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Guerras, alta de insumos, quedas em preços dos produtos e financiamento impulsionam o campo a se reinventar

Representantes da agricultura brasileira se reúnem em Brasília para discutir desafios do setor

  • Foto do(a) author(a) Donaldson Gomes
  • Donaldson Gomes

Publicado em 14 de maio de 2026 às 05:00

Representantes do agro se reúnem em congresso da Abramilho Crédito: @Malu MouraC/Divulgação

Guerras criando dificuldades de acesso a mercados e alta nos custos de produção, ao mesmo tempo em que os preços de diversos produtos agrícolas passam por um período de baixa e o dólar se desvaloriza. Essa é a equação que forma o cenário de uma “tempestade perfeita” para a agricultura mundial. Na equação brasileira, ainda se deve acrescentar as elevadas taxas de juros, que sufocam o produtor rural. E, no horizonte, a expectativa de uma das mais severas passagens do fenômeno climático El Ninõ, no segundo semestre do ano.

Como se tudo isto fosse pouca coisa, a União Europeia (UE) anunciou na última terça-feira (dia 12) que vetará a partir de setembro a importação de carne e outros produtos agrícolas brasileiros por conta do uso de antimicrobianos. Por mais que representantes do governo federal demonstrem confiança em reverter o cenário, quem vive do campo enxerga a formação de uma grave crise em um setor que hoje representa 25% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, além de ser responsável por 40% da pauta de exportações do país.

O ministro da agricultura André de Paula diz que algumas das pautas e preocupações apresentadas pelos produtores rurais são recorrentes na atividade. Umas das questões mais preocupantes do momento diz respeito ao elevado índice de endividamento na atividade. “Estamos trabalhando para apresentar um Plano Safra, que sempre teve números crescentes e importantes, juros que possam caber no bolso do produtor rural, Temos preocupação com o endividamento do produtor”, avaliou o ministro nesta quarta-feira (dia 13), durante o Congresso da Abramilho, em Brasília. O evento, que reuniu alguns dos principais nomes do agronegócio brasileiro, serviu como espaço para discutir questões do interesse do setor.

André de Paula reconheceu que o cenário econômico é preocupante e enfatizou que as questões levantadas pelo agro estão sendo amplamente discutidas, mas evitou antecipar que medidas serão lançadas para enfrentar o cenário.

O ministro manifestou confiança de uma solução em relação ao impasse com a União Europeia. Segundo ele, o anúncio das restrições aos produtos brasileiros causou surpresa. “O Brasil tem um sistema sólido, robusto, de defesa agropecuária. Somos o maior produtor de alimentos do mundo, fornecemos a 170 mercados e há 40 anos exportamos para a Europa. Ontem, exportamos, hoje estamos exportando e vamos seguir fazendo isso”, disse.

“Se perguntar se fomos surpreendidos, sim, porque estamos tratando a questão de forma técnica. Temos a convicção de que não teremos a suspensão de nossas exportações”, frisou.

De acordo com o ministro, nesta quarta-feira pela manhã, o embaixador Pedro Miguel da Costa e Silva, que representa o Brasil na União Europeia, esteve com autoridades sanitárias do bloco europeu. “Tivemos uma sinalização positiva, de que questões serão analisadas individualmente pelas cadeias”, disse. “Nosso embaixador deixou um recado, de que somos parceiros e parcerias pressupõem um relacionamento de respeito”, complementou.

O vice-presidente Geraldo Alckmin também se mostra confiante em relação a um desfecho positivo para o agro brasileiro. “Já pedi uma reunião hoje com o embaixador, em 15 dias os esclarecimentos vão ser dados. Agora, essa relação comercial é sem monotonia, sempre estressante. Tivemos questões com os Estados Unidos, que estão bem encaminhadas. Ainda temos a seção 301, que ainda nos preocupa, mas temos 30 dias para conversar”, frisou.

“O acordo do Mercosul com a União Europeia é o maior do mundo. Claro que tinha uma resistência, um receio com conta da questão do agro. O acordo está bem formatado, já entrou em vigência provisória e acho que esta questão vai se equacionar”, projeta.

Alckmin lembra que o aumento nos custos dos fertilizantes vai afetar a agricultura em todo o mundo. Ele lembrou da reabertura de fábricas de produtos nitrogenados no país, como é o caso da Fafen na Bahia.

Uma das principais representantes dos produtores rurais brasileiros, a senadora Teresa Cristina, ex-ministra da Agricultura, lembra que os produtores brasileiros tem um problema adicional em relação aos de outros locais, que é o acesso ao crédito. Ela ressaltou as elevadas taxas de juros praticadas no país e a necessidade de uma reformulação no Plano Safra. “Estamos enfrentando um problema conjuntural, com commodities em baixa, insumos caros e os preços dos produtos caindo”, lembrou.

“Nós estamos vivendo a crise. Queria que fosse no fim, mas me parece que estamos no começo ou no meio”, avalia.

Uma das principais ações defendidas por Teresa Cristina é a renegociação das dívidas dos produtores. Enquanto o governo oferece um programa que envolve R$ 80 bilhões em renegociação, o setor pede R$ 170 bilhões. Outra ação nesta linha é a ampliação do seguro safra, que atualmente é mais voltado para questões de natureza climática. “Não dá mais para trabalhar sem um seguro, que tem que ser mais amplo, não só de clima, mas de preços também”, defende.

O deputado federal Pedro Lupion, líder da bancada ruralista, também defende um processo de revisão no Plano Safra. “A gente é muito mais reativo do que propositivo. O modelo atual do Plano Safra está completamente vencido, está fora de tempo, fora de propósito”, pondera. Segundo ele, menos de 20% do financiamento do setor saiu da equalização de juros ou do custeio do Tesouro Nacional. Para ele, o plano deveria ser discutido mais cedo, juntamente com o conjunto do orçamento nacional, além de abranger períodos mais longos de tempo. “A gente pode puxar o plano mais para o início do ano e talvez trabalhar com períodos de cinco anos, para que o financiamento agrícola não seja tão afetado pela política”, defendeu.

Sueme Mori, diretora de Relações Internacionais da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), lembra que alguns dos principais parceiros comerciais do agro brasileiro estão na região do Oriente Médio, que está impactado pelo conflito entre os Estados Unidos e o Irã. Sueme lembra que o comércio internacional mudou bastante nos últimos anos. “Antigamente, era necessário produzir bem. Hoje, se eu for mais eficiente, não necessariamente terei mais mercados porque a relação bilateral tem um peso enorme”, destaca.

Para ela, o cenário é desafiador para a cultura do milho, que tem uma enorme margem para crescimento nos próximos anos. “Esta expansão vai se dar em um mundo sem regras claras”, diz. “O produtor se preocupa muito com a produção, em fazer melhor, mas cada vez mais precisamos ser mais institucionais e investir na defesa dos seus interesses”, acredita.