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Criatividade não é talento: o papel do repertório, da cidade e da consciência

Um guia sobre como desenvolver pensamento criativo a partir de vivência, estrutura e posicionamento crítico

  • Foto do(a) author(a) Gabriela Cruz
  • Gabriela Cruz

Publicado em 2 de maio de 2026 às 06:48

Jeanne Hébuterne, obra de Amedeo Modigliani, de 1919, exposta no MET, em Nova York
Jeanne Hébuterne, obra de Amedeo Modigliani, de 1919, exposta no MET, em Nova York Crédito: Reprodução

Existe uma ideia muito romantizada de que a criatividade nasce de um momento mágico, um sopro de inspiração diante de uma tela em branco. Como se bastasse silêncio e talento para que algo extraordinário acontecesse.

Mas, na prática, criar não tem nada de vazio.

Criatividade é repertório.

Ela é construída a partir do que você vê, do que você estuda, do que você vive e também do que você consegue sustentar na sua própria vida. Porque não existe criação dissociada da realidade.

Para criar, é preciso alimentar o pensamento. E isso passa por arte, cidade, dinheiro, política e identidade.

Coaty, na Ladeira da Misericórdia por Reprodução

1. Nada surge do nada: criatividade é repertório

Movimentos como o Impressionismo, o Cubismo e o Modernismo não nasceram do acaso.

Eles são respostas ao seu tempo.

Cada estética carrega contexto social, político e histórico. O artista não cria isolado. Ele reorganiza referências, tensiona ideias e responde ao mundo em que vive.

Por isso, consumir arte não é só entretenimento. É formação de olhar. É aprender a interpretar imagens, discursos e intenções.

Sem repertório, não há profundidade. E sem profundidade, a criação vira repetição.

2. Conhecer a cidade também é um ato criativo

Criatividade não está só na obra. Está no espaço.

A cidade é um campo de leitura constante. Fluxo, ocupação, abandono, disputa e convivência comunicam o tempo inteiro.

Um exemplo recente foi a segunda edição do Circuito Lina, caminhada promovida pelo Pivô na Ladeira da Misericórdia, no centro histórico de Salvador, com visita ao Coaty, que propôs discutir requalificação urbana a partir da cultura.

A programação contou com uma contextualização histórica conduzida pelo professor e pesquisador Dilton de Almeida, seguida por uma conversa com Tania Scofield, arquiteta e urbanista à frente da presidência da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), e Vagner Rocha, diretor de Patrimônio e Equipamentos Culturais da Fundação Gregório de Mattos (FGM).

O debate destacou a importância da dinamização dos espaços públicos e dos processos de restauro em edifícios do centro histórico, abrindo caminhos para as celebrações de 40 anos do projeto de Lina Bo Bardi e João Filgueiras Lima (Lelé) para a Ladeira da Misericórdia.

O encontro reforçou uma ideia central. A cidade também é linguagem.

Observar o lugar que você mora é ampliar repertório. E repertório é base para criar.

3. Criatividade precisa de estrutura e isso inclui dinheiro

A criatividade não sobrevive no caos.

O antropólogo Michel Alcoforado, em fala no Café Filosófico da TV Cultura, chama atenção para um ponto central. A dificuldade de falar sobre dinheiro no Brasil.

A gente fala pouco e, por isso, aprende pouco.

Não se trata apenas de ter ou não ter dinheiro, mas de saber lidar com ele. Existe ainda um obstáculo cultural importante. Quando tratamos pessoas com mais ou menos dinheiro como se fossem outro tipo de gente, o diálogo se bloqueia.

Sem diálogo, não há educação financeira.

E sem estabilidade mínima, a mente não cria. Ela resolve urgências.

Criatividade exige espaço. E espaço, muitas vezes, é uma construção prática.

4. Criar também é se posicionar

A arte também é uma forma de leitura crítica do mundo.

O artista Banksy instalou recentemente uma escultura no centro de Londres que mostra um homem com o rosto coberto por uma bandeira.

A imagem sugere uma crítica ao chamado patriotismo cego. Um tipo de postura em que a identidade coletiva se sobrepõe ao pensamento individual.

Banksy não explica a obra. Ele provoca.

Esse gesto revela um aspecto essencial da criatividade. Não apenas representar, mas questionar. Não apenas mostrar, mas tensionar.

Criar também é assumir um ponto de vista.

5. Falar por você é o ponto de virada

Em 2018, Kim Namjoon, líder do BTS, discursou na ONU e deixou uma mensagem simples, mas com um significado extremamente profundo. “Speak yourself”. Fale por você.

A fala partia de uma experiência pessoal. A dificuldade de manter a própria identidade diante das expectativas externas.

E esse é um ponto central da criatividade.

Não basta acumular referências, estudar ou observar o mundo. Em algum momento, é preciso transformar tudo isso em voz própria.

Sem isso, a produção vira repetição.

Com isso, a criação ganha identidade.

6. Você consegue, mas precisa de dedicação

Criatividade não é um dom reservado a poucos.

É um processo.

Ela depende de repertório, de observação, de estrutura, de consciência e de coragem.

Coragem para entender o mundo.

Coragem para organizar a própria vida.

E, principalmente, coragem para se posicionar dentro dele.

Porque, no fim, criar não é só fazer algo novo.

É ter algo seu a dizer... e dizer.