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Soy loco por ti: a canção popular e o coração de um rapaz latino-americano

Minha “alfabetização” sentimental foi bastante influenciada pela poderosa indústria fonográfica mexicana das décadas de 1950 e 60

Publicado em 26 de abril de 2026 às 05:00

Estudos coordenados pelo Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP), em parceria com o CIDE do México, revelam um verdadeiro abismo identitário: enquanto a média de identificação como "latino-americano" em países vizinhos é de 43%, no Brasil esse índice despenca para apenas 4%. O brasileiro médio parece ver a região como um foco de problemas. Escapar desse "limbo estatístico" e das representações midiáticas que reduzem o continente a crises econômicas, narcotráfico e instabilidade exige um elemento subversivo de conexão. No meu caso, canção popular foi esse elemento.

Minha "alfabetização" sentimental foi bastante influenciada pela poderosa indústria fonográfica mexicana das décadas de 1950 e 60. Nasci em 1954 e cresci mergulhado no idioma espanhol cantado nas melodias de canções como “Bésame Mucho”, “Sabor a mi”, “La barca” e “El reloj”. A sentimentalidade hiperbólica daqueles boleros, que eram massivamente executados nas rádios da época, decerto contribuiu bastante para conformar a natureza brega do meu “Corazón de Melón”, que até hoje é capaz de lacrimejar em comédias românticas de sessão da tarde.

Mais tarde, já sob o jugo da ditadura civil-militar, a canção popular foi decisiva na definição da polaridade do meu coração político. Destaco a guarania de Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei de flores”, e o portunhol pioneiro de “Soy loco por ti América”, de Gil e Capinam. Milton Nascimento reforçou esse orgulho ao cantar o “coração americano” em “San Vicente” e avisar aos "Johns e Pauls" do mundo: “Eu sou da América do Sul, eu sei vocês não vão saber” em “Para Lennon e McCartney. Essa identidade consolida-se em 1973, com Ney Matogrosso bradando na região aguda que “os ventos do norte não movem moinhos” em “Sangue Latino”. Em 1975, o mesmo Ney volta a dizer em alto e bom som: Desperta América do Sul / Deus salve essa América Central / Esse orgulho latino em cada olhar”. No ano seguinte, ao ouvir Belchior se declarar “apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes”, não tive como não sentir uma identificação visceral! Esse sentimento de latinidade se intensificou, ainda, com os ecos da nueva canción de Mercedes Soza, Violeta Parra, Silvio Rodríguez e Pablo Milanés

Por força desse destino, como cantou Belchior, “um tango argentino me vai bem melhor que o blues”. É bem provável que tenha sido essa força que me levou, desde 2013, a coordenar projetos de pesquisa na universidade sobre a canção popular no cinema latino-americano. Dessa jornada, que inclui participação em congressos em vários países da nuestra América, nasceram diversos artigos e a organização, em parceria com o pesquisador mexicano Lauro Zavala, do livro “O cinema musical na América Latina: aproximações contemporâneas”. Afinal, se a estatística nos afasta dos nossos vizinhos, a canção popular insiste em nos aproximar.

Guilherme Maia é músico, compositor, professor da Facom e do Póscom da UFBA