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Há 100 anos nascia o baiano que mudou a forma de entender o mundo

Geógrafo negro, Milton Santos, teorizou sobre desigualdades

  • Foto do(a) author(a) Mariana Rios
  • Foto do(a) author(a) Agência Brasil
  • Mariana Rios

  • Agência Brasil

Publicado em 3 de maio de 2026 às 14:56

Pensador dos territórios: os 100 anos de Milton Santos
Pensador dos territórios: os 100 anos de Milton Santos Crédito: Acervo Milton Santos/Divulgação

Comprar um único ovo, pagar fiado ou recorrer a pequenos comércios de bairro é uma realidade que atravessa cidades no Brasil e no mundo — dinâmica que revela como a desigualdade molda o consumo cotidiano, à luz das ideias do geógrafo Milton Santos.

No centenário do autor, celebrado nesta domingo (3), estudo de Livia Cangiano, da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual do Maranhão, mostra como esses arranjos formam o “circuito inferior” da economia urbana, adaptado à população de baixa renda. 

Ele faleceu em 2001, aos 75 anos, mas suas ideias continuam sendo referências para análises socioeconômicas no Brasil e no mundo.

A teoria de Milton divide a economia urbana em dois circuitos: superior, concentrado nas grandes empresas, com alto nível de tecnologia, capital e organização; e inferior, formado por pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos, mas altamente adaptável às necessidades da população.

“É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas”, diz Livia.

“Para dar um exemplo, nesse circuito inferior, pensando em alimentação, é o lugar onde a pessoa que não consegue comprar a dúzia do ovo, consegue comprar um ovo apenas. Eles vendem separadamente. As formas de comércio são menos endurecidas do que em uma grande rede supermercadista, onde só seria possível comprar a dúzia”, exemplifica, em reportagem publicada pela Agência Brasil.

A atualidade da teoria também aparece em pesquisas fora do Brasil. O projeto de pesquisa do qual Lívia faz parte aplica as ideias de Milton às dinâmicas urbanas em Gana, na África, e em Londres e Paris, na Europa.

Há 100 anos nascia o baiano que mudou a forma de entender o mundo por Acervo Milton Santos/Divulgação

Biografia

Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, e se tornou um dos principais nomes da geografia mundial. Ele concluiu o bacharelado na Universidade Federal da Bahia (Ufba) e o doutorado na Universidade de Strasbourg, na França.

Exilado durante a ditadura militar, lecionou em universidades na Europa, África e América Latina, antes de retornar ao Brasil, onde consolidou sua produção intelectual. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP).

Negro, enfrentou o racismo estrutural dentro da academia e construiu uma obra que redefiniu a forma de compreender o espaço geográfico, articulando economia, política e sociedade. Ele se tornou inspiração e referência para outros intelectuais negros, como a também geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

“Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana”, diz Catia.

A professora explica que a obra de Milton não trouxe como tema central a negritude, nem a dimensão política da relação entre classe social e raça. Porém, ele produziu uma teoria social crítica das desigualdades que ajuda a analisar as questões raciais. E nunca ignorou o tema quando era necessário se posicionar na vida pública.

“Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual.”

“Eu creio que é difícil ser negro e é difícil ser intelectual no Brasil. Essas duas coisas, juntas, dão o que dão, não é? É difícil ser negro porque, fora das situações de evidência, o cotidiano é muito pesado para os negros. É difícil ser intelectual porque não faz parte da cultura nacional ouvir tranquilamente uma palavra crítica”, disse Santos no programa Roda Viva, em 1997.

Teorias das desigualdades

Além da teoria dos circuitos urbanos, o geógrafo trouxe ideias que aprofundaram a compreensão sobre as desigualdades. Para Milton Santos, o espaço nunca foi apenas o cenário onde a vida acontece, mas o resultado direto de decisões políticas e econômicas.

Isso significa que a distribuição desigual de infraestrutura nas cidades (como saneamento, transporte ou acesso à internet) não é acidental, mas fruto de escolhas que privilegiam determinados grupos e territórios.

Em 1994, recebe o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud.
Em 1994, recebe o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud. Crédito: Site miltonsantos.com.br

Ao olhar para uma periferia sem serviços básicos ou para uma área valorizada com alta concentração de investimentos, o geógrafo propõe enxergar ali não um acaso, mas a materialização de relações de poder.

“Milton traz essa compreensão de uma geografia historicamente produzida pelos grandes aparatos do Estado. À medida que o capitalismo avança, processos de industrialização e urbanização no Brasil vão produzir desigualdades e destruição das economias locais. Seja do Nordeste, da Amazônia ou do interior dos estados. Determinados grupos sociais serão beneficiados pelo processo de modernização”, explica a geógrafa Catia.

No livro Por uma outra globalização, Milton Santos descreve um sistema vendido como promessa de integração e progresso, mas que, na prática, aprofunda desigualdades mundiais. Grandes obras de infraestrutura, como portos e corredores logísticos, conectam países e mercados, mas também reorganizam territórios locais, pressionam comunidades e ampliam a concentração de riqueza.

“Nunca na história da humanidade houve condições técnicas e científicas tão adequadas a construir o mundo da dignidade humana, apenas essas condições foram expropriadas por um punhado de empresas que decidiram construir um mundo perverso”, escreveu.

Outro conceito bem conhecido do autor, o “meio técnico-científico-informacional”, descreve como tecnologia, ciência e infraestrutura passaram a moldar o território. Na prática, isso se traduz em regiões altamente conectadas, com redes digitais avançadas e logística eficiente, convivendo com áreas onde faltam serviços básicos. Enquanto alguns espaços são preparados para atender às exigências do mercado global, outros permanecem à margem desse processo.

Futuros possíveis

Apesar dos diagnósticos críticos, Milton Santos também apontou caminhos de transformação. Ele defendia que as mesmas redes e tecnologias que ampliam desigualdades podem ser apropriadas por populações locais para criar alternativas econômicas e sociais.

Iniciativas comunitárias, uso de tecnologia em periferias e formas cooperativas de organização mostram, segundo o autor, que o território também pode ser espaço de resistência e reinvenção.

“Ele propõe uma leitura sobre o território brasileiro, trazendo ferramentas para que a gente pense concretamente nas desigualdades, que não fique apenas no plano teórico, mas que nos induza a ir a campo, a conversar com essas pessoas, a entender o cotidiano delas no espaço”, diz a geógrafa Livia.

“Além disso, ele faz uma proposta muito generosa para pensar o espaço, que é pensar o quanto a periferia urbana brasileira como um todo é capaz de produzir outras racionalidades de existência”, completa.

A tese de doutorado de Milton a tese de doutorado é intitulada O Centro da Cidade de Salvador
A tese de doutorado de Milton a tese de doutorado é intitulada O Centro da Cidade de Salvador Crédito: Site miltonsantos.com.br

Eventos

O centenário de nascimento de Milton Santos será celebrado com um conjunto de eventos pelo país. As programações ocorrem em formato híbrido e reúnem pesquisadores, ativistas e o público geral para debater o seu legado e a atualidade de sua obra.

O Seminário Internacional Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21 acontece de 4 a 8 de maio na USP, com transmissão virtual. O encontro é feito em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB).

No Rio de Janeiro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) do Sesc vai oferecer, ao longo do mês de maio, um ciclo de palestras sobre geógrafo.

A Universidade Federal do Tocantins realizará, entre os dias 26 e 29 de agosto, o evento Tocantins como Fronteira do Meio Técnico-Científico-Informacional, para debater, em âmbito internacional, o pensamento e a obra de Milton Santos.

Neto de escravizados

Filho de professores, neto de escravos-forros, Milton Santos construiu uma trajetória que ajuda a explicar a força do pensamento intelectual. A partir da Bahia, ganhou o mundo e se tornou uma das vozes mais respeitadas da geografia.

O escritor Valdomiro Santos Júnior destaca essa caminhada no livro Milton Santos, da coleção Gente da Bahia.

"Para ele, o território e o homem se interagem mutuamente, estabelecendo padrões e comportamentos que contribuem para explicar a realidade social. Isso não é válido apenas para o Brasil. Esse é um dos aspectos que faz com que a obra de Milton Santos se destaque no mundo inteiro: a interação entre território e homem e homem e território, um influenciando na história do outro, é que tornou o pensamento de Milton, academicamente falando, original".

Milton Santos publicou mais de 40 livros ao longo da carreira. Entre os principais temas abordados estão o território, a globalização e as desigualdades sociais, conceitos que seguem presentes nos debates atuais, como reforça a professora e pesquisadora Patrícia Ponte.

"O meu entendimento do grande legado, quando a fala da obra do professor Milton Santos, é a atualidade dessa obra. Ele falava que a geografia é uma ciência, ela tem que ser uma ciência do presente, ela tem que estar conectada com o que está acontecendo. E ele fez essa geografia do presente, mas eu acho que até mesmo pela qualidade desse pensamento único do professor, ela se mostra hoje, mesmo 25 anos depois do seu falecimento, extremamente atual para a gente entender o mundo, que eu acho que é a grande contribuição dele. Além dessa atualidade, sempre foi uma obra muito marcada por uma preocupação social. Milton Santos sempre foi um intelectual que prezava pela justiça social, e essa justiça se materializava no espaço, no território. Ele fez essa ciência engajada. Então, a partir dos subsídios teóricos, dos conceitos que ele criou e que ele trabalhava, especialmente o território, do uso do território a partir da globalização e de como a globalização estava aprofundando as desigualdades sócio-territoriais. Essa visão que ele tinha do que viria a acontecer a partir do aprofundamento da globalização e de uma economia neoliberal, hoje a gente vê que é muito atual. O pensamento e a preocupação dele, o aumento das desigualdades sociais, territoriais, ele apontava os agentes, ele deixou caminhos para a gente refletir sobre o está acontecendo hoje".

Por isso, obra de Milton Santos segue em diálogo com as novas gerações de pesquisadores e leitores. Para o escritor Itamar Vieira Júnior, geógrafo de formação, esse legado também é marcado por uma experiência pessoal.

"O Milton Santos é essa grande referência. Me acompanhou na minha vida universitária, minha vida intelectual como pensador, ainda tem uma importância, um peso grande. Tudo o que eu aprendi sobre o mundo, sobre território, sobre a relação do homem, da sociedade, com o mundo onde vive... Eu tive aí o privilégio de estudar, de ter professores que traziam o pensamento do Milton Santos para a sala de aula e influenciaram decisivamente minha vida. Eu ainda tenho uma história muito particular com a família dele, porque eu fui o primeiro bolsista, fui contemplado com uma bolsa que só existe graças à família Santos, e se chama Bolsa Milton Santos, e hoje já foi institucionalizada e, ao longo de 20 anos, já beneficiou muitos, muitos estudantes e eu fui o primeiro, então eu carrego essa marca aí comigo".

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Geografia Milton Santos Centenário