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Há 50 anos, dupla Conde & Drácula lançava álbum misturando viola sertaneja com histórias macabras

Gravados na década de 1970, cantores foram redescobertos pela internet, em meio a outras duplas com nomes curiosos

  • Foto do(a) author(a) André Uzeda
  • André Uzeda

Publicado em 19 de abril de 2026 às 08:00

Angelo Alberto (Conde) e Adílson David (Drácula) vestidos durante show da dupla Crédito: Acervo familiar

Há exatos 50 anos, a cidade de Vitória da Conquista se reposicionou em relação à Europa. Afastou-se brevemente do apelido de ‘Suíça Baiana’ para abraçar o mistério da Romênia.

Isso porque no país do Leste Europeu fica a região da Transilvânia, berço de lendas vampirescas cultuadas a partir do Conde Drácula. Angelo Alberto Sousa e seu irmão Adilson David Sousa, então com 19 e 25 anos, respectivamente, foram os responsáveis pela meteórica transmutação geográfica, ao lançarem um marcante disco de música sertaneja, com claras influências góticas.

Os dois criaram a dupla Conde & Drácula e, em 1976, lançaram um LP homônimo com 12 músicas autorais. Embaladas por batidas de uma viola chorosa, as músicas do álbum contam divertidas histórias de ataques de vampiros, misturadas com desventuras amorosas, magia e sangrentos assassinatos. Canções como ‘Bruxa Feiticeira’, ‘Noite do Vampiro’ e ‘O Corvo’ traduzem essa fórmula.

“Na época tinha muita dupla sertaneja no Brasil, mas todas eram muito parecidas. Então, a gente resolveu bolar uma coisa diferente. Um outro irmão, de nome Arthur, teve a ideia de fazer uma dupla com uma pegada mais macabra. Era ele quem fazia as letras. Eu e Adílson tocávamos e cantávamos, sempre fantasiados de vampiros. Foi um sucesso enorme na cidade e também nos municípios vizinhos”, relembra Angelo Alberto, hoje com 69 anos.

Angelo era o ‘Conde’ e segunda voz da dupla. Enquanto Adílson, mais velho, ficou com o privilégio de ser o ‘Drácula’ e a voz principal. Os anos 1970 foram revestidos de forte presença mística nas artes, puxado por cantores como Raul Seixas, Zé Ramalho, a banda Os Mutantes, além dos gringos Pink Floyd, George Harrison (ex-beatle) e David Bowie. Angelo Alberto, porém, nega qualquer uma destas influências.

Capa do único LP da dupla sertaneja gótica Conde e Drácula Crédito: Divulgação

“As nossas letras eram mais inspiradas pelos livros do poeta Edgar Allan Poe e pelos filmes de terror, do que propriamente pelos outros músicos. O visual dos vampiros nos tocava muito e o público adorava. Lembro de um show que fizemos em um circo que uma menina saiu correndo, porque ficou morrendo de medo”, diz, aos risos.

O sucesso regional rapidamente catapultou os dois para desbravar novas fronteiras. Em São Paulo, a dupla produziu o primeiro e único disco da carreira, gravado pela Beverly Copacabana, cujo catálogo abrangia artistas como Wando e Benito de Paula.

Houve um relativo sucesso, com 30 mil cópias vendidas no compacto (os discos menores). Dali, vieram shows e apresentações em rádios e televisão, além de muitos pescoços femininos clamando pelo beijo dos vampiros.

“Foi uma época muito boa. Fizemos participação em Chacrinha, Flávio Cavalcanti e duas vezes com Silvio Santos, uma como ele ainda na Globo e a outra quando ele começou no SBT. Pena que não consigo encontrar nenhum registro disso na internet”, lamenta o antigo Conde.

A 'febre morcegosa' durou até 1978, quando a estaca das novidades do mercado abateu os vampiros conquistenses em pleno voo.

Entrevista com vampiro

Recentemente, os cantores foram redescobertos na internet, em meio a um cabedal de outras duplas com caprichosos codinomes artísticos, a exemplo de Gino e Geno, Caju e Castanha, Patrão e Funcionário, Faísca e Espoleta e Bátima e Róbson.

Angelo Alberto ri deste insólito retorno, mas nega sentir qualquer tipo de arrependimento por não ter perseverado na carreira artística. Sangue por sangue, optou mesmo pela medicina.

“Foi uma época boa, mas comecei a perceber que viver de arte era muito instável. Então, avisei a meu irmão que ia desfazer a dupla para voltar a Salvador e estudar para ser médico. Ele ainda continuou mais um tempo em São Paulo tentando conseguir um outro Conde. Aí voltou para Conquista e continuou sempre ligado à arte, como professor de violão”, relembra.

Em dezembro de 1999, Adílson ‘Drácula’ foi vítima de um infarto fulminante, que o levou às vésperas de completar 50 anos. Alberto ‘Conde’ hoje é oftalmologista em Vitória da Conquista, mas não costuma revelar aos pacientes seu passado vampiresco.

“Alguns amigos mais próximos ainda me chamam de ‘Conde’ na cidade, mas não foi um apelido que ficou. Meus dois filhos (uma de 33 e outro de 27) sempre me perguntam dessa história. Eles ficam dizendo que eu deveria ter insistido na carreira de músico”, brinca.

O crepúsculo

Muita coisa mudou desde que o cantor-vampiro aposentou a capa e a viola sertaneja. Hoje ele não gosta mais de filmes de terror – confessa que não consegue nem mais assistir – e também não tem mais nenhum vinil da dupla com o irmão em casa.

As inúmeras cópias que mantinha foram sendo emprestadas ao longo do tempo, sem devolução. Hoje, quando quer matar a saudade, ouve as canções em CD, em uma mídia regravada.

“Ainda me surpreendo como as letras são boas. Têm uma boa história e boas rimas, mas a gravação é bem ruim. Era tudo muito precário naquela época. Foram tempos de juventude... Hoje, fica a saudade. E a certeza que fiz bem demais em apostar na carreira de médico”, ri.

Essa coluna é dedicada a Ive Deonísio, bruxa, em uma família de vampiros.