Em novo álbum, Adriana Calcanhotto vai do funk ao xote

Nas gravações, cantora e compositora usou violões que foram de Orlando Silva e Nara Leão

Publicado em 4 de abril de 2023 às 06:00

- Atualizado há 10 meses

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O nome do novo álbum de Adriana Calcanhotto, Errante, já disponível nas plataformas de música, diz muito sobre a cantora e compositora de 57 anos, nascida em Porto Alegre. E não é de hoje que o adjetivo que dá nome ao álbum lhe cai bem, segundo ela mesma: "Sempre fui errante, desde que escrevi Esquadros", referindo-se ao seu sucesso de 1992, canção que a consolidou nacionalmente.

A cantora se refere a versos como "Eu ando pelo mundo prestando atenção" e "Eu ando pelo mundo divertindo gente", que estão na letra da música lançada no álbum Senhas, há 31 anos. "Na música, o verbo está no tempo presente, mas, quando escrevi, ainda não tinha viajado como hoje. Mas eu sabia que sempre senti isso. Para mim, funciona. Não sei para outras pessoas", diz a compositora.

E ela começou a pensar em sua alma errante quando, durante a pandemia de coronavírus, foi obrigada a se isolar. "Fiz um disco em casa [Só, de 2020], na pandemia, e todos os que trabalharam nele estavam isolados. Ali, eu vi minha alma nômade confinada involuntariamente, então entendi essa coisa de estar em movimento".

Enquanto o álbum anterior foi feito com todos os participantes em confinamento, Errante vai em sentido completamente oposto, já que todos os músicos se juntaram para as gravações. Passaram nove dias numa casa em Araras, na serra do Rio de Janeiro, cercados de Mata Atlântica. Além de Adriana (voz e violão), participam do Alberto Continentino (baixo, piano e lira), Davi Moraes (guitarra e violão) e Domenico Lancellotti (bateria e percussão), com o reforço dos sopros de Diogo Gomes, Jorge Continentino e Marlon Sette.

Improvisos Adriana tinha um material inédito já composto, suficiente para um novo álbum e, segundo ela, pela primeira vez, tinha tamanha fartura. A banda se juntou a ela em novembro de 2021, quando a pandemia não tinha acabado, mas já estavam todos vacinados. E aquele reencontro dos artistas é perceptível ao ouvinte, segundo a cantora. "O disco, do ponto de vista sonoro, é o retrato desse reencontro, da vontade de tocar".

Nas gravações, houve espaço para improvisos e muita espontaneidade. As músicas eram tocadas várias vezes, mas sempre de maneira diferente: "Tocávamos da maneira como estávamos nos sentindo naquele momento e fazíamos vários takes. Como as canções eram minhas, eles me ouviam e tocavam comigo, enquanto eu estava no violão. No fim, a gente escolhia o take mais 'vivo', mais bonito".

A experiência inédita para ela, de passar por uma imersão com os colegas durante uma gravação, foi positiva: "Tem uma coisa muito interessante que é o nível de concentração. Não tem o movimento de ir para casa, enfrentar o trânsito, desmontar o estúdio... não tem esse tempo da vida, que causa uma dispersão", observa. "Então, acho bonita essa fotografia desse momento em que a gente voltava sedento de tocar e sedento de estarmos juntos", acrescenta.

Violões Sobre os violões que Adriana usou na gravação, há uma curiosidade. Mais que isso, eles têm uma história preciosa. Os dois instrumentos usados por ela pertenceram a dois dos mais importantes artistas de nossa música e excepcionais cantores: Nara Leão (1942-1989) e Orlando Silva (1915-1978).

"Esses violões chegaram a mim e, graças a deus, vieram parar comigo porque as pessoas que são suas fiéis depositárias sabem que esses instrumentos vão ser felizes aqui [com ela], que vou compor com eles. Instrumento gosta de ser usado, não gosta de ficar dentro de uma caixa". Como aqueles, Adriana diz que tem outros instrumentos com uma importante história: "Mais que bem cuidados, eles são mimados por mim", brinca.

O resultado daquele encontro com os músicos é um álbum com uma sonoridade bastante diversa e muitíssimo bem arranjado e produzido. Começa com A Prova dos Nove, canção que flerta com o funk e faz referência ao modernismo, quando ela diz "E a alegria como prova dos nove", ao citar uma frase usada por Oswald de Andrade no Manifesto Antropófago. Depois, tem samba-de-roda (Larga Tudo), rock (Era Isso?), samba (Levou Para o Samba Minha Fantasia), xote (Pra Lhe Dizer)... Tudo com o habitual capricho de Adriana e seus músicos pra lá de competentes.

Mal lançou o disco e ela já prepara o próximo trabalho: uma turnê com canções que ficaram conhecidas na voz de Gal Costa. A vida artística das duas já se cruzou em alguns momentos, quando, por exemplo, a baiana gravou Esquadros. O show chega a Salvador dia 14 de maio. O convite partiu de Marcus Preto, que foi diretor artístico de Gal Costa por quase dez anos.

"Recebi esse convite e tive que fazer uma certa ginástica na agenda para que isso coubesse na minha agenda e faço isso com muita alegria porque é um privilégio enorme poder fazer isso. Temos que fazer! É muito estranho não ter Gal, é difícil essa assimilação".

E, segundo Adriana, o que lhe ajuda a "digerir" a morte da cantora é estar mergulhada no universo dela, ouvindo toda a discografia. "Agora, só faço isso. Escuto o tempo todo, vejo entrevistas dela... Assisto aos shows, making of, ela falando de cada trabalho... Isso, por um lado, ajuda [a encarar a morte de Gal], mas é também um processo duro".