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Rins de Marte: o problema biológico que a corrida espacial ainda não resolveu

Já sabíamos que os astronautas apresentam maior risco de desenvolver cálculos renais. Agora, estudos sugerem que longas exposições ao ambiente espacial podem provocar até insuficiência renal

Publicado em 20 de maio de 2026 às 05:30

Durante séculos, olhar para o céu foi um exercício de imaginação. A Lua inspirou poemas, religiões e mitos. Marte virou símbolo da fronteira impossível. E, hoje, ambos integram o planejamento da humanidade. A missão Artemis pretende levar pessoas de volta à Lua como uma preparação para uma viagem tripulada a Marte.

Do ponto de vista tecnológico, os avanços impressionam. Aprendemos a pousar foguetes reutilizáveis, construir estações espaciais e operar robôs - em outros planetas. Mas existe um problema, talvez de origem, que pode colocar todos os nossos esforços a perder: nosso corpo ‘parece’ que não foi feito para viver fora da Terra.

Viajar pelo espaço não significa apenas percorrer grandes distâncias. Significa expor o organismo à um ambiente hostil: microgravidade, radiação cósmica, alterações do sono e mudanças metabólicas profundas. O resultado inclui perda de massa muscular e óssea, alterações cardiovasculares e prejuízos cognitivos. É como envelhecer de forma acelerada, dentro de uma cápsula metálica.

É justamente aí que entra a medicina espacial – especialidade médica (se é que podemos chamar assim) ainda pouco conhecida do grande público e que busca formas de prevenir, diagnosticar e tratar doenças durante missões espaciais. Tenta responder a uma pergunta decisiva para o futuro da exploração humana: como manter alguém saudável a milhões de quilômetros (ou anos luz) da Terra?

E os rins ocuparam um lugar central nesse debate. Já sabíamos que os astronautas apresentam maior risco de desenvolver cálculos renais. Agora, estudos sugerem que longas exposições ao ambiente espacial podem provocar remodelamento dos túbulos renais, perda progressiva da função dos rins e até insuficiência renal. Em uma missão longa, isso deixaria de ser apenas uma complicação médica: poderia se transformar em um problema sem solução imediata.

A relevância desses achados vai além do risco de adoecer longe da Terra. Ela aponta para a possibilidade de existirem limites biológicos para a permanência humana fora do nosso planeta. A engenharia pode continuar avançando, mas o corpo humano talvez imponha barreiras que a tecnologia, sozinha, não consegue superar.

Por isso, a corrida espacial deixou de ser apenas um desafio de engenharia. Tornou-se também um desafio biológico. Se quisermos realmente chegar mais longe, talvez precisemos investir tanto em medicina aeroespacial quanto em foguetes. Mais do que construir máquinas mais rápidas, será necessário proteger órgãos, preservar o metabolismo, monitorar doenças à distância e desenvolver tecnologias médicas autônomas.

Talvez o maior feito da humanidade não seja apenas chegar a Marte. Mas conseguir voltar saudável para casa.

*Ana Flávia Moura é médica e presidente da Sociedade Baiana de Nefrologia