Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Carmen Vasconcelos
Publicado em 8 de junho de 2026 às 06:00
Nas margens do Rio Paraguaçu, na histórica cidade litorânea de Saubara, a rotina feminina é tradicionalmente ligada às idas e vindas do mar. Contudo, a verdadeira força motriz da economia e da identidade local reside nas mãos das mulheres que integram a Associação dos Artesãos de Saubara. >
Desde 1999, o grupo atua na preservação e no aprimoramento técnico da renda de bilros e do trançado na palha de ouricuri (ou licuri). Hoje, essa tradição ancestral vive seu momento de maior emancipação. A delicadeza do ofício local acaba de conquistar oficialmente a Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência (IP), um selo de origem que atesta a autenticidade e a qualidade do artesanato saubarense. >
A conquista jurídica e cultural ganhou um reforço institucional sem precedentes. O Instituto Federal da Bahia (IFBA) foi contemplado no edital nacional Seleção de Projetos para Promoções Geográficas (nº 12/2025), promovido pela SETEC/MEC, IFES, IFSP, Ministério da Agricultura (Mapa) e Sebrae. O projeto, intitulado “Fortalecimento e Incubação da Indicação Geográfica da Renda de Bilro de Saubara - BA: Consolidação Empresarial e Expansão de Mercado”, é executado em uma rede interuniversitária que une o IFBA, a UFBA e a UNEB. >
Essa união acadêmica e governamental apoia diretamente a estruturação e a governança de mercado das artesãs, transformando um patrimônio cultural em uma fonte sustentável de geração de renda. >
Protagonismo >
A história desse avanço confunde-se com a trajetória da artesã e gestora Diana Félix, que aprendeu a manejar os bilros aos 10 anos, observando a mãe e a avó. >
Se no passado a realidade das rendeiras — que também enfrentam a dupla jornada como marisqueiras e pescadoras — era marcada pela extrema vulnerabilidade, onde as peças eram trocadas diretamente por alimentos para garantir a subsistência, hoje o cenário é de autonomia financeira. Diana, atualmente, dedica-se em tempo integral à administração e às vendas da associação, que funciona como o coração produtivo da comunidade.>
"Nosso projeto atua diretamente na profissionalização da comercialização, na ampliação de mercados e na valorização do produto por meio do selo de origem", destaca Catarina Ferreira Silveira, docente, pesquisadora em Inovação (IG) e coordenadora da equipe interinstitucional IFBA/UFBA/UNEB. >
De acordo com a pesquisadora, o fortalecimento da Renda de Bilro de Saubara é um exemplo prático e concreto de agenda ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa), pois promove inclusão produtiva, desenvolvimento territorial sustentável e, acima de tudo, o protagonismo feminino através de uma atividade de baixo impacto ambiental, transmitida entre gerações de mulheres.>
Mãos na Moda >
Como parte dessa estratégia de mercado e valorização cultural, o projeto Mãos da Moda (também denominado carinhosamente pela comunidade como Mãos na Moda) surge como uma vitrine essencial. Trata-se de uma iniciativa da plataforma Nordestesse em parceria com o Riachuelo Lab (laboratório de curadoria da Riachuelo) e integrada às ações de apoio da própria Associação de Saubara, funcionando como uma ponte entre os saberes manuais e o design contemporâneo. O propósito é impulsionar a moda do Nordeste por meio de "narrativas vestíveis", oferecendo produtos autênticos, carregados de história e impossíveis de serem reproduzidos em massa.>
"A conexão com grandes marcas e redes varejistas representa uma oportunidade única de ampliar mercados e gerar renda para as mulheres de Saubara, sem que se perca um único milímetro da identidade cultural e da ancestralidade do produto", destaca Catarina Silveira.>
Por meio do edital do Mãos da Moda, que atraiu 23 marcas autorais na Bahia, o ateliê da estilista Luciana Bortowski (Luci), radicado no Vale do Capão, na Chapada Diamantina, foi um dos selecionados para co-criar uma coleção exclusiva com as 54 mulheres da associação de Saubara.>
Conhecida por sua atuação anterior ao lado da estilista Fernanda Yamamoto, Luciana desenvolveu um intercâmbio profundo com as rendeiras. Sob o teto da associação, toalhas de mesa rendadas se transformaram em vestidos de alta costura, e guardanapos bordados viraram tops modernos arrematados por aviamentos esquecidos. >
A troca técnica desafiou a maestria das rendeiras experientes da comunidade, como Maria Rendeira e Raimunda. Os croquis levados pela estilista exigiam alta complexidade técnica, forçando as artesãs a misturarem dois ou mais pontos tradicionais diferentes em uma mesma peça. >
A imersão criativa, realizada entre dezembro de 2025 e março de 2026, consolidou o orgulho e a capacidade produtiva do grupo. "A gente percebeu que é capaz de fazer o que antes achava que não podia", celebra Diana Félix.>
Desafio Geracional >
Apesar das conquistas comerciais, do amparo científico das universidades e da projeção no varejo nacional, as lideranças da Associação de Saubara mantêm o alerta para o futuro da salvaguarda dessa tradição. >
Diana Félix aponta que o baixo interesse dos jovens locais continua sendo o principal gargalo para o revezamento geracional. Atualmente, a escola mantida pela associação para garantir a perenidade do ofício atende turmas pequenas, com apenas sete alunas na renda de bilro e oito pessoas aprendendo o trançado da palha. >
A perspectiva de longo prazo traçada pela equipe de pesquisadores do IFBA/UFBA/UNEB e pelas lideranças locais é consolidar a Renda de Bilro de Saubara como uma referência nacional e internacional de artesanato de origem certificada. >
O Festival Mãos da Moda e as parcerias de co-criação com o design autoral funcionam como ferramentas de transformação social ativa. Enquanto houver o bater firme dos bilros nas almofadas do Recôncavo Baiano, a força dessas 54 mulheres continuará a provar que a tradição, quando aliada à inovação e ao respeito à identidade, é o fio condutor para um futuro próspero, sustentável e soberano.>