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'Tiraram a paz': infestação de muriçocas faz moradores recorrerem até a fumacê em bairros de Salvador

Aumento começou no verão, mas se tornou mais perceptível desde fevereiro; segundo pesquisador, população de mosquitos tem aumentado nas cidades

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 15 de março de 2026 às 05:00

Córrego e matagal: na Boca do Rio, nem mesmo a praia está livre das muriçocas, conta o presidente da Associação de Pescadores da Boca do Rio, Theo Conceição
Córrego e matagal: na Boca do Rio, nem mesmo a praia está livre das muriçocas, conta o presidente da Associação de Pescadores da Boca do Rio, Theo Conceição Crédito: Sora Maia

A rotina da oficina mecânica teve que mudar. Se, antes, a Educar, na Rua Clemente Mariani, na Boca do Rio, ficava aberta até o início da noite, agora fecha mais cedo, por um motivo de força maior: a infestação de muriçocas que ataca funcionários e clientes diariamente. O problema se intensificou há pouco mais de um mês, de um jeito que o proprietário, Eduardo Brandão, 46 anos, nem se lembra de ter visto algo parecido nos últimos anos.

"Já viu nuvem? Nuvem de muriçoca? É o que tem aqui", diz ele, que mora numa casa em cima da oficina. Ele tem encerrado o expediente e fechado as portas , no máximo, até 16h30. Se tiver alguma emergência com clientes, pode até abrir pontualmente, mas é a exceção. "Os próprios clientes falam e é um constrangimento. Às vezes, as pessoas até ficam sem querer esperar e dizem que vão voltar no outro dia de manhã. Geralmente, quando chove, as muriçocas dão um tempo, mas nem na chuva estão respeitando", acrescenta.

Mas não é só na Boca do Rio que as muriçocas estão tirando a paz de moradores e comerciantes. Essa é uma época do ano que já costuma ser propícia ao aparecimento desses insetos, mas há relatos de que os pernilongos têm aumentado em outras localidades, como Patamares, Imbuí, Alphaville, Horto Florestal e até a Barra.

Empresas especializadas no controle de insetos têm visto a demanda aumentar. Na última semana, a empresa Best Service Controle de Pragas, que oferece o serviço de fumacê privado, chegou a operar com a capacidade máxima - ou seja, aplicando o termonebulizador entre três e quatro atendimentos por dia, todos os dias. "A demanda por esses serviços para insetos alados sempre existiu, mas é sazonal, com períodos que agravam mais. Agora, a demanda aumentou. Tem épocas que a gente faz um por dia ou até nenhum", diz o sócio da empresa, Antônio Seixas.

Moradores do Imbuí contrataram um fumacê para controlar as muriçocas; a empresa Best Service Controle de Pragas disse que está operando com capacidade máxima nos últimos dias por Divulgação/Best Service

Praia

Na Boca do Rio, nem mesmo a praia está livre delas. "Até na área da colônia, que tem um vento forte, não chegava muriçoca por causa disso. Hoje em dia, elas vêm em nuvem e atacam de galera. Tem mais ou menos um mês que piorou muito", conta o presidente da Associação de Pescadores da Boca do Rio (Apebor), Theo Conceição. Além dessa região, ele cita o Alto do São João, em Pituaçu, como uma área que os moradores têm feito queixas. "De 16h até 19h, é a mesma coisa em várias ruas. Mas tem lugar que é a noite toda".

Segundo Conceição, muitos moradores dessas localidades têm se "trancado" mais cedo. Morador da Boca do Rio desde criança, ele nunca tinha tido o hábito de usar repelente até então. Seu pai, que costuma ficar sentado na praia durante as tardes, também passou a adotar o uso do produto.

"Na praia, as muriçocas estão fortes. Para aguentar o vento lá, tem que ser forte. Acredito que tem várias situações que influenciam, como áreas de mata, como no Alto do São João, as chuvas e os córregos. Isso tem tirado a paz, tirado o lazer e tirado o tempinho de duas horas de trabalho que a pessoa poderia estar ali. Parece que piorou a situação de maneira geral", explica.

Na Rua Clemente Mariani, há um córrego e uma área de matagal que, para o mecânico Eduardo Brandão, pode contribuir com a situação. Na oficina, ele e os funcionários só trabalham de camisa UV com mangas longas agora. "O medo é justamente porque tem mosquito da dengue. A gente não sabe o que vem daí. Daqui a pouco, vou trabalhar só para comprar repelente e inseticida, porque elas (as muriçocas) ficam até no teto de casa".

Córrego e matagal: nem mesmo a praia está livre das muriçocas, conta o presidente da Associação de Pescadores da Boca do Rio, Theo Conceição por Sora Maia

Fumacê

Na última semana, na Villa Anaití, praça que reúne condomínios no Imbuí, os moradores contrataram um serviço privado de fumacê para conter o problema, que escalonou nas últimas semanas. Segundo o presidente da Associação de Moradores da Villa Anaití, Alexandre Deminco, a incidência de muriçocas cresceu, gradualmente, desde o início do verão, mas atingiu níveis insuportáveis a partir de fevereiro.

O terreno nos fundos da Villa conta com uma horta comunitária e os condomínios estão localizados em uma área perto de um córrego na comunidade do Bate-Facho. A associação chegou a acionar a prefeitura e teve intermédio de um vereador, mas a avaliação era de que o cenário estava dentro do esperado para a época.

Para os moradores que vivem há mais tempo na área, contudo, a incidência agora é maior. "É uma queixa de todos os moradores que 17h, 18h fica impraticável. Até o inseto, em si, você percebe que é um pouco maior. É uma muriçoca, mas não aquela magrinha. São muriçocas grandes", conta Deminco.

Os relatos são de que os insetos chegam até mesmo aos andares mais altos dos edifícios da região, que chegam a ter mais de 20 andares, em algumas unidades. O fumacê foi uma medida emergencial. "Não estava na previsão orçamentária, porque não é algo que ninguém tinha previsto esse ano".

Deminco tem um foodtruck em uma rua próxima e conta que os clientes também têm sentido os mosquitos. "Os clientes estavam reclamando e comprei cinco frascos de repelente. A gente oferece a todos que chegam, porque o pessoal estava até evitando de ir. Estava afetando até as vendas", explica.

Organizador da Feira Perto de Casa, uma feira itinerante de economia criativa, gastronomia e variedades, o empresário Franco Danielle fez um evento no Imbuí no fim de fevereiro e conta que se surpreendeu com as muriçocas. "Foi terrível. A gente já fez outros eventos lá e uma vez por mês fazemos uma praça gastronômica, mas essa feira é um evento maior, com mais de 50 expositores e todo mundo se queixando, porque não era normal", conta.

Em um dos dias, a filha de Franco, que tem 6 anos, foi com a família ao local do evento e sofreu com as picadas dos mosquitos. "Até hoje, ela está com a perna toda ferida, porque é alérgica. Mesmo passando repelente, a gente não conseguia conter. As muriçocas mordiam por cima da calça".

Franco acredita até que os mosquitos atrapalharam a feira de alguma forma. "Muitos moradores não quiseram ficar por causa das muriçocas. Os expositores passaram repelente, usando calça, mas quem é alérgico sofreu bastante. E não está sendo só no Imbuí. Na semana passada, a gente estava no Greenville e o local que a gente fica normalmente já tem uma quantidade de muriçocas. Dessa vez, estava insuportável. Foi ao ponto de algumas pessoas filmarem para pedir ao síndico para trocar de lugar", conta, citando a localidade em Patamares.

De acordo com o sócio da Best Service Controle de Pragas, Antônio Seixas, o produto é aplicado ao longo de quatro semanas, geralmente uma vez por semana. "O carro vai e elimina os insetos no ambiente, que já não vão colocar ovos. Mas os ovos que já tinham sido colocados vão eclodir, por isso o serviço vai eliminando gradativamente". Ainda segundo ele, o produto não é residual e afeta não só os pernilongos mas também o Aedes aegypti.

Entre as áreas que fizeram contratações recentes, além do Imbuí, ele cita Patamares, Piatã, Trobogy e Lauro de Freitas. Condomínios de Alphaville também fizeram pedidos de orçamento na última semana. "Geralmente, quando tem mata no entorno, a incidência é muito maior. A gente costuma falar que, na Bahia, é verão o tempo todo, mas o calor e a chuva são propícios".

O serviço demora cerca de 20 minutos para a aplicação. Ainda que não haja riscos para pets, a orientação da empresa é que, durante esse período, moradores evitem a circulação nas áreas comuns onde há aplicação, especialmente idosos, crianças e animais de estimação. "Biologicamente, trabalhamos com três tipos de produtos regulamentados. São moléculas diferentes em cada ciclo, porque pode ser que algum dos insetos sobrevivam e criem resistência".

Repelente

Fora dessa região que envolve bairros no entorno da Avenida Paralela, há relatos de outras infestações semelhantes. No condomínio onde mora há três anos, no Horto Florestal, o publicitário Alan Abreu, 47, já é acostumado a lidar com as muriçocas. No entanto, foi também há cerca de um mês que ele e outros vizinhos começaram a perceber que a incidência ia além do normal - mesmo considerando os momentos de pico. "Esse ano está um negócio que elas mordem até com repelente. Tenho usado repelente e uma raquete que não funciona muito bem. O repelente diminui, mas não totalmente", conta.

Até mesmo os horários são diferentes. Se, na maioria das casas, os mosquitos aparecem no fim da tarde, Abreu conta que tem sentido um aumento expressivo até em horários como 10h da manhã. "Eu sou meio alérgico e, mesmo com ar-condicionado, não adianta. O lugar (das picadas) fica irritado, inchado. Passo o dia me coçando e é bem mais do que o normal para essa época".

Em casa, ele tem deixado um frasco de repelente em cada um dos dois andares do imóvel. "Eu sempre uso, mas agora todo mundo em casa (a esposa e as filhas) vive besuntado de repelente. Do Carnaval para cá, já acabamos com um dos frascos", conta.

Praticantes de corrida de rua têm sentido a diferença, especialmente nos bairros mais afetados. Os alunos da Flash Assessoria Esportiva já vinham sentindo nas noites de treinamento no Imbuí. No entanto, na última semana, segundo o treinador Anderson Lopes, os insetos assustaram no Porto da Barra. "No mês passado, a gente sentiu no Jardim de Alah. Os alunos foram correr e vieram várias nuvens de mosquitos. Todo mundo chegou com pintinhas de mosquito no corpo", conta.

Para ele, há um fenômeno que considera atípico. "Não chega a atrapalhar o treino, porque incomoda mais no início, quando o pessoal vai fazer alongamento e aquecimento. Mas, depois que começa a correr, não incomoda tanto. O problema mesmo é a chegada. Por isso, vou até indicar que as pessoas usem repelente".

Procurada pelo CORREIO, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) disse que, entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, foram realizadas 458 ações relacionadas à presença de muriçocas, nos 12 distritos sanitários da capital. O órgão não informou quantos desses atendimentos foram realizados por mês e nem quantos foram feitos em cada local.

Em nota, a SMS informou que o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) faz o monitoramento contínuo de áreas com presença de muriçocas em Salvador e mantém ações regulares de controle em diferentes pontos da cidade. Entre as atividades citadas pelo órgão, estão avaliação ambiental dos locais, coleta e análise de larvas para identificação de possíveis focos. Agentes também colocam larvicidas, caso haja focos, além da aplicação de inseticida, se identificarem que há necessidade.

"Situações de aumento pontual desses insetos podem ocorrer de forma localizada e, em geral, estão associadas a fatores ambientais, como obras nas proximidades, acúmulo de lixo, presença de água parada ou áreas com condições favoráveis para o desenvolvimento desses vetores. Nesses casos, é fundamental que a população comunique a ocorrência para que os órgãos responsáveis possam avaliar a situação e adotar as medidas necessárias".

A SMS afirma que muitas dessas demandas envolvem ações de limpeza urbana ou manutenção de espaços públicos e orienta que a população registre solicitações por meio do canal 156, além de e-mail e telefone. "Também é possível solicitar, pelo mesmo canal, serviços de limpeza de canais e córregos, medida importante para melhorar o fluxo da água e reduzir ambientes favoráveis à proliferação de muriçocas".

População de muriçocas tem aumentado nas cidades, diz pesquisador

Ainda que seja difícil mensurar as muriçocas comuns, é possível afirmar que, sim, tem havido aumento populacional de insetos vetores a cada ano, de acordo com o entomologista Artur Dias Lima, doutor em Biologia Parasitária pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor da Universidade Estadual da Bahia (Uneb).

Isso tem ocorrido, segundo ele, principalmente nas zonas urbanas e é afetado principalmente pelas questões climáticas e das condições sanitárias das cidades. Uma muriçoca pode completar seu ciclo em qualquer ambiente com água, a exemplo de bueiros, esgoto a céu aberto, tanques e recipientes que acumulam água de chuva, como calhas dos telhados, piscinas abandonadas, ralos das casas e lixos em terrenos abandonados. Bairros que sofrem com mais falta de água correm mais risco porque os moradores precisam armazenar mais água em locais que podem acabar servindo como criadouros.

"No caso dos pernilongos, também conhecidos como muriçocas, que são insetos da espécie Culex quinquefasciatus, o risco se dá em diferentes contextos: podem provocar alergias e coceiras nas picadas, dermatites, quando o inseto suga o sangue, e noites mal dormidas causando insônia e estresse", cita.

Apesar de parecerem inofensivos, os pernilongos também são transmissores de doenças como a Filariose Linfática (Elefantiase), febre do Nilo Ocidental (encefalite) e Dirofilariose, que pode atacar o coração dos cães e gatos e causar nódulos nos pulmões dos humanos. A febre do Nilo Ocidental, por exemplo, pode causar desde febre e dor de cabeça até problemas no sistema nervoso e morte.

Os períodos de maior incidência vão depender das questões climáticas e sanitárias de cada região, mas, em Salvador, pelo clima quente e úmido, esses insetos podem aparecer o ano inteiro. Ainda assim, no verão, com as temperaturas mais altas, o ambiente é favorável para que as muriçocas se proliferem mais rápido. Isso porque, nessas épocas, o ciclo biológico de ovo a adulto ocorre em um tempo menor - cerca de uma semana (em condições normais, pode chegar a 10 dias). Assim, os ciclos mais rápidos ajudam a aumentar a população desses insetos.

Por isso, uma das principais formas de evitar infestação é não formar criadouros com água acumulada. "Os pernilongos atacam ao entardecer, a noite e nas primeiras horas do dia. Repelentes, mosquiteiros, telagem das janelas, ventiladores, destino adequado do lixo e esgoto e limpezas dos quintais, ajudam a diminuir a população dos vetores e os riscos das picadas".

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