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Jorge Cajazeira
Publicado em 19 de abril de 2026 às 10:06
Se você ainda não ouviu falar da BlackRock, não se preocupe. Ela provavelmente já ouviu falar de você. Com trilhões de dólares sob gestão, a empresa é hoje a maior gestora de ativos do planeta. Em termos simples, quando o mundo discute juros, inflação ou clima, há uma boa chance de que a BlackRock esteja investida em todas as alternativas possíveis e, de preferência, lucrando com mais de uma ao mesmo tempo. >
No comando está Larry Fink, um executivo que conseguiu transformar cartas anuais em algo próximo de orientação espiritual para o capitalismo global. Seus textos passaram a defender que empresas deveriam ter propósito, responsabilidade social e compromisso com o planeta. Era como se o mercado tivesse finalmente descoberto que, além de balanços, também possuía consciência.>
E então surgiu a linguagem woke.>
Originalmente, o termo significava estar atento a injustiças sociais. Nada de errado com isso. O problema começou quando essa sensibilidade foi capturada por instituições que formam opinião. Universidades passaram a adotar não apenas o debate sobre desigualdades, o que é legítimo, mas também um vocabulário cada vez mais normativo sobre como pensar esses temas. Certas ideias deixaram de ser discutidas e passaram a ser previamente classificadas como aceitáveis ou inaceitáveis.>
A televisão e a indústria do entretenimento rapidamente seguiram o movimento. Narrativas passaram a ser construídas não apenas para refletir a realidade, mas para corrigi-la. Personagens, roteiros e discursos passaram a obedecer a uma lógica de alinhamento moral, muitas vezes mais preocupada com sinalização do que com complexidade. O resultado foi uma produção cultural que, em diversos casos, trocou nuance por previsibilidade.>
O fenômeno ganhou força porque oferecia algo muito valioso no mundo contemporâneo: clareza moral em tempos confusos. O problema é que, quando a moral deixa de ser espaço de reflexão e passa a ser um conjunto rígido de regras implícitas, o debate perde oxigênio.>
E aqui ocorre a inflexão mais delicada.>
A linguagem woke, que começou como instrumento de conscientização, passou a operar em alguns contextos como mecanismo de exclusão simbólica. Não pela força, mas pela pressão social. Discordar deixou de ser apenas discordar e passou, muitas vezes, a ser interpretado como falha moral. Em ambientes acadêmicos, midiáticos e corporativos, isso produziu um efeito curioso. A diversidade de identidades avançou, mas a diversidade de ideias, em certos casos, recuou.>
No limite, o que se vê é uma inversão curiosa. Uma linguagem que nasceu para ampliar consciência acabou, em muitos ambientes, estreitando o espaço do debate. Ao substituir a argumentação pelo enquadramento moral, criou-se um sistema em que discordar não é refutar, mas quase cometer uma infração social. O resultado é previsível. Menos pensamento crítico, mais conformidade. Menos debate genuíno, mais repetição de fórmulas aceitas. E talvez por isso o desgaste seja tão visível. Não porque as pessoas rejeitem os temas, mas porque já não toleram a sensação de que há apenas uma maneira legítima de pensar sobre eles.>
Não é que o dissenso tenha desaparecido. Ele apenas ficou mais caro.>
E quando o custo de discordar aumenta, a consequência natural é a autocensura. Não por imposição formal, mas por cálculo racional. Afinal, em um ambiente onde reputação é ativo central, poucos estão dispostos a testar os limites do aceitável. Foi nesse contexto que o mundo corporativo, liderado por atores como a BlackRock, incorporou essa linguagem. Não necessariamente por convicção profunda, mas porque ela já havia se tornado o idioma dominante em espaços que moldam reputação, talento e acesso a capital.>
O problema é que, ao migrar para o mundo dos negócios, essa linguagem encontrou uma realidade menos tolerante à inconsistência. Empresas podem sustentar discursos por algum tempo. Mas precisam, no final do dia, entregar resultados concretos.>
Quando a distância entre discurso e prática se torna evidente, a reação é inevitável. O que antes era visto como consciência passa a ser percebido como excesso. E o excesso, como sabemos, raramente se sustenta por muito tempo.>
Nos últimos meses, a própria BlackRock começou a fazer um movimento silencioso, mas revelador. O discurso enfático sobre ESG e linguagem woke perdeu intensidade e foi substituído por uma comunicação mais pragmática, centrada em desempenho, risco e retorno. Em entrevistas ao longo de 2023 e 2024, Larry Fink chegou a reconhecer explicitamente o desgaste do termo ESG, afirmando que ele havia se tornado “altamente politizado” e, por isso, deixaria de ser usado com a mesma frequência. A mudança não foi apenas semântica. Refletiu um reposicionamento diante da pressão de investidores, críticas políticas nos Estados Unidos e, principalmente, da necessidade de reconectar discurso com resultado.>
Esse ajuste revela uma verdade pouco confortável, mas fundamental. Negócios não vivem de linguagem, vivem de entrega. Quando a narrativa se distancia da prática, o mercado reage. A BlackRock não abandonou completamente os temas ambientais ou sociais, mas passou a tratá-los dentro de uma lógica mais tradicional de gestão de risco e oportunidade, e não mais como bandeira moral. Em outras palavras, saiu o tom de manifesto, entrou o tom de planilha. Porque, no fim, por mais sofisticada que seja a retórica, nenhuma empresa do tamanho da BlackRock pode se sustentar apenas com discursos que não se traduzem em valor concreto.>
Um caso recente bastante emblemático é o da Disney. Após anos adotando uma postura pública fortemente alinhada a pautas de diversidade e inclusão, a empresa passou a enfrentar reação significativa de parte do público, especialmente nos Estados Unidos, a partir de 2022. Parte dessa reação ganhou visibilidade com o lançamento do live action de The Little Mermaid (A Pequena Sereia), adaptação de um conto clássico de Hans Christian Andersen, famoso autor de vários clássicos infantis (lembram do O Patinho Feio?), dinamarquês, no qual a escolha de uma atriz afro-americana para o papel principal foi celebrada por alguns como avanço representativo e criticada por outros como sinal de reinterpretação forçada de narrativas tradicionais, em especial por ser esse conto escandinavo. Independentemente da posição, o episódio expôs o nível de polarização em torno dessas decisões. O filme não foi um sucesso estrondoso como outros live-actions da Disney (como O Rei Leão ou Aladdin), sendo classificado por analistas mais como um "underperformer" (abaixo do esperado), tendo gerado para a Disney um prejuízo em torno de 5 milhões de dólares. Sob a gestão de Bob Iger, que retornou ao comando no fim de 2022, a empresa passou a sinalizar um reposicionamento mais pragmático, com foco declarado em conteúdo e desempenho, evitando protagonismo em disputas culturais que, no limite, têm se mostrado mais divisivas do que rentáveis.>
Agora imagine a gritaria caso um cineasta dinamarquês fizesse um filme sobre a vida de Pelé e tornasse ele louro na história. Pegou a visão?>
Talvez seja por isso que, silenciosamente, o pêndulo esteja se movendo. Menos afirmações categóricas, mais cautela. Menos linguagem performática, mais pragmatismo. Não porque os temas tenham perdido importância, mas porque a forma como foram apropriados gerou desgaste. No fim, a ironia é inevitável. Ao tentar impor um consenso moral, a linguagem woke acabou produzindo exatamente o oposto do que prometia. Menos diálogo, mais tensão. Menos abertura, mais vigilância informal. E, como todo modelo que reduz o espaço para o contraditório, começa a enfrentar um problema clássico.>
As pessoas simplesmente param de comprar a narrativa.>
Jorge Cajazeira é Ph.D. pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP) e consultor internacional de empresas.>