Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

O Wagner Moura que a Bahia conhece: da cantina da Facom ao tapete vermelho do Oscar

A construção do Wagner artista passa por uma trajetória típica de um filme de Tarantino. Conheça, por meio dos relatos dos amigos, como Wagner se tornou o cara que pode trazer o Oscar de melhor ator para o Brasil

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 14 de março de 2026 às 05:00

Wagner Moura da vida real
Wagner Moura recebendo o livro de Franciel, no camarim. "A primeira coisa que ele me perguntou foi do Vitória", disse Franciel Crédito: Divulgação

Nessa altura do campeonato, é difícil ter alguém que não saiba quem é o baiano Wagner Moura, seja na terra dos Yankees ou aqui no Brasil. Talvez apenas o forrozeiro Biu, o único que Moura já implorou por um autógrafo. “Esse rapaz está dando em cima de mim?”, indagou Biu, sobre Moura. Neste domingo, nosso astro pode (ô Glória, eparrê, amém, namastê) ser o primeiro brasileiro a conquistar um Oscar de melhor ator, fora o de melhor filme, Agente Secreto, entre outras indicações, mas não cabe aqui agora falar sobre estes pormenores, procure em outra matéria as indicações. O assunto aqui é outro: quem construiu este ator consagrado? Como diria Gilberto Gil, a Bahia deu régua e compasso para este homem passageiro do busão Stiep R1, assíduo estudante das disciplinas Cantina I, II e III na Faculdade de Comunicação (Facom/Ufba) e criou muitas histórias até chegar neste tapete vermelho dos gringos.

Nada melhor que contarmos esta trajetória por meio de pessoas do seu convívio social de longas datas. Poderíamos até começar parafraseando Quentin Tarantino, no estilo “Era uma Vez em... Bahia” para falar de Wagner Moura nos tempos de cidadão comum, mas creio que o baianês cairia melhor, do tipo “vou te contar uma porra que aconteceu com esse bicho…”, mas é melhor mantermos a postura. Contudo, é impossível acolher qualquer sanidade quando abrimos a caixa de ferramentas para o escritor culhudeiro Franciel Cruz falar sobre o amigo canguinha, mas fiel e de um coração enorme.

“Só para registrar uma coisa importante, antes de mais nada: Wagner comprou meus dois livros, viu? Comprou o Ingresia e comprou o livro novo. Agora, o detalhe é que ele pagou só o preço do livro e o frete. Já o amigo dele, Vladimir Brichta, pagou o livro, o frete e ainda botou dinheiro para eu tomar duas cervejas. Ou seja, fica provado que Wagner é meio mão de vaca. O homem ganhando prêmio internacional e não paga nem uma cervejinha para o amigo", disse Franciel, revoltadíssimo com o amigo. Cruz é pós-graduado em dança de rato, com especialização em ingresia, o nome do seu primeiro livro. É também autor de "Tá pensando que tudo é futebol?", ambos com elogios rasgados de Wagner Moura, que elege o amigo como o melhor texto do planeta.

A admiração veio dos tempos de faculdade e é mútua. “Quando entrei na faculdade eu já era um velho, tinha terminado o segundo grau, passei uns dois ou três anos sem estudar, fui fazer outra faculdade e depois voltei. Então, quando cheguei na universidade já era mais velho. Wagner entra dois anos depois e, diante de mim, era um menino. A admiração era meio recíproca, talvez ele admirasse o velho e eu admirava aquele menino alegre, comunicativo, que ficava tocando na cantina”, lembra Franciel, um guia quase espiritual de Wagner nos tempos de faculdade.

“O ‘trabalho’ que eu fiz para Wagner na faculdade não foi acadêmico. Foi outro: abrir caminhos para ele entender que mais importante do que a sala de aula era saber que a festa espanta a miséria. A gente se encontrava sempre na cantina do Vovô, onde tínhamos aula de Cantina 1, Cantina 2, Cantina 3 (na época, se vendia cerveja na cantina da Facom velha). Era essa confraternização de moleques vivendo a vida. E ele compreendeu bem esse espírito”, lembra.

Foi neste ambiente acadêmico que foi se formando um Wagner Moura híbrido, dividido entre a dramaturgia e o jornalismo. Como lembra Franciel na época da faculdade, Moura era um aluno normal da Facom. Comia água, frequentava os melhores (e piores) lugares, tocava violão, cantava e, quando sobrava tempo, pegava no livro para estudar. Tudo na ordem natural de um estudante de comunicação raiz. Na profissão ele fez alguns trabalhos, como repórter do programa de Michelle Marie. Foi também na faculdade que conheceu a esposa Sandra Delgado, ainda nos anos 90, mas não chegou a rolar nada. Só foi acontecer no Carnaval de 2001, depois de um beijo atrás do trio elétrico. Até hoje estão casados, uma prova de que amor de carnaval pode durar, sim.

Mas, apesar de uma vivência intensa na Facom, o sangue de Wagner era de ator, apesar do jornalismo ter contribuído muito para sua formação.

“Eu acho que o jornalismo ajudou Wagner a chegar onde chegou. Não só o curso, mas também aquela turma dos anos 1990, porque era uma galera muito descontraída. Wagner era alegre, mas também sempre foi muito focado. Enquanto estudava na faculdade, já se dedicava intensamente ao teatro. Estudava muito, de uma forma impressionante”, lembra Franciel, que ainda convive com Wagner Moura e lembra quando a parada começou a ficar séria e o amigo estava virando a chave de vez.

Wagner na peça Abismo de Rosa, dirigido por Fernando Guerreiro, em 1997. Ele está no centro, com Clécia Queiroz e Nádia Turenko. por Divulgação

“Lembro uma vez que saímos para beber num posto no Rio Vermelho e ele já era conhecido. Algumas pessoas começaram a pedir foto e autógrafo. Eu disse a ele que aquilo era exatamente o tipo de fama que eu não queria para a minha vida, porque sair para beber e ser interrompido o tempo todo devia ser complicado. Só serve se for pra pagar minha cerveja. Mas Wagner sempre foi muito atencioso. Parecia que já tinha uma vocação para lidar com aquilo, para dialogar. E eu acho que o jornalismo ajudou nisso: a saber ouvir o outro, conversar, fazer perguntas. Essa escuta dele é muito do jornalismo", assegura Franciel, que volta mais adiante para falar do consagrado Biu.

Se a época de jornalismo ajudou na sua formação de artista, de onde surgiu o talento? Aí só rebobinando a fita para Rodelas, nos anos 80, onde ele fez parte do primeiro grupo de teatro, o Guterchaplin, mais precisamente em 1987, quando ele tinha entre 10 e 11 anos. “Ali eu percebi que ele era um garoto diferenciado. Inteligente, esperto… O grupo era recém-formado e eu precisava muito de artistas. Eu disse: é Wagner que eu quero! E acertei”, lembra Rangel Amaral, em entrevista a jornalista Camila Marinho no Jornal Hoje, da Globo. Ele é idealizador do Guterchaplin e quem descobriu Wagner no interior baiano. Rangel guarda com carinho o único registro de Moura no papel de um pastor, em uma peça de Natal. “É como se eu tivesse acompanhado uma semente que foi germinando até se transformar numa grande árvore que dá muitos frutos”, complementa Amaral.

Essa germinação se estendeu para Salvador. Filho de militar da Aeronáutica, Wagner acabou vindo parar na capital e morando no Stiep (onde a esposa também morava). Foi na escola que ele conheceu o amigo e hoje compadre, o cirurgião dentista Fábio Barbosa, padrinho do filho de Wagner, José. E Wagner é padrinho da filha de Fábio, Maria Clara. Diferente do jeito moleque da faculdade, na escola o compadre conta de um Moura mais tranquilo, sem muitos amigos. Eles se conheceram no Colégio Mendel.

“Wagner não era aquele sujeito popular que conversa com todo mundo. Sempre foi mais reservado, mas sempre atento à arte. No colégio, ele criou um curso de teatro junto com uma professora de português. Wagner foi um dos principais organizadores. Eles montaram peças, ensaiavam de verdade e apresentavam no teatro. Aquilo foi muito importante, porque o teatro entrou de vez na vida dele ali dentro da escola, embora ele já tivesse feito cursos antes”, lembra Fábio. Eles também fundaram na época a banda de rock chamada ‘Sua Mãe’ e Wagner era o vocalista. Adorava cantar U2. A banda ainda existe e tem até perfil no Instagram (@bandasuamae).

Fábio convivia com toda família, José Moura, que era militar e faleceu em 2011, e a mãe, Alderiva Moura. Ele lembra que a rigidez do pai o fez entrar na faculdade de jornalismo. Seu Moura não admitia ver Wagner apenas no teatro e disse que ele precisaria ter outra profissão para se sustentar. Jornalismo, véi?

“O pai dele gostava muito de mim. Ele dizia que eu era mais maduro que Wagner e sempre falava: ‘tome conta de Vag’. E eu realmente sempre fui um pouco esse freio para ele e até hoje ele me pede opinião das coisas. Ele acabou indo primeiro para o jornalismo muito por influência da família. O pai dele era militar, um cara muito sábio, mas também muito rigoroso. Naquela época, começo dos anos 1990, ninguém queria ter um filho artista. Então o pai dele nunca proibiu, mas sempre colocava aquela preocupação: artista, tudo bem, mas você também precisa ter outra profissão para ganhar dinheiro. Era muito o pensamento da época", lembra.

Wagner Moura da vida real
Wagner Moura e seu amigo Fábio Barbosa Crédito: Divulgação

Pulemos para o teatro. Desde sempre Wagner já chamava atenção em qualquer espetáculo que passava. O jornalismo estava perdendo para a dramaturgia. Antes do Oscar de domingo (estamos prontos, Deus!), o primeiro prêmio de Wagner foi aqui em Salvador, como ator revelação do espetáculo Abismo de Rosa, dirigido pelo diretor teatral e gestor cultural, Fernando Guerreiro. A peça recebeu 5 indicações ao Prêmio Braskem de Teatro e Moura levou o dele. E tudo aconteceu por acaso.

“A montagem seria feita por três atores, duas mulheres e um homem, e originalmente teria Clécia Queiroz e Jorge Mascarenhas no elenco. Mas Jorge não pôde fazer o espetáculo e as meninas sugeriram Wagner para o lugar dele. Eu já o conhecia de vista, mas ainda não tinha tido a experiência de dirigir ele em um projeto grande. Quando ele chegou para os ensaios eu fiquei muito surpreso, porque percebi logo que era um ator fora da curva. Não digo isso porque ele faz sucesso hoje, mas porque já era impressionante a inteligência, a dramaticidade e a velocidade com que ele pegava as indicações de direção”, conta Fernando Guerreiro, presidente da Fundação Gregório de Matos (FGM).

A parceria ficou ainda mais forte entre Guerreiro e Moura, até o diretor de teatro João Falcão levar Wagner, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta para fazerem teatro no Rio de Janeiro. O resto é história: novelas, filmes e Oscar. E foi justamente no Rio que este jornalista conheceu pessoalmente outra qualidade quase doentia de Wagner: ser torcedor do Vitória.

O ano era 2017 e Moysés Suzart, quem vos escreve, era assessor de imprensa do Vitória. O Leão jogaria com o Flamengo e os dois rubro-negros foram convidados para acompanhar o jogo por outro funcionário do clube, Valdir Andrade. Eles iriam passar o dia conosco e acompanharia a partida junto com a comissão técnica.

Na recepção, muita conversa, jogadores tietando, tudo normal. No estádio, ficamos na mesma cabine especial acompanhando a partida. E ali conhecemos a paixão do homem pelo seu clube. O Vitória fez um gol. Wagner e Lazinho pularam, gritaram, chamaram a Lá Ela. Resultado: torcedores do Flamengo hostilizando a gente, copos de cerveja sendo arremessados em nossa direção. Não satisfeito, o Leão fez outro gol. Mais gritaria, copos voando e o povo querendo invadir a cabine. Wagner apenas sorria o seu riso de canto de boca sem abrir os dentes, como se estivesse adorando a treta. Foi a primeira vez na vida que não queria mais ver gol do Vitória.

Wagner Moura da vida real
Biu, Wagner Moura e Franciel Cruz, o trio nordestino Crédito: Divulgação

Confesso que fiquei tentado em pedir um autógrafo, mas me contentei com uma foto. Diferente de Biu, que sequer sabe quem é Wagner Moura e o caminho foi inverso. Chegou a hora de Biu. Já famoso e com seu apartamento no Oceania, de frente para o Farol da Barra, o concorrente ao Oscar decidiu fazer uma festa e contratou um trio de forró. E lá estava Biu com seu triângulo e chapéu de couro, sempre pedindo uma dose de cachaça, prontamente atendido por Franciel Cruz, que estava ajudando na organização da dança de rato.

Quando Wagner apareceu, o sanfoneiro e o zabumbeiro pararam de tocar, admirados. Eles não sabiam que a casa era de Wagner. Interromperam a música e pediram foto, prontamente atendidos pelo ator. Só Biu estava na dele, com cara de paisagem. A única atitude dele foi chamar Franciel. “Você pode me trazer outra cachaça?”. Franciel apontou para Wagner Moura e disse: “Rapaz, eu não mando em nada aqui, não. Quem manda é ele". Biu, sem entender nada, meteu a réplica. “E quem é ele?”.

O desconhecimento de Biu foi parar nos ouvidos de Moura (dizem que foi por meio do fofoqueiro Franciel). E Wagner, admirado, entrou em cena e na resenha. “Wagner Moura não só pediu um autógrafo para Biu, como falou que era fã do maluco, é mole? O cara cismou, pois achava que o ator famoso era eu”, conta Franciel. E a magia aconteceu. “O cara começou a noite como Biu e terminou como Bill. Ele deu autógrafo para Wagner Moura com dois L”, lembra Franciel.

Para os amigos, Wagner é esta linha reta simples e admirável. Terminou cantando forró ao lado do agora Bill, como fã e ídolo conectados. “Tenho uma admiração profunda pelo personagem que Wagner conseguiu construir sem abandonar os afetos. Não vou dizer raízes, porque quem gosta muito de raiz é minhoca, mas ele nunca abandonou os afetos. Ele nunca perdeu essa capacidade de manter as relações. Então, um cara com essa característica merece o melhor de tudo. Independentemente de ganhar ou não qualquer prêmio, ele já ganhou na forma como construiu a carreira. Mas se no domingo ele botar a mão na taça, não confunda o ç com o c, melhor ainda. Só quero uma coisa: que ele grite ‘Bora, Vitória!’. A gente tem que louvar a alegria, a amizade e, principalmente, o Leão", completa Franciel.

Sim, Wagner já ganhou a estatueta na categoria baiano cheio de molho e afetos. Vale mais do que qualquer prêmio no tapete vermelho dos gringos, inclusive. Mas fala a verdade. Você preferia acompanhar o Oscar lá dos Estados Unidos ou estar ao lado de Bill, na hora de Wagner levar o Oscar, ver o forrozeiro pular da poltrona, apontar para a TV, como Dicaprio fez no filme ‘Era uma Vez em... Hollywood’, e dizer: “Oxe, já dei autógrafo pra esse bicho”. Absolute cinema!

Wagner Moura e a esposa, Sandra Delgado por Reprodução

Tags:

Oscar Facom Wagner Moura O Agente Secreto Oscar 2026 Franciel Cruz