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Um Porsche de R$ 1,3 milhão? Saiba como a marca cria carros 'únicos' no trânsito de Salvador

Com pinturas de R$ 86 mil e consultoria que vira "terapia", fomos entender por que a exclusividade custa caro e como o DNA do dono vai parar no motor

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 26 de abril de 2026 às 05:00

Como vai querer seu Porsche?
Como vai querer seu Porsche? Crédito: Sora Maia

Não vou mentir. Tenho oito Porsches lá em casa, de diferentes modelos e anos de fabricação. O que mais gosto é o meu 911 Carrera, só falta voar. Todos eles ficam devidamente guardados na minha garagem do jogo Gran Turismo 7, no Playstation 5 de meu filho. Fora isso, o mais próximo que cheguei de um super carro como este foi no trânsito de Salvador, quando algum privilegiado para ao lado do meu Sandeirinho quando o sinal fecha. Mas o danado do destino me fez, pela primeira vez, virar a chave de um Porsche e descobri que esta espaçonave é muito mais que um carro. É exclusividade, personalidade e, acima de tudo, algo bem longe do meu orçamento de jornalista.

Comprar um Porsche não é como comprar um automóvel comum. Está mais para adquirir um apartamento, que na maioria das vezes é até mais barato. Contudo, não é neste quesito, mas no processo de escolha. A cor do carro? Você escolhe como a parede de sua casa, com dezenas de paletas de cores, diversos tons que dificilmente você terá um carro igual a outro. Só se a lei da coincidência aparecer. Somente na categoria Paint to Sample, são mais de 130 cores. Couro interno? Pode mudar. Roda, teto, aerofólio, soleira, banco, frisos, até a cor da linha que costura o couro dá para escolher. É um menu interminável de possibilidades. Contudo, a exclusividade tem um custo.

Fizemos um teste para, quem sabe, eu poder comprar um dia. Escolhi o 911 Carrera (2026), que é o carro que mais utilizo no Playstation. O preço base dele é R$ 980 mil, mas decidi fazer um orçamento com o meu gosto. Não medi esforços para deixar com a minha cara. A cor foi um Atacamayellow (R$ 86.450,00 a mais). Fui metendo, lá ele, tudo que eu mais gosto. O valor do carro agregou mais R$ 336.273,00, chegando num total de R$ 1.316.273,00. Tá caro? Talvez para mim, um mero mortal. Mas para quem quer um Porsche com a sua cara, não tem preço. Só para se ter ideia, a única Concessionária exclusiva da marca vende, em média, 20 carros todo mês.

Agora, claro, é preciso tomar cuidado com seu gosto pessoal. Tem gente que pede o carro todo roxo, amarelo e rosa. É possível? É! Mas possivelmente ficará com o carro na sua garagem o resto de sua vida. Por isso é preciso indagar internamente: quero para ter meu DNA ou para vender um dia?

“Você não tem um carro, tem um Porsche. É algo seu, por isso esta exclusividade. Não temos um Porsche igual ao outro. É diferente. Mas a gente fala, orienta e precisa entender: ele está comprando o carro pra ele ou pensando em revenda? Por exemplo, teve um cliente que comprou um 911 GTS já pensando em dar um passo a mais depois, pegar um GT3 quando surgisse cota. Então, nesse caso, a gente orienta: ‘vamos montar dentro do seu sonho, mas pensando também no que o mercado aceita melhor, para facilitar a troca’. Aí depois, no carro dos sonhos, ele faz o que quiser”, conta David Fernandes, o Porsche Pro da Porsche Center Salvador, no Caminho das Árvores. Ele é uma espécie de consultor especial e, às vezes, até psicólogo de quem quer comprar um modelo.

“Faço este papel também. Converso muito com cada um. Uma vez um senhor de 60 anos chegou aqui para comprar seu primeiro Porsche. Queria o 911 para passear com a família. Aí eu expliquei: o 911 não é confortável atrás. Se você for à Praia do Forte, vai ser complicado. É um carro que não é pra carregar muita gente, apesar de ter banco traseiro. Aí eu mostrei que o Panamera seria mais adequado, que é como se fosse um 911 de quatro lugares, com mais conforto, mantendo o DNA esportivo. Ele entendeu, configurou o carro e seguiu o processo”, conta David.

Porsche
Porsche Crédito: Sora Maia

Mas tem vezes que as circunstâncias mostram que nem sempre ter bom gosto e ter bala na agulha caminham lado a lado. Sempre vai ter aqueles que querem o carro todo roxo com marrom bufa, ou um torcedor do Bahia que quer o carro azul, vermelho e branco… Enfim, um horror.

“Tem cliente que quer roda vermelha. A gente orienta, porque isso restringe muito o mercado, mas é o carro dele. Em algumas situações, como da roda, ele pode pedir e depois a gente altera, pinta de cinza, preto, faz esse ajuste aqui mesmo. Agora, tem casos mais extremos que não tem como: carro vermelho com interior vermelho, amarelo com interior vermelho. Fica algo muito extravagante, parece até o Ronald McDonald. A gente pergunta: ‘tem certeza?’. Mas é o carro dele. Então precisa ter delicadeza para entender até onde vai”, explica.

O cenário parece uma Casa Cor. O mostruário tem couros de diversas cores e todos os equipamentos que podem ser mudado. Claro, existem modelos que têm limitações e não dá para mudar tudo. Mas na maioria dá para colocar acessórios até excentricos, como um projetor que, quando abre a porta, projeta o nome Porsche no chão. Um luxo só. Você escolhe lá mesmo, paga e o pedido vai diretamente para a Alemanha, onde o carro será tirado do papel e transformado em realidade. Depois, embarca de navio até o porto de Vitória, no Espírito Santo, seguindo para Salvador em seguida. Este processo pode levar, no mínimo, três meses.

“Pode demorar este tempo, mas quem vem comprar um Porsche sabe desse trâmite e, geralmente, não é o seu único carro. Cria-se uma expectativa com a chegada do carro, fazemos uma recepção na entrega, é algo bem marcante mesmo. O carro vai chegar às 6h? 4h o cliente já está aqui, sem dormir”, conta David.

Como quer seu Porsche? por Divulgação

De fato, é muito mais que um automóvel. É uma marca com um valor agregado que chega a ser cultural. A loja, inclusive, recebe visitas de fãs, que chegam lá já dizendo que não tem dinheiro para comprar, mas que ama um Porsche. Um vendedor de coxinha vai sempre lá, entra, é recepcionado, faz o sinal da cruz em frente ao carro e sai. Não fala nada. No início do mês, uma menina pediu de aniversário de 16 anos para conhecer um Porsche por dentro. Não só entrou, como ganhou um passeio. “Quando ligamos o carro, começou a chorar de emoção. A gente sabe que nem todo mundo que entra pela porta vai comprar um Porsche. Mas quem entra ali é apaixonado igualmente pela marca”, lembra David.

De fato, é diferente. Quem diz que não acredita em espaçonave, é porque nunca entrou num Porsche. Perto de completar 45 anos, entrei em um pela primeira vez, igualzinho ao que tenho no Playstation. Sentei e perguntei se poderia ligar o carro. Com o sinal positivo de David, virei a chave, que fica do lado esquerdo do volante. O ronco do motor me fez arrepiar até em cabelos que nem sabia que existiam. Não tive coragem de pedir uma voltinha, pois todos os meus carros que já tive tiveram uma única exclusividade: arranhões e batidas rotineiras. Melhor não arriscar. Para completar, ainda consegui perder a chave do modelo 911, mobilizando a turma em busca da bendita chavinha que custa R$ 8 mil. Foi um alívio quando achamos. Diante disso, vos digo: Melhor eu voltar para o meu Playstation…

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