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Moyses Suzart
Publicado em 25 de abril de 2026 às 05:00
Se o cacau já está caindo agora, imagine em maio, período mais chuvoso da capital baiana. Na verdade, o mês do toró já antecipou sua visita, pois o tempo de muita água caindo do céu já começou por aqui. Somente na última semana, já tivemos um acumulado que supera a marca prevista para o mês todo. E se eu te disser que pode piorar? Sem pânico, mas este ano teremos o intenso Super El Niño, que especialistas já apontam como em chegada no mundo, incluindo Salvador, justamente em maio, deixando o clima com extremos: ou muita água, ou muita seca. E adivinha o que está previsto para aqui… >
Mas, afinal, o que é o El Niño? Entre dezembro de 2025 e o mês atual, o mundo estava vivendo um período sem grandes variações por conta de fenômenos naturais. No ano passado, tivemos a influência da “irmã”, La Niña, em que os mares esfriam. O “menino” é o contrário. Trata-se de um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico Equatorial. Quando esse aquecimento é mais intenso e persistente, ele passa a ser classificado como Super El Niño. Ele pode, inclusive, elevar a temperatura em até 2 °C. Como desgraça pouca é bobagem, em alguns países, como na Austrália, já estão chamando essa nova aparição mais intensa de “El Niño Godzilla”.>
Curiosamente, a última vez que esse fenômeno extremo visitou Salvador foi em 2015, e foi um ano bem difícil para os soteropolitanos. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontou que, no mês de maio daquele ano, choveu 60,5% a mais que o previsto, um recorde. Aquele mês ultrapassou os 577,7 mm de chuva, bem acima da média de 359,9 mm. O fenômeno contribuiu para algumas mortes por conta do tempo. Vale lembrar que especialistas apontam que existe 60% de chance de o Super El Niño começar em maio, mas a tendência é que ele se intensifique mais no segundo semestre, o que acende o alerta também para o interior do estado.>
Aqui em Salvador, a tendência para o próximo mês é de acumulados acima da média climatológica (302,2 mm). “Eventos mais intensos podem ocorrer de forma pontual, principalmente associados a sistemas costeiros. As chuvas recentes já indicam o início do período mais ativo, então, na prática, o período chuvoso já começou”, conta Gabriel Pugliese, coordenador do Centro de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil (CEMADEC).>
Com ou sem Super El Niño, Pugliese reforça que a capital está preparada para o mês. “A Prefeitura vem executando um volume relevante de obras de contenção de encostas, drenagem e estabilização de áreas críticas. Esse conjunto de intervenções estruturais atua diretamente na redução da vulnerabilidade física do território, enquanto as ações de prevenção atuam na redução da exposição. São frentes complementares”, disse, fazendo um comparativo sobre os avanços. “Na prática, isso muda o cenário: quando o evento ocorre, o objetivo é que haja menos pessoas expostas e menos áreas suscetíveis ao colapso. Esse é o principal avanço em relação a 2015”, completa.>
Quando o assunto é fenômeno extremo, Pugliese também prega cautela. “Sobre a relação com o El Niño, é importante evitar simplificações. Ele influencia padrões de chuva, mas não determina sozinho a ocorrência de desastres. Os impactos dependem da combinação entre intensidade da chuva, duração, condição do solo e vulnerabilidade urbana. Sobre mudança climática, o cenário é direto: eventos extremos estão mais frequentes e mais intensos. Isso não significa chuva constante, mas episódios mais concentrados e severos”, disse.>
Uma cidade como Salvador, segundo Pugliese, exige elevação contínua do nível de preparação. Em resumo, o risco não está apenas no fenômeno climático, mas na combinação entre evento e vulnerabilidade.>
Outro ponto que preocupa os especialistas é a maior frequência desses eventos extremos. Episódios considerados “super” eram mais raros, mas têm se tornado mais recorrentes nas últimas décadas, em parte associados ao avanço das mudanças climáticas globais. O aumento da temperatura média do planeta tende a potencializar esses eventos, tornando-os mais intensos e com impactos mais difíceis de prever e controlar.>
No Brasil, os efeitos variam bastante de região para região. No Nordeste, o El Niño costuma estar associado à redução de chuvas em algumas áreas, mas também pode provocar irregularidade climática, com períodos secos intercalados por episódios de chuva intensa. Esse comportamento instável exige atenção redobrada, especialmente em áreas urbanas mais vulneráveis.>
Em cidades como Salvador, o fenômeno pode influenciar diretamente o período chuvoso, que já se intensifica entre abril e julho. A combinação entre o aquecimento global, a umidade do oceano Atlântico e a atuação do El Niño pode aumentar o risco de chuvas fortes em curtos períodos, elevando a possibilidade de alagamentos e deslizamentos. Por isso, o acompanhamento contínuo das previsões e o planejamento preventivo são fundamentais para reduzir impactos.>
Contudo, mesmo que o fenômeno possa começar em maio, é pouco provável que a influência seja percebida logo no início de sua vigência.>
“No momento, estamos em neutralidade, então, a curto prazo, não teremos influência direta do El Niño. O que se observa é que, a partir do mês de maio, pode começar um cenário de mudança, com o início desse aquecimento e a atuação do fenômeno. Naturalmente, os maiores valores de temperatura costumam ocorrer mais para o final do ano, entre dezembro e janeiro, quando esse aquecimento se intensifica”, disse Cláudia Valéria, meteorologista do Inema.>
“Um El Niño considerado forte é justamente quando essa anomalia de temperatura ultrapassa os 2 °C e, inicialmente, o cenário indica que isso deve ocorrer mais próximo do fim do ano. Até lá, seguimos monitorando e avaliando qual será, de fato, a intensidade do fenômeno, a partir das próximas rodadas dos modelos climáticos”, completa. Deus te ouça…>