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Luiz Dias
Agência Correio
Publicado em 5 de junho de 2026 às 17:17
Se você está lendo essa matéria pelo celular, você está portando uma variedade de elementos, principalmente minerais terras raras. Esses raros minérios são encontrados em pouquíssimos lugares, e a China detém o controle da maioria da produção mundial. >
Em abril de 1964, geólogos chineses descobriram que uma simples mina de minério de ferro próxima a Baotou, no norte do país, guardava algo muito mais valioso: a maior jazida de terras raras do mundo. >
Cronologia da exploração dos minerais terra rara na China
Deng Xiaoping, então presidente do país, visitou pessoalmente o local, e a visão que ele teve naquele deserto seria transformada, décadas depois, em uma estratégia de dominância global sem precedentes.>
Hoje, o que costumava ser um subproduto descartado de minerações tornou-se o núcleo de uma das disputas geopolíticas mais intensas do nosso tempo. Terras raras: um conjunto de 17 elementos químicos com propriedades únicas.>
Eles estão presentes em absolutamente tudo que define a modernidade tecnológica, desde microchips para eletrônicos até sistemas de comunicações, mísseis e geração de energia. >
A China não domina apenas as reservas no subsolo. Seu verdadeiro poder está no elo mais difícil e caro de toda a cadeia: o refino. Enquanto outros países possuem depósitos, quase nenhum tem a infraestrutura e a mão de obra para processar o mineral bruto até o estágio final.>
Outro exemplo emblemático é a cidade de Wuxi, próxima a Xangai. Lá, técnicos de uma refinaria passaram sete anos desenvolvendo um processo para purificar a terra rara disprósio a um nível extraordinário. >
Arthur D. Little
fala adaptado do relatório relatório “The Rare Earth Imperative”Em 2025, a tensão chegou ao limite em uma guerra comercial entre as superpotências. Pequim endureceu drasticamente os controles de exportação sobre minerais estratégicos em resposta às tarifas impostas pelo presidente Donald Trump. >
O impacto foi imediato e devastador para setores inteiros. Montadoras americanas alertaram que estavam a poucas semanas de paralisar linhas de produção. >
Países aliados dos EUA, como Japão e Alemanha, enfrentaram escassez, alta de preços e interrupções em cadeias de suprimento que alimentam desde caças F-35 até picapes elétricas.>
Em 2023, a China havia dado um passo ainda mais ousado. Proibiu a exportação de tecnologia para extrair e separar os metais, tornando ainda mais difícil para outros países desenvolverem capacidade própria de processamento.>
A guerra econômica entre as duas nações escalou até final de 2025, em que houve avanços diplomáticos entre as partes. Em um acordo feito entre Donald Trump e Xi Jinping em outubro deste ano, foi estabelecida uma “trégua armada”.>
A China aceitou retroceder em parte de suas novas regulações sobre o setor, e os EUA aceitaram reduzir uma parte das tarifas sobre produtos chineses, de 57% para 47%. Porém, parte dos aumentos e pressões ainda continua.>
Em 18 de maio de 2026, o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, reuniu o G7 em Paris com um alerta: os países "não têm tempo a perder" na tentativa de reduzir a dependência da China. >
A declaração resume o paradoxo estratégico que assombra o Ocidente há décadas: todos sabem que precisam agir, mas a solução leva anos, custa caro e esbarra em obstáculos ambientais e tecnológicos de enorme escala.>
A China responde a essas tentativas em duas frentes simultâneas. De um lado, descobriu novos depósitos nas províncias de Heilongjiang e Jilin, que prometem mineração mais simples e econômica do que os atuais campos do sul. >
De outro, mantém controles cada vez mais rígidos sobre a tecnologia de processamento. Dessa forma, mesmo que outros países encontrem novas reservas minerais, não conseguirão refiná-los sem depender de Pequim.>
A batalha passa também pela formação de profissionais. Enquanto universidades americanas concederam pouco mais de 200 diplomas em engenharia de mineração e metalurgia em 2023, a China conta com centenas de cientistas dedicados exclusivamente a pesquisas em terras raras.>
Financial Times
2026O Brasil surge como um dos poucos trunfos do “Ocidente” nessa corrida. O país possui a segunda maior reserva mundial de terras raras e é lar da Serra Verde, em Goiás.>
Em abril de 2026, a americana USA Rare Earth adquiriu a Serra Verde por US$ 2,8 bilhões, em uma das maiores apostas do mundo ocidental para quebrar o monopólio chinês. >
O objetivo declarado é construir uma cadeia completa: da extração ao superímã final, passando por todas as etapas de separação e processamento que hoje pertencem à China.>
Os desafios, no entanto, são imensos. Construir refinarias, formar mão de obra especializada e criar infraestrutura competitiva são tarefas que levam décadas. Enquanto isso, a trégua entre China e EUA, válida apenas até novembro de 2026, pouco muda essa realidade estrutural. >
A corrida pelas terras raras é longa, e a China leva meio século de vantagem.>