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Editorial
Publicado em 1 de maio de 2026 às 05:00
As duas derrotas consecutivas sofridas pelo governo do presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso Nacional não podem ser interpretadas como um acidente de percurso. Ao contrário, revelam uma fragilidade política crescente da gestão petista e um desalinhamento entre o Executivo e o Legislativo. >
A rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF) é, por si só, um fato histórico. Foi a primeira vez que o Senado recusou a escolha de um presidente da República para a Corte desde 1894. Entretanto, não se trata apenas da perda de uma indicação estratégica. O placar (42 votos contrários e 34 favoráveis) evidencia que o governo não conseguiu sequer consolidar uma base minimamente sólida nem mesmo em um tema relevante: a definição de um ministro do mais alto tribunal do país.>
Menos de 24 horas depois, o Congresso Nacional ampliou o recado ao Palácio do Planalto ao derrubar o veto presidencial ao chamado PL da Dosimetria, com ampla margem tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado. Novamente, não foi uma derrota apertada, fruto de circunstâncias pontuais. Foi um movimento expressivo, com números que escancaram o enfraquecimento político do governo petista dentro do Parlamento brasileiro. >
Os dois episódios, em sequência, expõem a instabilidade institucional que o próprio governo Lula ajudou a construir desde o início do mandato em 2023. A promessa de distensionamento nas relações entre os Poderes deu lugar, na verdade, a um cenário de atritos mais recorrentes, ruídos na articulação política e dificuldade evidente de coordenação.>
Há, ainda, um efeito colateral preocupante. A rejeição de um nome ao STF, com esse grau de mobilização política, não se limita ao Executivo. Ela também envia um sinal indireto ao próprio Judiciário. Se o Congresso Nacional demonstra força para barrar a indicação de um ministro, também reforça a percepção de que possui capital político para tensionar a relação com a Corte em outros momentos, inclusive em temas mais sensíveis.>
Diante desse quadro, a reação do Palácio do Planalto será determinante. Uma eventual tentativa de “caça às bruxas”, para buscar responsáveis internos ou promover retaliações, tende a aprofundar ainda mais o desgaste. Em vez de recompor pontes, pode ampliar o distanciamento com o Congresso e dificultar ainda mais a governabilidade.>
Mais do que episódios isolados, as derrotas recentes revelam um governo que, neste momento, opera com menos influência política do que supunha. Em Brasília, essa percepção pesa e muitas vezes é ela que define os limites reais de atuação e o rumo do governo daqui para frente.>