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A psicologia diz que crianças das décadas de 1960 e 1970 não se tornaram fortes por uma educação melhor, mas porque aprenderam a controlar as próprias emoções

Crianças dessa época passavam longos períodos brincando na rua sem supervisão

  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Agência Correio

Publicado em 8 de junho de 2026 às 09:59

Cuidado com as crianças no verão
Cuidado com as crianças no verão Crédito: Freepik

A psicologia do desenvolvimento sustenta uma ideia de que crianças das décadas de 1960 e 1970 não se tornaram adultos emocionalmente mais sólidos por causa de uma educação formal superior, mas porque aprenderam, desde cedo, a lidar com frustrações, conflitos e momentos de tédio sem a mediação constante de adultos.

Esse treino cotidiano, muitas vezes silencioso, foi fundamental para a construção de mecanismos internos de autorregulação emocional, que se mantiveram ao longo da vida.

O que se ouviu sobre dinheiro na infância influencia a vida adulta por Reprodução | Freepik

A autorregulação emocional é a capacidade de administrar as próprias reações diante de situações desafiadoras sem depender de intervenções externas para recuperar o equilíbrio. Envolve tolerar frustrações, adiar recompensas, negociar conflitos e enfrentar pequenos riscos sem entrar em colapso emocional.

Na psicologia comportamental, trata-se de um dos pilares mais consistentes da saúde mental na vida adulta e, ao mesmo tempo, uma das habilidades mais difíceis de desenvolver quando não é exercitada na infância.

Pesquisadores como Jean Piaget e Lev Vygotsky já apontavam, décadas atrás, que o desenvolvimento socioemocional depende da interação real com o ambiente, e não apenas de instrução ou supervisão. A pesquisa contemporânea reforça e aprofunda esse entendimento, trazendo mais precisão sobre como esses processos se consolidam.

Como era a infância dos anos 1960 e 1970

Na prática, crianças dessa época passavam longos períodos brincando na rua sem supervisão, resolviam conflitos entre si e voltavam para casa apenas ao anoitecer. O tédio fazia parte da rotina, já que não havia agendas cheias de atividades, nem tecnologia para preencher cada momento livre.

A liberdade não supervisionada era o padrão. E, dentro desse contexto, surgiam oportunidades constantes de aprendizado emocional. Perder uma brincadeira significava lidar com a frustração. Brigar com um amigo exigia encontrar caminhos para a reconciliação. Pequenos machucados eram seguidos pelo retorno à atividade. Cada situação funcionava como um exercício prático de resiliência.

O que mudou nas gerações seguintes

A partir dos anos 90, e com mais intensidade nos anos 2000, consolidou-se o modelo de parentalidade intensiva. Pais passaram a supervisionar mais de perto a rotina dos filhos, intervir em conflitos rapidamente e reduzir ao máximo a exposição a frustrações.

Esse comportamento ficou conhecido como parentalidade helicóptero, caracterizado pela presença constante e pela pronta intervenção diante de qualquer dificuldade.

Entre as principais mudanças observadas estão:

Redução do tempo de brincadeira livre, com impacto direto no desenvolvimento socioemocional;

Mediação frequente de conflitos, limitando a autonomia da criança;

Evitação do erro, o que dificulta o aprendizado emocional associado ao fracasso;

Maior dependência de validação externa para decisões e escolhas.

O passado era melhor?

A psicologia do desenvolvimento não propõe uma idealização do passado. A infância das décadas de 60 e 70 também apresentava problemas relevantes, como negligência emocional e falta de suporte em situações importantes.

O ponto central não é defender um modelo antigo, mas reconhecer que um elemento importante foi reduzido: o espaço para que a criança desenvolva autonomia emocional por meio da experiência direta.

O que isso sugere para a criação atual

O entendimento contemporâneo aponta para a necessidade de equilíbrio. Crianças precisam de afeto, segurança e diálogo, mas também de oportunidades reais para errar, enfrentar frustrações, resolver conflitos e experimentar desafios de forma progressiva.

A construção da força emocional não acontece pela ausência de dificuldades, mas pela vivência delas em um ambiente suficientemente seguro.

Em síntese, o que a psicologia demonstra não é uma nostalgia de outra época, mas um princípio: a resiliência emocional se desenvolve pela exposição gradual a desafios reais e pela experiência repetida de superação sem intervenção imediata.

Resgatar o espaço para o erro, o tédio e a descoberta não significa voltar ao passado, mas reconhecer que certas condições são essenciais para o desenvolvimento emocional. Proteger em excesso, nesse sentido, pode acabar limitando justamente as experiências que fortalecem a criança.