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Enquanto o Ocidente lança mísseis e reúne exércitos, a maior arma da China está embaixo da terra e já está controlando o mundo

Com controle sobre 70% da mineração e 90% do refino global de terras raras do planeta

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 5 de junho de 2026 às 17:17

Pequim transformou 17 elementos na mais eficiente arma geopolítica da atualidade
Pequim transformou 17 elementos na mais eficiente arma geopolítica da atualidade Crédito: Vlad Chețan / Pexels

Se você está lendo essa matéria pelo celular, você está portando uma variedade de elementos, principalmente minerais terras raras. Esses raros minérios são encontrados em pouquíssimos lugares, e a China detém o controle da maioria da produção mundial.

Em abril de 1964, geólogos chineses descobriram que uma simples mina de minério de ferro próxima a Baotou, no norte do país, guardava algo muito mais valioso: a maior jazida de terras raras do mundo.

1964: Campanhas científicas em Bayan Obo reforçam o papel da mina na exploração chinesa de terras raras por NASA Earth Observatory / Wikimedia Commons

Deng Xiaoping, então presidente do país, visitou pessoalmente o local, e a visão que ele teve naquele deserto seria transformada, décadas depois, em uma estratégia de dominância global sem precedentes.

Hoje, o que costumava ser um subproduto descartado de minerações tornou-se o núcleo de uma das disputas geopolíticas mais intensas do nosso tempo. Terras raras: um conjunto de 17 elementos químicos com propriedades únicas.

Eles estão presentes em absolutamente tudo que define a modernidade tecnológica, desde microchips para eletrônicos até sistemas de comunicações, mísseis e geração de energia.

Dados utilizados oriundos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS)
Dados utilizados oriundos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) Crédito: Tabela gerada por IA

Controle no processamento

A China não domina apenas as reservas no subsolo. Seu verdadeiro poder está no elo mais difícil e caro de toda a cadeia: o refino. Enquanto outros países possuem depósitos, quase nenhum tem a infraestrutura e a mão de obra para processar o mineral bruto até o estágio final.

O Brasil detém cerca de 98% das reservas mundiais de nióbio, mas o processamento é feito pela empresa chinesa China Nonferrous Trade (CNT)
O Brasil detém cerca de 98% das reservas mundiais de nióbio, mas o processamento é feito pela empresa chinesa China Nonferrous Trade (CNT) Crédito: Alchemist-hp / Wikimedia Commons

Outro exemplo emblemático é a cidade de Wuxi, próxima a Xangai. Lá, técnicos de uma refinaria passaram sete anos desenvolvendo um processo para purificar a terra rara disprósio a um nível extraordinário.

A unidade é hoje a única fonte mundial desse elemento em tal grau de pureza, essencial para os capacitores dos chips de IA Blackwell da Nvidia
A unidade é hoje a única fonte mundial desse elemento em tal grau de pureza, essencial para os capacitores dos chips de IA Blackwell da Nvidia Crédito: Pronoia / Wikimedia Commons / Imagem Editada

Quando um único país controla o processamento da vasta maioria de um recurso, ele controla o ritmo da inovação global e a segurança do abastecimento.

Arthur D. Little

fala adaptado do relatório relatório “The Rare Earth Imperative”

Arma geopolítica

Em 2025, a tensão chegou ao limite em uma guerra comercial entre as superpotências. Pequim endureceu drasticamente os controles de exportação sobre minerais estratégicos em resposta às tarifas impostas pelo presidente Donald Trump.

As restrições atingiram especialmente terras raras pesadas (ítrio, disprósio, térbio e samário) e as exportações de alguns desses elementos despencaram cerca de 50% desde a imposição das medidas
As restrições atingiram especialmente terras raras pesadas (ítrio, disprósio, térbio e samário) e as exportações de alguns desses elementos despencaram cerca de 50% desde a imposição das medidas Crédito: Louis_ Every Click / Pexels

O impacto foi imediato e devastador para setores inteiros. Montadoras americanas alertaram que estavam a poucas semanas de paralisar linhas de produção.

Países aliados dos EUA, como Japão e Alemanha, enfrentaram escassez, alta de preços e interrupções em cadeias de suprimento que alimentam desde caças F-35 até picapes elétricas.

Em 2023, a China havia dado um passo ainda mais ousado. Proibiu a exportação de tecnologia para extrair e separar os metais, tornando ainda mais difícil para outros países desenvolverem capacidade própria de processamento.

A guerra econômica entre as duas nações escalou até final de 2025, em que houve avanços diplomáticos entre as partes. Em um acordo feito entre Donald Trump e Xi Jinping em outubro deste ano, foi estabelecida uma “trégua armada”.

A China aceitou retroceder em parte de suas novas regulações sobre o setor, e os EUA aceitaram reduzir uma parte das tarifas sobre produtos chineses, de 57% para 47%. Porém, parte dos aumentos e pressões ainda continua.

A maior parte dos acordos é temporária e tem validade em novembro de 2026
A maior parte dos acordos é temporária e tem validade em novembro de 2026 Crédito: Casa Branca / Wikimedia Commons

Ocidente corre contra o relógio

Em 18 de maio de 2026, o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, reuniu o G7 em Paris com um alerta: os países "não têm tempo a perder" na tentativa de reduzir a dependência da China.

A declaração resume o paradoxo estratégico que assombra o Ocidente há décadas: todos sabem que precisam agir, mas a solução leva anos, custa caro e esbarra em obstáculos ambientais e tecnológicos de enorme escala.

A China responde a essas tentativas em duas frentes simultâneas. De um lado, descobriu novos depósitos nas províncias de Heilongjiang e Jilin, que prometem mineração mais simples e econômica do que os atuais campos do sul.

De outro, mantém controles cada vez mais rígidos sobre a tecnologia de processamento. Dessa forma, mesmo que outros países encontrem novas reservas minerais, não conseguirão refiná-los sem depender de Pequim.

A batalha passa também pela formação de profissionais. Enquanto universidades americanas concederam pouco mais de 200 diplomas em engenharia de mineração e metalurgia em 2023, a China conta com centenas de cientistas dedicados exclusivamente a pesquisas em terras raras.

Técnicos do setor chinês chegaram a ter passaportes retidos para evitar a fuga de expertise estratégica
Técnicos do setor chinês chegaram a ter passaportes retidos para evitar a fuga de expertise estratégica, segundo apuração do The Wall Street Journal Crédito: Neneqo Fotógrafo / Pexels

O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras. Mas, hoje, a cadeia global continua dominada pela China.

Financial Times

2026

Papel do Brasil nessa disputa

O Brasil surge como um dos poucos trunfos do “Ocidente” nessa corrida. O país possui a segunda maior reserva mundial de terras raras e é lar da Serra Verde, em Goiás.

Ela é a primeira e única operação de mineração e separação de terras raras fora da Ásia com produção relevante
Ela é a primeira e única operação de mineração e separação de terras raras fora da Ásia com produção relevante Crédito: Divulgação / Serra Verde

Em abril de 2026, a americana USA Rare Earth adquiriu a Serra Verde por US$ 2,8 bilhões, em uma das maiores apostas do mundo ocidental para quebrar o monopólio chinês.

O objetivo declarado é construir uma cadeia completa: da extração ao superímã final, passando por todas as etapas de separação e processamento que hoje pertencem à China.

Os desafios, no entanto, são imensos. Construir refinarias, formar mão de obra especializada e criar infraestrutura competitiva são tarefas que levam décadas. Enquanto isso, a trégua entre China e EUA, válida apenas até novembro de 2026, pouco muda essa realidade estrutural.

A corrida pelas terras raras é longa, e a China leva meio século de vantagem.

Tags:

Eua Guerra Minérios Mercado Mineração China