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Thais Borges
Publicado em 8 de junho de 2026 às 06:00
Quando o escritor Matheus Rocha decidiu sair de Feira de Santana, sua cidade natal, para morar em São Paulo, sabia que teria que abrir mão de muita coisa. Tinha que pagar o preço para viver a vida que tinha idealizado: recomeçar em uma nova cidade e correr atrás de seus sonhos num lugar quase 20 vezes maior do que o município baiano. >
Teve que lidar com a distância da mãe, com uma alimentação baseada no que dava para comer, com os custos para a saúde mental e na nova vida sozinho. “Em Feira de Santana, eu tinha muitas histórias. Lá, mora meu pai, que foi completamente ausente e que eu tive que pedir para conhecer, aos 10 anos de idade. Lá, estavam meus ex-namorados, as pessoas que praticaram bullying contra mim. Quando cheguei em São Paulo, me apaixonei só por ver casais gays de mãos dadas na rua de forma segura. Gente com todo tipo de cabelo, roupa, com liberdade de existir, que naquela época eu não tinha”, diz Matheus, 34. >
Matheus Rocha lança novo livro ‘Ninguém ensina a gente a ser adulto'
Nove anos depois, essa é uma das reflexões que ele traz no novo livro Ninguém Ensina a Gente a Ser Adulto (Intrínseca / 224 págs / R$ 64,90). Matheus criou a página Neologismo no antigo Tumblr há quase uma década e, de lá, viralizou em outras redes com seus escritos. Atualmente, acumula quase 600 mil seguidores no Instagram e mais de 200 mil no X. >
Ninguém Ensina a Gente a Ser Adulto é o primeiro livro dele após um hiato de cinco - ao todo, Matheus tem outros seis publicados. Aqui, os leitores vão encontrar relatos muito honestos e pessoais. A escrita veio também depois da depressão e de mais tempo convivendo com a ansiedade. Ao longo da obra, ele discorre justamente sobre o início da vida adulta, a transição dos 20 para os 30 anos e a quebra de expectativas que pode vir junto. >
“Foi meu livro mais maduro, que eu tive mais tempo. Eu saí daquela demanda de um livro por ano, porque estava nessa demanda com pressa de ser feliz mesmo. Parei, olhei ao meu redor, vi que não estava satisfeito e falei: ‘vou dar um tempo para mim’”, conta ele, que ouvia cobranças de outras pessoas sobre uma nova obra. “Sentia que, se tem pessoas no mundo que realmente me conhecem, são as pessoas que leram meus livros. Elas sabem de coisas que, às vezes, meus amigos que têm meus livros e não leram, não sabem. Por isso, fui muito sincero. Precisava honrar isso”, completa. >
Em boa parte da obra, a crise dos 30 anos está lá. Matheus diz que achava que era um mito, até perceber que realmente existia. Logo no início, ele explica que o livro é para os membros do ‘clube de desiludidos pela vida’, mas que não desistiram dos sonhos e da felicidade. Para ele, ter uma geração com tantos desiludidos também é um reflexo de ser a primeira geração que buscou cuidar mais da saúde mental. >
“A gente acabou se desiludindo porque viu que a realidade não era igual ao que era passado quando a gente cresceu. A gente não tem as conquistas dos nossos pais e não é todo mundo concursado, com carro”, enumera. “Quis mandar um sinal para os meus leitores mais jovens e dizer: ‘gente, estou aqui e não é nada do que prometeram para a gente’. O buraco é mais embaixo”, afirma. >
Desabafo>
Matheus começou escrevendo para o Tumblr, plataforma que foi muito popular até o início dos anos 2010. Seguiu para o Facebook e, depois, uma amiga lhe deu um blog de presente. Passou para o Twitter, o Instagram e chegou aos livros. >
“Sofri muito bullying na escola, do primeiro dia ao último. Na época, eu não entendia por que estava sofrendo bullying. Criei o Tumblr porque ninguém da minha escola tinha. Fiz de diário, mas cresceu muito. O que era para ser só eu desabafando cresceu. Comecei a ganhar muitos seguidores para falar sobre essas dúvidas, essas incertezas”, explica. >
Numa época em que pouco postava fotos, ele se tornou conhecido pelas palavras. Mesmo hoje, ainda tem quem o acompanhe desde aquele tempo. Quando decidiu se mudar para São Paulo, contou à mãe, que o incentivou a vender o carro e ir. “Alguns dos meus amigos que eram virtuais se tornaram reais e fui construindo uma nova rede de amigos e uma outra profissão além do jornalismo e da escrita, que é a de criador de conteúdo”, diz Matheus, que também é formado em jornalismo. >
A mãe, inclusive, é uma personagem importante no livro. Um dos capítulos parte da própria experiência com ela para falar sobre a percepção de que os pais envelhecem e como os papéis se invertem em algum momento. >
“Como éramos só eu e ela contra o mundo, a gente tem essa ligação. Muitas vezes, eu sou responsável por ela quando ela fica doente. Ela é teimosa, não gosta de médico, não gosta de remédio. Tudo, para ela, se resolve com chá. Essa relação é muito saudável porque os dois se respeitam muito. Cresci como melhor amigo dela e ela como minha melhor amiga, o que me fez ver que ela não é uma mulher maravilha”, pondera. >
Seja numa reflexão sobre o que é ser saudável, seja discorrendo sobre o que é felicidade, Matheus reforça que é possível continuar sonhando mesmo entre os desiludidos. Ele pretende fazer o lançamento do livro também na Bahia. Com uma tatuagem de 'made in Bahia' no pulso, Matheus diz que, de certa forma, nunca vai sair do estado. A família ainda mora em Feira de Santana: “Nunca vou deixar de me orgulhar da cidade que vim. Nascer baiano é o maior presente que a gente tem para qualquer pessoa”. >