Vendas de carros usados sofrem queda de até 70%

Novos critérios para oferta de crédito afastam os consumidores

Publicado em 5 de novembro de 2008 às 12:31

- Atualizado há 9 meses

As dificuldades geradas ao consumidor na compra de veículos usados - prazos de pagamento mais curtos, juros e parcelas mais altas e novas exigências nos financiamentos - e a desconfiança no mercado, reforçadas com as notícias freqüentes sobre crise financeira, têm afugentado cada vez mais o consumidor. Dados da Associação dos Revendedores de Veículos Independentes da Bahia (Assoveba) apontam que as vendas dos carros semi novos caíram 70% nos últimos dois meses na capital baiana. Segundo a entidade, não há como precisar quanto esse déficit representa em unidades.

Antonio Luís vendeu apenas dois carros em dois meses(Foto: Paulo M. Azevedo)

De acordo com o presidente Da associação, Paulo Mascarenhas, a instabilidade gerada pela crise contaminou o segmento.' Ninguém sabe ao certo onde isso tudo vai parar. Infelizmente, acabou impactando no bolso do pequeno, do médio e do grande consumidor. Como não há um diagnóstico Nem um antídoto para A crise, ficaram todos a ver navios'. Apesar do período de incertezas, o dirigente da Assoveba acredita que o mercado volte a ser aquecido entre o mês de dezembro e início de janeiro.

Muitos modelos caíram de preço nas revendas(Foto: Marina Silva)

COMPRA E VENDA Se o momento é ruim para quem vende usados, para quem compra a hora é positiva. O presidente da Associação dos Revendedores de Veículos Independentes explica que os preços médios praticados pelas revendedoras e pelos particulares foram revistos para baixo. Há casos de defasagem de até 30% no valor que era cobrado há dois meses.

Hábil na compra e venda de veículos, independente do período do ano, o vendedor Antonio Luís, da Blau Veículos, amarga um momento difícil sob aspecto profissional. 'Vendi apenas dois carros nos últimos dois meses, sendo que a média para esse período seria entre 18 e 20 automóveis', disse. Os motivos, explica, são 'devido à instabilidade dos mercados e à falta de segurança para os bancos e para os consumidores'.

Antônio, que é conhecido como Gordo, disse que apesar da baixa no setor, há estratégias para driblar a crise e fechar uma boa compra. 'Quem queria comprar um Corsa Hatch, que custava R$27 mil, por exemplo, agora, pode adquirir o veículo por apenas R$23 mil. Uma queda de R$4 mil, que não seria alcançada nunca através de descontos. Portanto, se o consumidor quer investir e comprar seu semi novo, o momento é esse', declarou.

Segundo o proprietário da J.JVeículos, Aurelito Júnior, as taxas de juros dos semi novos oscilam hoje entre 1,9% a 2,5% ao mês. 'Essa taxa variava entre 1,2% à 1,6%', disse, ao informar que ,apenas nos últimos 15 dias, as tabelas foram majoradas três vezes.

Momento pode ser Ideal para a compra

O doutor em economia e especialista no setor automobilístico Luiz Pimenta afirmou ao CORREIO que este é o melhor momento para efetivar a compra. 'Se ele quer realmente comprar, se vai lhe fazer bem, então não há por que esperar. O que ele deve fazer é analisar se tem capacidade de pagar a parcela. Se quer e pode pagar, nada o impede que compre'.

Para o especialista, existe Uma grande confusão no mercado.' Estamos diante de uma crise mundial de confiança, o que gera o aumento nas exigências. O crédito, diferente Do que tentam dizer, continua disponível no mercado. Lógico que não na mesma intensidade que existia, mas existe'.

O administrador de empresas Felipe Jerônimo Carvalho é um dos interessados em comprar um carro usado. O carro que ele quer adquirir, até então avaliado em R$27 mil, agora, está sendo vendido por R$23 mil. O problema, segundo ele, é que o gerente do seu banco o desestimulou a contrair o empréstimo agora.

Segundo Luiz Pimenta, no setor automobilístico, a garantia é o próprio veículo. 'Essa precaução do gerente do banco está equivocada. Houve uma pequena elevação nos juros, mas que está sendo compensada pela queda nos preços. Se você comprava um carro por R$27 mil e pagaria sob juros de 1,5%, agora está comprando o mesmo veículo por R$23 mil à taxa de 2,0%', disse, ao afirmar que a taxa não pode ser comparada mais de forma isolada.

A gerente do Auto Shopping Itapoan, Daniela Peres , disse que as instituições financeiras aproveitaram a crise para fechar o cerco contra clientes 'aproveitadores'. 'Além do alto índice de inadimplência, existe o problema das revisionais'. Existem pessoas que, antes de pagar a primeira prestação, entram na Justiça pedindo revisão do contrato, sob alegação de juros altos. 'Com a morosidade do Judiciário, ficou fácil para um consumidor se aproveitar da brecha da Justiça e dar o calote na financiadora'. Peres explica que, na média, essa pendência leva dois anos para ser resolvida, período em que o 'falso comprador' utiliza o veículo, sem pagar uma só parcela.

Restrição preocupa

No Auto Shopping Itapoan - centro que reúne 23 lojas de semi novos no final da Avenida Paralela -, o movimento não preocupa os lojistas, mas, sobretudo, as restrições de crédito impostas pelas financeiras. Segundo a gerente do empreendimento Daniela Peres o movimento até já começa a dar sinais de reação. 'O consumidor, mesmo com a crise, ainda quer comprar. O maior entrave hoje é na hora de fechar o negócio, devido às restrições de crédito'.

O problema, segundo informou, é que os próprios lojistas acostumaram os clientes a comprar sem entrada e em até 72 meses. 'Agora, a realidade das financeiras mudou. Elas exigem entrada de no mínimo 30% e o prazo médio de financiamento de até 48 meses. Portanto, essas restrições passaram a dificultar ainda mais a compra final'.

(Reportagem publicada na edição de 05/11/2008 do CORREIO)