Carmen Miranda: maior ícone pop do Brasil faria cem anos em fevereiro

Veja vídeos e conheça um pouco mais da Pequena Notável

Publicado em 11 de janeiro de 2009 às 01:25

- Atualizado há 9 meses

Ela já nasceu única. Aqueles olhos faiscantes, emoldurados por sobrancelhas expressivas, que sambavam em cima da plateia. As mãos que voavam como passarinhos ariscos ao redor do turbante floral. Os quadris redondos, movendo- se ao som de uma batucada sensual, e a brejeirice impossível de ser ignorada. A voz ágil, cantando numa velocidade que desafiava os ouvidos do público. Como qualificar Carmen Miranda? Dizer que foi a primeira artista brasileira a alcançar reconhecimento internacional, preconizando o que somente Pelé e Paulo Coelho teriam no futuro, é pouco. Hoje, às vésperas do centenário de seu nascimento, em 9 de fevereiro de 1909, na pequena Marco de Canavezes, Portugal, dá para dizer que Carmen, portuguesa de nascimento, carioca de coração, foi pioneira numa conquista muito maior para o Brasil: ela se transformou num dos nossos maiores ícones pop - influência fundamental da Tropicália -, na Brazilian Bombshell, com imagem reconhecida em qualquer lugar do mundo.

O talento e o carisma a fariam uma estrela de qualquer jeito, claro.Aos vinte e poucos anos, entre 1930 e 1939, já era a maior artista do show business nacional, recordista em gravações, vendas e salários. Mas, certamente, não teria alcançado o status de mito não fosse a fantasia de baiana e do personagem que criou com a ajuda fundamental de Dorival Caymmi. Ela até já cantava a Bahia pintada com as cores do mineiro Ary Barroso, autor de obras-primas como No tabuleiro da baiana (1936), Quando eu penso na Bahia (1937) e Na Baixa do Sapateiro (1938). Apesar disso, foi com Oque é que a baiana tem? (1938), de Caymmi, que a baiana viajou para os Estados Unidos, onde foi cantar as graças que as pretas do acarajé faziam ao mercar seus bolinhos pelas ruas da antiga Salvador e acabou indo parar em Hollywood, onde atuou como a mulher mais bem paga de toda a história da indústria cinematográfica daquele país.

Dorival era um mulato manhoso de 24 anos, de pele cor de jambo, bigodinho alinhado, quando foi levadoà casa de Carmen por Almirante, um dos seus compositores favoritos e amigo pessoal. Ela, que os recebeu com shortinho cavado, camisa amarrada na cintura, plataformas altíssimas e lenço na cabeça, pediu que ele cantasse. Ali, ao vivo, foi amor à primeira vista.Era a música que Carmen precisava desesperadamente para cantar em Banana da terra (1939), filme de Ruy Costa, porque Ary Barroso tinha resolvido cobrar caro para liberar Na Baixa do Sapateiro para o número ‘baiano’ no filme.

Curiosa, ela perguntou o significado de todos aqueles termos estranhos, explicados por Caymmi nos mínimos detalhes. A bata, o torço, o pano-da-costa, os balangandãs... Ficou decidido que Caymmi a ajudaria a montar a fantasia e dirigiria sua coreografia durante a filmagem do número. Tudo isso pela quantia de cem mil réis (cinco dólares), valor 50 vezes menor do que o oferecido a Ary Barroso. Ele fez com todos os dengos ensinados: mãos ondulantes, braços abertos, revirar de olhinhos e referências aos detalhes da roupa. Compensou, porque, daí em diante, ele também ganhou um outro status.

Brazilian Bombshell

Nos EUA, admirada por estrelas da grandeza de Judy Garland, Mickey Rooney, Greta Garbo, Tyrone Power e Darryl F. Zanuck, o todo-poderoso da Fox, Carmen Miranda se transformou rapidamente na mulher mais bem paga da indústria do entretenimento daquele país. Tinha todos aos seus pés, principalmente os diretores dos estúdios - claro, ela era uma mina de ouro. Carmen trabalhou muito. Ansiosa para ser aceita, ela topava tudo. O resultado se traduzia na pesquisa que a revista Variety publicou em1952, anunciando que a Pequena Notável era, de fato, a mulher mais imitada dos Estados Unidos. Longe do fervor dos palcos e estúdios, em casa, quando as visitas a deixavam em paz, anfetaminas e barbitúricos eram engolidos como se fossem balas de goma, quando precisava dormir ou acordar. Sobretudo quando, já casada com David Sebastian, um americano mediano, dono de um caráter questionável, que reforçava ainda mais a agenda profissional da Pequena Notável na sede de ter poder reconhecido sobre a artista. Não tinha micróbio do samba que desse sustento. Resultado: uma depressão cuidadosamente maquiada se revelava em pequenos detalhes. Na bebida exagerada, nas doses cada vez maiores de bolinhas, que a deixavam completamente desregulada e envelhecida, como se viu na última visita ao Rio de Janeiro, quatro meses antes de morrer.

Tinha sido internada, tomado choques elétricos e já não se sentia segura com ninguém. Desembarcou com tremores, hipersensibilidade e dores generalizadas pelo corpo. Ficou internada no Copacabana Palace por quase três meses sem ver ninguém. Até que livrou-se da severa crise de abstinência que lhe acometia. Reviu os amigos, brigou e fez as pazes com a imprensa e relaxou. Mas foi voltar para casa que tudo voltou ao normal. Trabalho, bebida, comprimidos e desgosto demais. O corpo não aguentou e ela morreu fulminada por um ataque cardíaco na solidão do seu quarto de dormir. Voltou ao Brasil e teve, aí sim, a recepção que esperava dos conterrâneos. Flores,choro e 2 milhões de pessoas acompanhando o cortejo fúnebre pelas ruas do Rio de Janeiro, numa explícita declaração de amor.

Veja clipes de Carmen:

Trecho de Banana da Terra (1939)

Aquarela do Brasil

Tico tico no fubá

Cenas da multidão que acompanhou velório de Carmen:

(Reportagem originalmente publicada na edição de 11/01/2009 do CORREIO)