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Carmen Vasconcelos
Publicado em 8 de junho de 2026 às 06:30
Em plena era da transformação digital profunda, uma reviravolta conceitual promete ditar os rumos do mercado de trabalho global nos próximos cinco anos. O recém-divulgado Relatório do Futuro do Trabalho, publicado pelo Fórum Econômico Mundial para projetar as demandas profissionais até 2030, revelou que as habilidades puramente técnicas ligadas à Inteligência Artificial (IA) sequer figuram no TOP 10 de competências mais requisitadas pelas empresas. >
No topo da lista, o predomínio é absoluto das chamadas soft skills (habilidades comportamentais). >
Para Thalita Jesus, especialista em comportamento corporativo, neurocientista e fundadora do perfil "Oi, Chefinha", o dado representa uma conquista histórica para as relações de trabalho. "Finalmente há um reconhecimento formal de algo que sabemos há tanto tempo: o que diferencia os profissionais extraordinários são as habilidades comportamentais", avalia. Thalita aponta que, enquanto no passado as organizações toleravam colaboradores com sério despreparo emocional em função de sua alta capacidade técnica, a automação do "trabalho pesado" do conhecimento mudará essa dinâmica. >
Em um cenário onde as máquinas executam a técnica, o diferencial humano será saber se comportar adequadamente e manejar as próprias emoções. >
Pensamento Analítico >
Apontado pelo relatório como a habilidade número um e mais desejada pelo mercado mundial, o pensamento analítico vai muito além da execução de tarefas cotidianas.>
Segundo a especialista, o profissional que desenvolve essa competência se destaca por conseguir decompor problemas grandes e complexos em partes menores, enxergando além da superfície. "Em geral, os profissionais focam em entregar sua parte do trabalho sem se preocupar com o impacto no contexto geral. Quem tem o pensamento analítico aflorado antecipa problemas, traz sugestões baseadas em análises e propõe melhorias sem que haja uma necessidade aparente no momento", explica Thalita. >
Trata-se do comportamento que atua como o "segundo par de olhos" que toda liderança e gestão de ponta deseja ter em sua equipe. >
"O letramento em IA se tornará mandatório, como saber mexer no Windows ou macOS. Mas o que as máquinas geram não tem validação de viabilidade sem o crivo e o sentimento humano. É aí que entram a empatia e a negociação." — Thalita Jesus, fundadora do 'Oi, Chefinha' >
O relatório do Fórum Econômico Mundial também dá amplo destaque para a tríade da sobrevivência corporativa: resiliência, flexibilidade e agilidade. Contudo, em ambientes de alta pressão, desenvolver tais competências sem afetar a saúde mental é um dos maiores desafios dos profissionais modernos. >
Utilizando sua bagagem teórica em Neurociências e Psicologia Aplicada, Thalita Jesus desmistifica a barreira biológica que muitos sentem ao tentar mudar comportamentos. "Nosso cérebro busca constantemente economizar energia. Ele corresponde a apenas 2% do peso corporal, mas consome sozinho 20% da nossa energia", revela. Por buscar a homeostase (estabilidade), o sistema nervoso enxerga qualquer mudança ou demanda por flexibilidade como uma ameaça de gasto energético. >
A boa notícia é que não existem restrições biológicas para a adaptação. Segundo a especialista, é preciso "treinar a musculatura" da flexibilidade para tirar o cérebro do modo automático. Quanto mais o indivíduo se expõe a situações novas e encara adversidades não como problemas, mas como oportunidades de crescimento criativo, maior é a sua capacidade de gerar neuroplasticidade (novas conexões mentais), o que inclusive previne doenças degenerativas a longo prazo. >
Liderança Lateral >
A pesquisa projeta uma atenção especial para a Geração Z — os primeiros nativos 100% digitais. Embora hiperconectados, muitos jovens que entram no mercado atual demonstram dificuldades severas em decodificar linguagens não-verbais e interpretar emoções em interações reais, fruto de uma socialização fortemente moldada por telas e ambientes virtuais.>
Para este grupo, a orientação é observar o entorno com atenção, manter a humildade e buscar feedbacks constantes com as chefias. >
Além disso, mesmo para aqueles que não ocupam cargos formais de gestão, a liderança e a influência social aparecem como tendências críticas de mercado, especialmente em regimes híbridos ou remotos. De acordo com Thalita, a forma mais eficiente — e ignorada — de exercer essa liderança lateral entre pares é a colaboração genuína. "A intenção ingênua de ajudar o colega faz com que você se torne referência em um tema e cria um ambiente seguro contra julgamentos. Todas as oportunidades incríveis da minha carreira partiram do lugar de me prontificar a colaborar", diz.>
Apesar do diagnóstico claro do Fórum Econômico Mundial, a transição do perfil puramente técnico para o estratégico-comportamental ainda enfrenta barreiras culturais severas. Na vivência de Thalita Jesus à frente do "Oi, Chefinha", muitos profissionais ainda confundem erroneamente habilidades sociais com bajulação ou fraqueza emocional, demonstrando forte resistência a feedbacks.>
"Muitos ficam frustrados quando percebem que alguém tecnicamente mais fraco foi promovido, demonstrando falta básica de inteligência emocional e inabilidade de entender que relacionamentos movem os negócios", aponta. >
Para acompanhar essa transformação, as empresas também precisarão remodelar seus processos seletivos. A análise tradicional de currículos e diplomas perde espaço para dinâmicas focadas em dilemas emocionais reais — como questionar um candidato sobre como ele agiria ao lidar com um colega de equipe enfrentando um drama familiar grave, mapeando a empatia na prática. >
Para os profissionais que desejam manter-se altamente disputados pelo mercado até 2030, o conselho de ouro da especialista resume-se em três pilares: humildade para aceitar as próprias imperfeições, consciência de que o ser humano é um animal social movido por conexões éticas e dedicação contínua ao estudo do comportamento — uma matéria fundamental que as universidades tradicionais ainda deixam de ensinar.>