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Wendel de Novais
Publicado em 14 de março de 2026 às 16:44
O dentista Gustavo Garrido Gesteira, apontado pela polícia como principal alvo de uma investigação sobre venda clandestina de substâncias conhecidas como “canetas emagrecedoras”, foi liberado nesta sexta-feira (13) após audiência de custódia realizada pela Justiça da Bahia. Ele foi preso em flagrante durante a Operação Peptídeos, realizada na quarta-feira (11), em Salvador. Na decisão, o juiz homologou a prisão, mas concedeu liberdade provisória ao investigado mediante cumprimento de medidas cautelares, como comparecimento periódico à Justiça, proibição de deixar a comarca sem autorização e manutenção de endereço atualizado no processo.>
A decisão judicial destacou que, neste momento da investigação, há fragilidade na comprovação da materialidade do crime. Segundo o juiz Cidval Santos Sousa Filho, os laudos periciais apresentados até agora são apenas físico-descritivos e não confirmam, por meio de análise química, a composição das substâncias apreendidas. Os exames se limitaram a descrever características das embalagens e do conteúdo encontrado — como pó branco e líquidos de diferentes cores — sem atestar se os produtos são de fato medicamentos irregulares, adulterados ou sem registro sanitário, o que impediria a formação de um convencimento seguro sobre a existência do crime.>
O juiz também ressaltou que a prisão preventiva não se aplica ao caso porque o crime investigado possui pena máxima inferior a quatro anos, conforme entendimento consolidado do Supremo Tribunal Federal. A Corte definiu que, em situações envolvendo medicamentos sem registro ou de procedência desconhecida, a pena deve seguir a redação original do artigo 273 do Código Penal, com previsão de um a três anos de reclusão. Como a legislação processual penal só permite prisão preventiva em crimes cuja pena máxima ultrapasse quatro anos, o magistrado considerou a medida legalmente inviável neste momento. Também pesaram na decisão o fato de o dentista ser tecnicamente primário, não possuir antecedentes criminais e ter residência fixa e vínculos familiares.>
A decisão judicial que liberou Gustavo determinou a suspensão das atividades da Drogaria Ondina, apontada nas investigações como um dos pontos ligados à comercialização irregular dos produtos. O estabelecimento deverá permanecer fechado enquanto durar o processo. O magistrado entendeu que, neste momento, a prisão preventiva seria desproporcional, citando fragilidade inicial na comprovação técnica da materialidade do crime e entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre a pena aplicável em casos semelhantes.>
Dentista alvo de operação contra revenda de canetas emagrecedoras em Salvador
Quem é>
Gustavo Garrido Gesteira foi localizado em um apartamento na Ladeira da Barra, onde investigadores afirmam ter encontrado medicamentos e substâncias proibidas, além de materiais usados na preparação e comercialização das chamadas canetas emagrecedoras. Ele é investigado pelos crimes de falsificação, adulteração e alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais. Durante a operação, segundo a polícia, foram apreendidas ampolas, seringas e substâncias utilizadas na produção dos produtos.>
“Lá [no apartamento] foram encontradas diversas canetas emagrecedoras, diversas substâncias proibidas que são utilizadas para a produção e comercialização dessas canetas. Todo material foi apreendido, assim como o nosso alvo e a esposa foram conduzidos para medidas judiciais cabíveis”, disse o delegado Thomas Galdino, diretor do Departamento Especializado de Investigações Criminais.>
Megaoperação>
A operação resultou na prisão de quatro pessoas em flagrante e outras nove por mandados de prisão temporária. Os alvos foram localizados em diversos bairros de Salvador, como Valéria, Cajazeiras, Canabrava, Ondina, Barra, Pituba, Caminho das Árvores e Costa Azul, além de cidades da Região Metropolitana, como Lauro de Freitas e Camaçari, e também em Feira de Santana.>
Segundo a polícia, o dentista seria considerado o líder do esquema investigado. Ele é um dos sócios da clínica Medicina Oral, localizada no bairro Cidade Jardim, e teria ligação com uma farmácia sediada em São Paulo. Esse estabelecimento já havia sido alvo de uma operação da Polícia Federal em novembro do ano passado.>
De acordo com informações divulgadas no site da clínica, a Medicina Oral atua há mais de 14 anos e afirma já ter atendido mais de 20 mil pacientes. Entre as especialidades atribuídas a Gustavo Garrido Gesteira estão prótese dentária, clínica estética e odontologia digital.>
As investigações indicam que o grupo importava ou obtinha o princípio ativo utilizado em medicamentos destinados ao tratamento de diabetes — substâncias que passaram a ser associadas popularmente à perda de peso — e fracionava as doses para venda irregular com finalidade estética.>
Além do apartamento do dentista, a operação também cumpriu mandados em clínicas de medicina estética, hospitais, farmácias e entre profissionais da área de saúde. Os investigadores apontam indícios de participação de esteticistas e biomédicas no esquema, sendo que uma biomédica foi presa em flagrante durante a ação.>
A investigação continua em andamento e busca identificar outros participantes e a dimensão da rede suspeita de comercializar as substâncias de forma irregular. A ação foi conduzida pela Polícia Civil da Bahia, por meio do Departamento Especializado de Investigações Criminais e da Delegacia de Defesa do Consumidor. A reportagem não conseguiu contato com a defesa do dentista.>
Venda irregular de canetas emagrecedoras é alvo de megaoperação policial na Bahia