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Estresse produtivo ou que adoece? Psiquiatra explica a diferença

O Brasil registrou, em 2025, mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da última década

  • Foto do(a) author(a) Perla Ribeiro
  • Perla Ribeiro

Publicado em 14 de abril de 2026 às 14:33

Silencioso e invisível, rust-out avança nas empresas e preocupa especialistas em saúde mental e inovação
Estresse produtivo ou que adoece? Psiquiatra explica a diferença Crédito: Shutterstock

Em um mundo cada vez mais acelerado, o estresse se tornou parte da rotina — especialmente entre profissionais de alta performance. Mas até que ponto ele pode ser considerado saudável? O Brasil registrou, em 2025, mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da última década, com crescimento expressivo dos casos de burnout. Doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e acumulando mais de 20 anos de experiência clínica, o psiquiatra Daniel Sócrates explica que é fundamental diferenciar o estresse que impulsiona daquele que adoece.

“Existe um tipo de estresse que é natural e até necessário para o desempenho. O problema começa quando ele deixa de ser pontual e passa a ser crônico”, explica o especialista. Segundo o psiquiatra, é preciso saber diferenciar o estresse produtivo do estresse que adoece. Segundo ele, o chamado estresse produtivo — ou positivo — está ligado a momentos de desafio e adaptação. Ele pode, inclusive, melhorar o foco, a energia e a capacidade de tomada de decisão.

“Uma apresentação importante, um novo projeto ou uma meta desafiadora podem gerar esse tipo de ativação. É o corpo se preparando para performar melhor”, afirma. O problema surge quando esse estado deixa de ser episódico e passa a ser constante.“O organismo não foi feito para viver em alerta permanente. Quando isso acontece, o estresse deixa de ser funcional e passa a ser tóxico”, alerta.O estresse crônico pode evoluir para quadros mais graves, como ansiedade generalizada, exaustão emocional e burnout. 

Entre os principais sinais de alerta estão:

  • Cansaço constante, mesmo após descanso
  • Irritabilidade e dificuldade de concentração
  • Sensação de sobrecarga permanente
  • Alterações no sono
  • Queda de desempenho
  • Falta de prazer em atividades antes comuns

“Um dos sinais mais importantes é quando a pessoa começa a perder a capacidade de se recuperar. Ela descansa, mas não melhora. Isso indica que o corpo já entrou em um estado de esgotamento”, explica o médico. Do ponto de vista neurobiológico, o estresse prolongado afeta diretamente o funcionamento cerebral. 

A liberação contínua de cortisol — o hormônio do estresse — pode prejudicar áreas relacionadas à memória, ao foco e à regulação emocional. “Com o tempo, o cérebro entra em um modo de sobrevivência. Isso reduz a criatividade, a clareza mental e a capacidade de tomar decisões estratégicas — justamente o oposto do que se espera de profissionais de alta performance”, destaca. 

Como evitar que o estresse ultrapasse o limite

A chave está em reconhecer os sinais precocemente e criar estratégias de proteção mental. Entre as principais orientações:

  • Diferencie urgência de excesso: Nem tudo precisa ser resolvido imediatamente.
  • Estabeleça pausas reais: Intervalos sem estímulos são essenciais para o cérebro se recuperar.
  • Observe seu corpo: Cansaço persistente não é normal — é sinal.
  • Reavalie limites: Alta performance não deve significar exaustão constante.
  • Procure ajuda especializada: Intervenção precoce evita quadros mais graves. 


“Alta performance sustentável não é sobre aguentar mais — é sobre saber a hora de parar, ajustar e se recuperar”, conclui Daniel Sócrates.