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Carmen Vasconcelos
Publicado em 25 de maio de 2026 às 06:30
O som do berimbau, que historicamente embalou a luta pela liberdade e ecoou o lamento e a força dos povos escravizados, agora dita o ritmo de uma transformação sem precedentes em Salvador. A capoeira, patrimônio que resistiu ao tempo e à perseguição, dá um salto histórico em direção à autonomia financeira. Inaugurado no início de maio, o Hub Njila Conexões nasce no coração dos Barris não apenas como um projeto de inovação, mas como um manifesto de dignidade, sendo o primeiro ecossistema do mundo estruturado para abraçar, proteger e profissionalizar toda a cadeia produtiva da capoeira. >
Idealizado pelo capoeirista Jurandir Santana Júnior, também conhecido como Jacaré DiAlabama, a iniciativa se consolida como um marco na Economia Criativa local ao desenhar um modelo de negócio híbrido que entrelaça a sabedoria sagrada dos antigos à alta tecnologia da Indústria 5.0. Longe de ser uma ameaça ao toque manual e ao axé das rodas, a modernização surge como uma armadura. "A Indústria 5.0 coloca o ser humano, a sustentabilidade e a resiliência no centro do desenvolvimento tecnológico", defende Jurandir Júnior. "Na capoeira, a tecnologia não substitui o toque do berimbau ou o saber do Mestre e da Mestra; ela potencializa o detentor desse saber. É a tecnologia servindo de suporte para escalar a produção e garantir que o capoeirista possa viver dignamente de sua arte", completa.>
Na prática, essa união se materializa no diálogo sensível entre o homem e a máquina. O Hub já opera com uma máquina laser de alta precisão que trabalha em sinergia direta com o artesanato tradicional. Sob a orientação, o design e o afeto da identidade ancestral, artesãos periféricos agora produzem artes em dobrões, brindes e joias personalizadas com agilidade industrial, mas sem perder a alma do fazer manual.>
Engrenagem social >
O impacto do Njila Conexões ultrapassa os limites da rasteira e do jogo; ele se ramifica de forma transversal e multidisciplinar por todo o mercado de trabalho periférico. O ecossistema prova que a capoeira é uma engrenagem industrial viva, capaz de absorver e valorizar costureiras e modelistas — que operam a Fábrica Nagô na confecção de vestuário especializado e moda esportiva no atacado —, além de administradores, contadores, gestores de marketing, profissionais de audiovisual e desenvolvedores de software para dar suporte à startup de inovação >
Para romper com gargalos históricos — como a falta de infraestrutura própria, a ausência de crédito e a precariedade na comercialização —, o Hub funciona como um grande "Barracão de Oportunidades", atuando como incubadora e aceleradora capaz de transformar a resistência cultural em emancipação financeira.>
Selo de qualidade >
Os horizontes do Hub são ambiciosos e globais. A startup Povo Que Ginga está desenvolvendo um marketplace inteligente que utilizará Inteligência Artificial voltada especificamente para o universo da capoeira. >
Essa plataforma vai georreferenciar empreendimentos solidários e conectar a produção local de instrumentos e produtos a compradores de mais de 170 países onde a arte está presente.>
Além disso, em consonância direta com o Plano de Salvaguarda da Capoeira na Bahia (IPHAN), o Hub estuda o uso de tecnologias de rastreabilidade, como certificações digitais e blockchain, para proteger a propriedade intelectual dos mestres em materiais audiovisuais, fonográficos e promocionais.>
Toda essa cadeia será coroada com um selo de qualidade e autenticidade. "Mais do que um selo estritamente comercial, essa certificação carrega o compromisso com a economia solidária e com o comércio justo, garantindo que a renda gerada circule localmente em comunidades periféricas. Quem adquire um produto com o selo NJILA saberá que está apoiando diretamente a sustentabilidade dos mestres e a preservação da memória da capoeira", destaca Jurandir.>
Surgido da base e liderado pelo coletivo Capoeira em Movimento Bahia (CMB) e pela Associação Projeto Social União Comunidade em Movimento (UCM), o Hub Njila traz a ancestralidade, a união e a luta antirracista como valores inegociáveis. >
"A tecnologia nunca substituirá a essência; ela serve para blindar essa essência, gerando a sustentabilidade necessária para que as comunidades periféricas continuem praticando e transmitindo seus saberes com autonomia e dignidade, superando os limites do assistencialismo", conclui o idealizador.>
Como participar e fortalecer a Rede>
Integração via Coop Ginga Você pode se associar à cooperativa voltada à organização coletiva do trabalho. Por meio dela, nanoempreendedores têm acesso a linhas de crédito diferenciadas sob a lógica da economia solidária, além de inserção direta dos seus produtos físicos ou digitais nos canais oficiais de e-commerce e no futuro marketplace do Hub, garantindo um escoamento justo da sua produção.>
Qualificação e Projetos com a UCM Através da Associação União Comunidade em Movimento, os participantes recebem capacitação técnica em gestão de negócios, formalização jurídica e captação de recursos. Uma das ações em andamento é o programa Qualifica Capoeira (viabilizado via edital da SETRE-BA), que está oferecendo qualificação profissional gratuita para 420 capoeiristas distribuídos em 21 turmas.>
Serviço: >
Onde: Rua General Labatut, 66, Barris, Salvador - BA.>
Contato: (71) 4105-9756 / Site: njilaconexoes.com.br / Instagram: @njilaconexoes>