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Carmen Vasconcelos
Publicado em 10 de abril de 2026 às 06:00
Manu Moscoso não sabe definir onde termina a mulher e onde começa a empresária. Para ela, empreender nunca foi uma escolha de carreira, mas uma condição genética. Após navegar por mais de uma dezena de iniciativas e acumular dez anos de experiência no setor de bem-estar, a baiana encontrou na Nutrition’all o ponto de mutação onde sua visão de mundo virou negócio. >
Ex-obesa e profunda conhecedora das oscilações da autoestima feminina, Manu construiu uma marca que rema contra a maré das "fórmulas mágicas" e do marketing agressivo de emagrecimento. Em um mercado que movimenta bilhões alimentando inseguranças estéticas, ela optou pelo caminho mais longo: o da saúde integrativa e da transparência científica.>
Agora, ao completar 40 anos, a empresária vive um rito de passagem simbólico e estrutural. Enquanto o mercado de suplementação foca no eixo Sudeste, Manu finca raízes no solo onde nasceu. Com o anúncio de uma fábrica própria na Bahia para 2026, ela prova que a identidade regional e a liderança humanizada são ativos tão valiosos quanto o faturamento. Nesta entrevista, ela fala sobre a coragem de ser ética em um setor de ilusões, os desafios da gestão feminina e por que decidiu que "feito é melhor que perfeito".>
Antes de ser empresária, você foi uma mulher em busca de equilíbrio, saúde e bem-estar. Que dores, inseguranças ou descobertas pessoais mais influenciaram a criação da Nutrition’all>
A verdade? Eu nem sei muito bem o que é “antes de ser empresária”. Empreender sempre fez parte do meu DNA. Sério. Desde muito pequena eu já tinha essa inquietação de construir coisas do zero, imaginar possibilidades, pensar “e se…?”. Eu sempre fui a menina que queria idealizar, montar, testar, ajustar — que aprendia como fazer algo, fazia e vendia! A Nutrition’all não foi minha primeira iniciativa. Nem a segunda. Nem a terceira. Talvez a décima. Mas foi a primeira vez em que tudo se encaixou. Eu já tinha mais de 10 anos de experiência no setor de saúde e bem-estar, já tinha passado por diferentes áreas, já tinha errado bastante, aprendido bastante… e naquele momento eu consegui juntar todas essas habilidades num único projeto. A Nutrition’all não nasceu só como um negócio. Ela nasceu como um projeto de vida. Eu queria construir algo que tivesse identidade, propósito e continuidade. Parece meio clichê… mas é real! Queria olhar e dizer: “isso aqui tem a minha visão impressa”. A Nutrition’all nasceu dessa inquietação boa, da vontade de construir algo que fosse, ao mesmo tempo, empresa… e legado.>
Em um mercado historicamente associado à estética e à pressão por performance, como foi para você construir uma marca que dialoga com saúde integral e não apenas com padrões corporais?>
Para mim, foi muito natural. Eu já estava imersa há muitos anos no universo de saúde integrativa, longevidade, qualidade de vida. Então o meu olhar já era, de certa forma, “viciado” nesse contexto. Eu aprendi a não enxergar suplementação como atalho estético. Na minha cabeça, nunca faria sentido criar algo que não tivesse qualidade real. Se existe uma substância melhor, é ela que precisa ser usada. Se existe uma formulação mais eficiente, é ela que precisa ser construída. E tem uma crença muito pessoal minha nisso: o barato sempre cobra juros depois. Suplementação é complemento. É algo a mais. Então, se a gente vai colocar algo a mais no corpo, que seja da melhor forma possível. Limpo. Natural. Bem formulado. Mas tem uma parte curiosa dessa história… Eu demorei para perceber que estava “produzindo suplemento”. É sério. Na minha cabeça, eu estava produzindo saúde em pote. Eu estava tentando transformar cuidado em algo palpável, prático, acessível. Só depois foi caindo a ficha: isso é suplemento, isso é varejo, isso tem margem, estoque, logística, impostos, desafio comercial.>
O setor de suplementação e, especialmente, o de emagrecedores movimenta cifras bilionárias e, muitas vezes, reforça expectativas irreais sobre o corpo feminino. Como você analisa esse cenário? Existe espaço para uma abordagem mais ética e alinhada à valorização de corpos reais?>
Existe! Mas vamos ser sinceras… a maioria dos consumidores de suplementos (principalmente no seguimento de emagrecimento) ainda estão em busca das promessas rápidas, das cápsulas milagrosas e dos pozinhos de pirlimpimpim! O que mais tem é marca vendendo essas ilusões! A pergunta não é se existe espaço para ética. A pergunta é: quem vai ter coragem de abrir mão do marketing apelativo? Mas já existe uma nova geração de consumidoras que quer transparência, responsabilidade, ciência e verdade. Se o foco for ser o maior, o que mais vende, o que gera mais receita… esquece!>
Como empresária e mulher, você já sentiu a pressão para “representar” um padrão físico específico por atuar nesse segmento? De que forma isso impactou — ou fortaleceu — sua visão de negócio?>
Com certeza. E ainda sinto algumas vezes! Eu sou uma ex obesa… a relação com o corpo não é algo tão simples assim pra quem já viveu entre tantos altos e baixos! Existe sim uma expectativa implícita de que quem trabalha com suplementação precise ter um corpo “impecável”. Racionalmente, eu tenho muita clareza sobre o assunto, escolhi não vender perfeição. Acredito fielmente em processos e isso é libertador (mas a liberdade também precisa ser vigiada)!>
Falar sobre corpos reais é também falar sobre autoestima, saúde mental e responsabilidade de marca. Qual é o limite entre incentivar hábitos saudáveis e alimentar cobranças estéticas?>
Com certeza esse limite encontra-se na intenção e na narrativa. Não é sobre: “Você precisa mudar para ser aceita” isso é pressão. É sobre: “Você pode evoluir para viver melhor” isso é saúde. E como marca, temos responsabilidade sobre isso.>
A construção da fábrica própria na Bahia marca uma nova fase da sua trajetória. O que essa conquista representa simbolicamente para a mulher que começou o negócio e para outras empreendedoras que acompanham sua jornada?>
É um misto de sentimentos. Dá frio na barriga, preocupação, aquele leve desespero de quem sabe o tamanho da responsabilidade. Mas, ao mesmo tempo, dá muita alegria e motivação. Principalmente, dá um sorriso no rosto e um brilho no olho toda vez que eu falo dela. Ela vem num momento simbólico da minha vida. No mesmo ano em que eu completo 40 anos. É legal sentir essa maturidade pessoal, profissional e empresarial acontecendo ao mesmo tempo. Empresarialmente, a indústria representa muita resiliência, coragem, principalmente de ir contra o fluxo e querer ter sua estrutura aqui na Bahia. Eu sou baiana, a marca é baiana. Eu não quero sair daqui e, como empresa, estaremos lutando para desenvolver e melhorar o que é nosso. Representa a certeza do caminhar. Não de um caminho curto ou oportunista, mas de um caminho longevo. De alguém que escolheu ficar, evoluir, aprender e sempre ajustar a rota quando necessário. Ela simboliza adaptação. Porque já enfrentamos desafios, mudanças societárias, momentos de incerteza. E mesmo assim, seguimos construindo. Quando penso nisso, dá vontade de viver (e viver muito bem) mais 100 anos — Porque ainda tem muita coisa para criar, melhorar, expandir nesse mercado.>
Empreender exige resiliência. Em quais momentos você pensou em desistir — e o que te fez continuar?>
Desistir mesmo… nunca! Eu já fui provocada a isso algumas vezes. E claro, já imaginei finalizações de ciclos. Mas desistir… não. Eu poderia me reinventar cinquenta milhões de vezes. Poderia mudar produto, mudar segmento, mudar modelo, mudar mercado. Poderia fazer algo completamente diferente do que faço hoje. Mas eu seguiria. Porque tem muito de mim nisso. Não dá para desistir do que você é quando você acredita nisso.>
Muitas mulheres têm ideias potentes, mas travam por medo, insegurança ou falta de referências. Que crenças você precisou desconstruir para assumir seu lugar como líder?>
Eu precisei desconstruir várias. Algumas bem básicas — e outras bem profundas. As básicas parecem simples, mas travam muita gente. Você nunca vai saber tudo antes de começar, nunca estará pronta o suficiente. Feito é melhor do que perfeito — mesmo quando a gente odeia admitir isso.>
Quem é Manu Moscoso>
À frente da Nutrition’all, Manu Moscoso é uma empresária baiana movida pela vocação empreendedora e pela defesa da saúde integral. Com uma trajetória de mais de 15 anos no setor de bem-estar, ela transformou a própria vivência — inclusive como ex-obesa — em base para um negócio pautado por ciência, qualidade e responsabilidade na comunicação, distanciando-se de promessas estéticas e priorizando longevidade e qualidade de vida. Sob sua liderança, a marca avança com a implantação de fábrica própria na Bahia.>