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Sobre a morte da psicóloga baiana Ana Luiza e o padrão que continua se repetindo

O caso traz a sequência clássica de controle, isolamento e ruptura que antecede a maioria dos feminicídios

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 25 de abril de 2026 às 14:32

Ana Luiza Mateus tinha 29 anos
Ana Luiza Mateus tinha 29 anos Crédito: Reprodução

(Sou obrigada por lei a, independentemente da minha opinião, me referir ao namorado da vítima como “suspeito”. Do mesmo modo, a usar expressões como “suposto feminicídio”, “provável crime” e afins. De antemão, portanto, já peço desculpas pelo que pode soar até ridículo.)

A morte da psicóloga e modelo baiana Ana Luiza Mateus, na última quarta-feira (22), no Rio de Janeiro, entristece profundamente, mas não surpreende quem acompanha de perto a violência masculina contra mulheres. O que provavelmente aconteceu no 13º andar daquele prédio não surgiu do nada. Ana Luiza caiu depois de fazer um percurso que resultou em uma madrugada de gritos e agressões. Então, virou mais um número na estatística. O namorado, Endreo Lincoln Ferreira da Cunha, conhecido como Tarso, é suspeito de tê-la empurrado e foi preso em flagrante depois de tentar reorganizar a cena e escapar das câmeras de segurança.

Ana Luiza Mateus foi encontrada morta após cair de prédio por Reprodução/Redes sociais

De acordo com o que foi amplamente divulgado na imprensa, o caso segue um percurso muito conhecido. Aquele foi mais um relacionamento que rapidamente se organizou em torno de tensão, explosões e tentativas de retorno à normalidade. A formulação da psicóloga Lenore Walker ajuda a entender os “ciclos de violência”. No apartamento da Barra, vizinhos ouviram gritos durante horas. Ali estava o momento previsto em que a violência deixa de ser contida. Depois disso, em muitos casos, ainda há espaço para pedidos de perdão, “sexo de reconciliação” e promessas que reorganizam a relação por um curto período. Em algum ponto, esse ciclo deixa de se recompor. É aí que a violência atinge o ápice e acontecem os feminicídios.

Antes disso, há quase sempre uma aceleração que costuma ser confundida com intensidade. Relações que avançam rápido demais (no chamado “love bombing” ou “bombardeio de amor”) reduzem o tempo de percepção do outro e ampliam o espaço de controle do agressor. A criminologista Jane Monckton-Smith já descreveu esse tipo de dinâmica como uma forma de encurtar o caminho até o isolamento. Também de acordo com o que saiu na imprensa, em três meses, Ana Luiza já morava com o suspeito. Ao sair da Bahia para o Rio, em busca de trabalho, também se afastou da rede de apoio que poderia perceber o que estava acontecendo e ajudar de alguma maneira. Longe de casa, o controle encontra menos resistência e se instala, claro, muito mais facilmente.

A própria Ana Luiza descreveu o que vivia como uma “gaiola de ouro”. Uma expressão bem comum para uma realidade bastante conhecida. Nessa dinâmica, o controle se organiza aos poucos, com gestos que podem parecer cuidado e que, com o tempo, passam a restringir movimentos, escolhas e contatos. Também foi divulgado que ele se incomodava com o trabalho de modelo dela e esse é outro ponto importante. A autonomia da mulher costuma ser o primeiro alvo quando um homem precisa reduzir o mundo dela para conseguir dominar inteiramente. Seja qual for o trabalho, o agressor sempre terá alguma “restrição”, seja pela natureza da ocupação, pelos colegas ou pelo ambiente.

Ana Luiza Mateus foi encontrada morta após cair de prédio por Reprodução/Redes sociais

Ainda de acordo com o que foi divulgado, no prédio onde a tragédia aconteceu, os gritos foram ouvidos por um intervalo longo demais para passar despercebido. Foram duas horas. Durante a madrugada. Mesmo assim, não houve qualquer intervenção de vizinhos. Esse silêncio de testemunhas também é parte do funcionamento. A violência doméstica continua sendo tratada como algo que pertence ao espaço privado, inclusive quando todos escutam e sabem exatamente o que pode acontecer. É compreensível que as pessoas sintam desconforto e receio, mas também há uma escolha recorrente de não se envolver. Entre o medo e o impulso de agir, a inércia, infelizmente, costuma vencer.

Outro dado que se confirma nesse caso é o aumento do risco no momento da ruptura. Segundo relatos de familiares, Ana Luiza estava com as malas prontas e a passagem de volta para a Bahia comprada. Quando o homem abusivo toma conhecimento da decisão de ruptura, a violência tende a escalar. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que muitos feminicídios acontecem exatamente nesse momento. A decisão de ir embora não encerra o ciclo automaticamente. Em muitos casos, é quando ele se torna mais instável, imprevisível e trágico. É o famoso e absurdo conceito de que “ele não aceitou a separação”.

Se o caso se confirmar com um feminicídio, dizer que esse desfecho poderia ter sido previsto e evitado (poderia, sim) não significa “revitimizar” Ana Luiza ou simplificar o que é sair de uma relação assim. Os sinais estavam ali, como costumam estar, mas reconhecê-los e agir a partir deles envolve mais do que percepção individual. Existe medo, isolamento e uma série de fatores que vão estreitando as alternativas possíveis para a mulher. Sair exige estratégia, frieza, presença de espírito, apoio, dinheiro e, muitas vezes, algum tempo pra se organizar. Terminar uma relação que já chegou a esse ponto é quase desarmar uma bomba, principalmente quando há filhos envolvidos. Muitas vezes, é necessário ter apoio especializado. Não é um gesto simples nem imediato. Especialistas aconselham, inclusive, a planejar em segredo e fugir sem malas, sem anúncio e deixando tudo pra trás. Sim, é difícil. Uma vez nesse lugar, não há mais saída fácil.

Depois do suposto crime, as ações do suspeito indicam tentativa de controle até o fim. A preocupação em alterar a cena e evitar registros mostra alguém que entende perfeitamente o que teria feito e tenta administrar as consequências na própria vida. A ideia de descontrole momentâneo, frequentemente usada pela defesa de criminosos, dificilmente funciona como explicação em feminicídios. Basta uma investigação até superficial e é fácil perceber que desfechos como esse se constroem ao longo do tempo, com violências se sobrepondo até o dia do crime. É tudo feito em sequência, passo a passo, como se todos seguissem o mesmo manual.

O que possivelmente aconteceu com Ana Luiza expõe mais uma vez, entre tantas, a fragilidade das respostas que cercam esse tipo de violência. Falamos muito, reconhecemos o problema, há muitas campanhas e belas peças de propaganda, mas a capacidade de reação segue limitada e lenta. Não faltam posts, vídeos e comentários indignados, mas, na prática, por um lado, mulheres demoram a entender a armadilha e decidir sair. Por outro lado, quando decidem, precisam desesperadamente de uma rede de proteção que nem sempre existe ou atua com a rapidez e a firmeza necessárias.

Como também é comum nesses casos, o suspeito fugiu das consequências do próprio ato, se matando na cela logo depois de ser preso. Com isso, impede que a justiça seja feita. De todo modo, se ele for culpado e o diabo existir, que o guarde no pior lugar do inferno. Lá, ele não nos preocupa mais. Mas muitos homens como ele seguem em circulação com outros nomes, outras histórias e a mesma proposta nefasta para mulheres que cruzam pelo caminho.

Potenciais feminicidas são óbvios e têm o comportamento previsível. O manual que seguem à risca é muitas vezes divulgado por eles mesmos, para outros potenciais criminosos, em perfis altamente lucrativos nas redes sociais. O problema é que eles permanecem com “liberdade de opinião”. Outro problema é que continuamos sendo treinadas para um certo tipo de “romantismo” suicida que nos faz acreditar no “comigo vai ser diferente”. Mesmo quando tudo começa a ficar horrível, antes de sentir medo, muitas de nós ainda exercitam o “deixar pra lá”, perdoar, flexibilizar, entender, acolher e insistir na relação. Mesmo assim, no Brasil, o feminismo é que é considerado “errado”, “estranho” e “ridículo” por boa parte da população. Então, tá bom.

@flaviaazevedoalmeida é articulista do Correio, editora e mãe de Leo