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Paulo Sales
Publicado em 15 de março de 2026 às 05:00
Dias piores virão. O mundo convulsiona. A ordem estabelecida no pós-Segunda Guerra desmorona e as democracias liberais estão sob ameaça. Ressuscitam os piores ismos, renova-se a desesperança, retrocedemos cem anos. Estamos em 2026 ou em 1933? Seguimos condenados a levar a rocha até o topo da montanha para vê-la despencar indefinidamente. Restam a náusea e a desilusão resignada. E, ao contrário de Caetano, eu não vejo uma trilha clara nem para o meu Brasil, apesar da dor. >
Ao me deparar com líderes mundiais se comportando como adolescentes tardios diante de um tabuleiro de War, eu recordo a frase de Camus: “A política e os destinos da humanidade são forjados por homens sem ideais e sem grandeza”. O pragmatismo e a ausência de escrúpulos campeiam, o cinismo idem. Nostalgia de um tempo em que se decretava o fim da história e caminhávamos na direção de uma estabilidade sem sobressaltos. Parecia que premonições como a de Orwell ficariam restritas ao passado e às páginas das ficções distópicas. 1984 é aqui e agora? Longe disso, mas é bom não vacilar.>
Entre leituras atentas de artigos sobre geopolítica e rápidas olhadelas nas manchetes dos portais, eu recorro ao escapismo: livros e filmes, vinhos e canções, banhos de mar e jogos do Flamengo. Eles me salvam da apreensão constante, do receio de que afundaremos como navios bombardeados. Mas há uma exaustão latente, que se materializa em um comportamento irritadiço e um tédio inapelável diante de platitudes, discursos monolíticos e convicções raivosas que se sucedem ao meu redor. Quando foi que tudo ficou tão raso?>
Desvio do assunto. Recomendado por um leitor, me embrenhei recentemente no romance de um autor islandês que não conhecia, chamado Jón Kalman Stefánsson. Volume inicial de uma trilogia, Paraíso e Inferno acompanha a via-crúcis de um adolescente, primeiro no oceano gelado, onde perde seu único amigo, depois nas montanhas tomadas pela neve. Há algo de Melville, de Conrad, de London. A natureza inóspita e onipotente que reduz homens fortes, brutos e bravos a marionetes de cristal. Mas há sobretudo o pasmo diante da nossa brevidade absoluta, que se assemelha a velas acesas ao vento ou velas inúteis para a navegação.>
Escreve Stefánsson: “A vontade de viver está nos seus ossos, corre no seu sangue, o que você é, vida?, ele pergunta em silêncio, mas está muitíssimo longe de responder, o que não é estranho, não temos respostas prontas, no entanto, vivemos e também morremos, atravessamos as fronteiras que ninguém vê mas que são ainda as únicas que importam. O que você é, vida? Talvez a resposta esteja na pergunta, o espanto que está implícito nela. A luz da vida treme e se transforma em escuridão assim que paramos de perguntar, assim que deixamos de questionar, e encaramos a vida como outra coisa qualquer?”>
Penso nas existências que se convertem em estatísticas à medida que uma guerra tola e evitável avança feito um tsunami numa vila costeira. Vistas de longe, deste Ocidente remoto e indiferente, elas são como peões num jogo de xadrez: desabam aos montes sem um lamento, um remorso, uma indagação. Quem eram? Como se chamavam? Havia vontade de viver em seus ossos? Chegaram em algum momento de introspecção a perguntar: o que você é, vida? Penso que para a maioria que habita estas plagas a oeste do inferno isso pouco importa. Não são como nós, afinal.>
Estou na varanda de casa numa noite agradável de final de verão. Escrevo esta crônica enquanto escuto Kenny Burrell tocar os acordes de But Not For Me. É inimaginável que esta noite tranquila seja interrompida por um clarão no céu, seguido de um estrondo e uma forte explosão. E que em segundos eu, que vivo e penso como qualquer outro ser humano, seja transformado junto com minha família em postas de carne, ossos e sangue espalhadas entre os escombros de um prédio que não existirá mais.>
Para os que estão em Teerã ou Beirute, olhar para o céu não traz tranquilidade, mas sim pavor. Gente como eu ou você que lê agora esta crônica, ainda que usem véus, falem um idioma incompreensível ou tenham uma fisionomia tão diferente da nossa. Gente que põe seus filhos para dormir, coloca a comida do cachorro, vai ao supermercado, faz contas no final do mês. Gente que abraça, sorri, sonha, transa, trabalha. E que, ao contrário de mim ou de você, vai virar poeira na próxima explosão, que pode estar acontecendo justo agora.>