de duas meninas?

R - Eu acho que regras. A gincana tem um regulamento e a gente se baseia nele para seguir. E aí, óbvio, cada família tem as suas regras, cada família é uma família diferente, com os seus valores. A gente tem os nossos e faz questão de compartilhar esses valores com todos os gincanistas. E eu acho que isso é importante dentro de casa também. Também acredito muito que precisa merecer as coisas. Eu faço sempre questão de dizer o quanto é importante conquistar as coisas no seu dia a dia, seja com atitudes, seja com postura, seja com educação.

F - Em um mundo de isolamento e telas, a gincana obriga o "olho no olho", ao contato físico e a lidar com emoções fortes em equipe. Você vê a Gang hoje mais como uma empresa de eventos ou como instrumento de uma intervenção de saúde mental necessária para essa geração?

R - Eu acho que a Gang nunca foi vista pelos alunos e talvez até pelas escolas como uma empresa de gincanas. Muita gente às vezes confunde a Gang com uma ONG pelo tamanho do benefício que é a gincana para os alunos. E eu vou além: agora com 35 anos, eu vou fazer 20 anos à frente da Gang, a gente já viu a evolução da educação, viu muita mudança de geração, de postura, de comportamento, da própria educação mesmo, e eu diria que talvez a gincana hoje seja uma das poucas coisas que há nas escolas no formato atual de educação que permanece e é necessário.

A mudança da educação e da forma de educar é tão grande, e às vezes eu acredito muito que as escolas pararam no tempo para muita coisa, na forma de educar, no modelo que é hoje, mas eu acho que a gincana sobrevive com a força que ela tem hoje pelo impacto que tem na vida dos gincanistas, na vida dos alunos.

F - Você já viu “metamorfoses” de alunos em processos de gincana?

R - Eu já escutei tanta, mas tanta, tanta história. Sempre tem uma mãe que vem até mim no palco, sempre com lágrimas, olha no meu olho e me agradece, e fala: “Eu só tenho a agradecer a vocês, vocês salvaram a minha filha”. Isso tem um peso muito grande. Eu acho que isso traz pra gente uma responsabilidade. Eu não tinha essa noção, não, viu? Se eu disser pra você que eu sempre tive, é mentira. Eu acho que quando eu comecei, talvez imaturo, eu não tivesse essa dimensão, mal sabendo o impacto que já tinha ocorrido em mim.

A Gang transforma completamente, insere, inclui, habilita esses jovens, desperta neles uma força, uma coragem, habilidades, um pertencimento, uma sensação de capacidade. E isso, no mundo de hoje, onde se isolam cada vez mais, se prende às telas cada vez mais, essa convivência, essa necessidade de diálogo, de conversa, de se permitir, seja colocando uma caracterização, mas também colocando uma opinião, uma resposta, mostrando o quanto cada um tem a oferecer para a sociedade.

Então eu vejo muitos jovens que saem de depressão, muitos que conseguem se identificar com o seu próprio gênero. A quantidade de autistas de diversos graus que conseguem participar da gincana de uma forma inclusiva mesmo, de igual para igual, e se sentindo participativos, se sentindo incluídos naquele universo todo que a gincana permite, que a própria equipe, e que eles mesmos, quando acaba a gincana, chamam de família. Isso é extraordinário, isso é divino.

F - Neste momento em que tudo parece tentar nos convencer de que “vencer” é obrigatório, como a sua equipe prepara jovens para entender que perder não é o fim do mundo?

R - A gincana prepara para a vida e eu acho que a palavra "frustração" precisa vir antes de "vitória", porque, se a gente colocar na balança, a quantidade de vezes que a gente se decepciona e que a gente se frustra vai ser muito maior do que a quantidade de vezes que a gente vence.

Eu acho que a gincana ensina muito a valorizar as pequenas conquistas, porque é isso que é a vida. E a felicidade é muito isso aí. A felicidade não é uma linha de chegada, a felicidade é o caminho, é a gente conseguir curtir cada momento, cada conquista, cada tarefa entregue.

Por outro lado, eu acho errado a gente passar a mão na cabeça ou ter que sempre valorizar aquele que perde também. A gente tem que, sim, valorizar aquele que venceu a gincana, porque ela é uma competição. Só que, por trás dessa competição, existem muitas outras competições, e que também são celebradas. A gente precisa preparar esses jovens para o que vem depois: vestibular, entrevista de emprego, relacionamento. Nem tudo vai dar certo.

F - A gincana pode interferir em futuras decisões profissionais das crianças e adolescentes?

Com toda certeza. Eu conheço muita gente que hoje é cenógrafo, bailarino, publicitário, artista plástico, trabalha com evento, trabalha com cenografia de evento, e tudo isso por conta da gincana. Então acho que esse processo permite às pessoas enxergarem as suas próprias habilidades, sejam elas manuais, técnicas ou intelectuais.

F - Muitos pais e mães reclamam das demandas. Por que você acha que as famílias devem se envolver nesse processo?

Eu acho que a gincana hoje é uma atividade que possibilita uma aproximação das famílias, do pai com filho, da mãe com filho. O filho entende o quanto a mãe dele é capaz, se ela é capaz de ter uma falta no trabalho para poder passar o dia com ele, ajudando ele na gincana, se ela vai curtir junto com ele, se ela vai vibrar com a conquista dele, se ela vai dar ouvido às histórias da gincana. E isso é família. Isso é provocar momentos onde há troca. Existem, sim, críticas da demanda, e a nossa escuta é muito positiva. A gente escuta tudo e leva para entender o que pode ser feito de diferente. Por outro lado, existe limite. A gincana é para o aluno, não é para os pais. A gente traz tarefas que envolvem os pais, mas com cuidado. Ela traz uma energia para dentro de casa, uma bagunça gostosa, mas que exige acompanhamento, limites, horários. E eu acho que a gincana é um dos melhores momentos para que as famílias estejam reunidas em prol de um objetivo.

F - Se você pudesse soprar um conselho no ouvido de um adolescente que vai vestir a camisa da gincana pela primeira vez amanhã, o que diria para ele nunca esquecer?

Se permitir, se permitir viver. E eu uso uma frase que a gente tem: só conhece a paixão mais intensa que explode na alma quem foi gincanista. É muito difícil explicar, precisa sentir.

F - Por fim, qual é o segredo para tudo dar certo por tantos anos e tantas vezes e cada ano?

R - Muita gente vê o palco montado e a energia do dia da gincana, mas não consegue enxergar que cada detalhe ali foi pensado por muita gente nos bastidores. A Gang nunca vai ser sobre um líder. Uma gincana, no fim das contas, é uma lição prática de que ninguém realiza nada grandioso sozinho. Acho que se fosse eu pudesse resumir o segredo dessas décadas de história, eu diria apenas uma palavra: colaboração. O desafio de uma gincana é grande demais para ser carregado por poucos. Graças a deus eu tenho uma equipe maravilhosa e presente. Não existe liderança sem um time que acredita na mesma missão. O que eu faço é orquestrar essa energia, porque o mérito é de cada um que, ali na ponta, faz a gincana acontecer.