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Expedição científica descobre aranha que brilha em azul neon em área remota na África conhecida como 'Fonte da Vida'

Região de Lisima Lya Mwono é conhecida como "Fonte da Vida" na lingua banta luchazi

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 7 de junho de 2026 às 16:00

Uma aranha-caranguejo-coroada, ainda não descrita, brilha sob luz ultravioleta
Peculiar aranha se tornou "garota-propaganda" do estudo graças à sua aparência única que lembra elementos alienígenas e de kaiju Crédito: Nicky Bay / The Wilderness Project

Uma expedição científica no Planalto de Lisima, em Angola, encontrou dezenas de espécies possivelmente novas, incluindo uma aranha que brilha sob luz ultravioleta. Levantamento em região pouco estudada mostra como a natureza ainda guarda segredos.

Uma aranha que brilha em azul sob luz ultravioleta virou o rosto mais chamativo de uma descoberta maior em Angola. No Planalto de Lisima, cientistas registraram dezenas de espécies possivelmente desconhecidas pela ciência, consolidando a localidade como um dos principais hotspots biológicos do planeta.

Dr. Gimo Daniel posando ao lado de um besouro-da-fruta africano gigante encontrado durante o levantamento por Nicky Bay / The Wilderness Project

O que foi descoberto?

O levantamento foi realizado em fevereiro de 2026 pelo The Wilderness Project, dentro da iniciativa Cassai Life Atlas. A equipe reuniu 16 especialistas africanos e internacionais para mapear a fauna e a flora do Planalto de Lisima.

Entre os principais achados estão oito espécies de libélulas ainda não descritas, três gafanhotos possivelmente novos e cerca de 60 mariposas e borboletas desconhecidas para a ciência.

A libélula-borboleta recebeu esse nome pelo padrão de cores e asas largas que podem fazê-la se camuflar como animais menos apetitosos para predadores
A libélula-borboleta recebeu esse nome pelo padrão de cores e asas largas que podem fazê-la se camuflar como animais menos apetitosos para predadores Crédito: Rob Taylor / The Wilderness Project

Importância de Lisima

O Planalto de Lisima fica em uma área remota de Angola e funciona como uma caixa d’água natural. Suas águas ajudam a alimentar sistemas fluviais que sustentam ecossistemas e comunidades a milhares de quilômetros dali.

O local alimenta nascentes ligadas a alguns dos rios mais importantes da áfrica central: Congo, Okavango, Zambeze e Cuanza
O local alimenta nascentes ligadas a alguns dos rios mais importantes da áfrica central: Congo, Okavango, Zambeze e Cuanza Crédito: Reprodução / YouTube / Ministério do Ambiente - MINAMB

Essa posição torna a região importante não apenas para animais raros. A conservação de Lisima também envolve rios, solos, florestas, agricultura, pesca, clima local e abastecimento de populações que vivem rio abaixo.

Segundo o The Wilderness Project, a região ficou pouco estudada por décadas por causa da guerra civil angolana, da presença de minas terrestres e do difícil acesso
Segundo o The Wilderness Project, a região ficou pouco estudada por décadas por causa da guerra civil angolana, da presença de minas terrestres e do difícil acesso Crédito: MaraJara / Wikimedia Commons

A bióloga angolana Laurinda Mandela de Fraga, em comunicado do projeto, resumiu a importância do trabalho ao dizer que ele reforça “o orgulho e a responsabilidade de proteger esta área única”.

Valorizando os pequenos

Insetos, aranhas, anfíbios e pequenos répteis nem sempre recebem a mesma atenção de mamíferos grandes. No entanto, eles ajudam a revelar a saúde de um ambiente com mais rapidez.

Libélulas e donzelinhas, por exemplo, costumam indicar a qualidade da água. Quando espécies muito especializadas aparecem em uma região, isso sugere um ecossistema com condições ecológicas particulares.

No caso de Lisima, os pesquisadores registraram 103 espécies de libélulas e donzelinhas. Desse total, 34 ainda não haviam sido registradas na área, e seis entraram pela primeira vez na lista nacional de Angola.

O levantamento também encontrou 47 grupos de anfíbios e répteis. Entre eles estavam sapos de áreas úmidas, cobras raras para o país e espécies associadas a pântanos, florestas encharcadas e campos alagáveis.

Espécies sem nome

A descoberta em Angola se encaixa em uma discussão maior sobre o quanto a humanidade ainda desconhece da própria biodiversidade. Um estudo publicado na PLOS Biology estimou que a Terra pode abrigar cerca de 8,7 milhões de espécies eucarióticas.

Espécies eucarióticas são aquelas com estruturas celulares mais complexas, como mamíferos, répteis e plantas
Espécies eucarióticas são aquelas com estruturas celulares mais complexas, como mamíferos, répteis e plantas Crédito: EverestIIII / Wikimedia Commons

O mesmo estudo aponta que aproximadamente 86% das espécies terrestres ainda aguardam descrição formal. Ou seja: muitas formas de vida podem desaparecer antes mesmo de receber um nome científico ou serem conhecidas pela humanidade.

Quais ameaças cercam a região

O Planalto de Lisima não está isolado das pressões econômicas. Pesquisadores apontam riscos ligados à mineração, ao desmatamento, à extração de madeira, à agricultura de corte e queima e à expansão de assentamentos.

Essas atividades podem alterar rios, destruir habitats e fragmentar áreas naturais. O problema cresce quando acontece antes de um mapeamento completo da vida local.

Tags:

Meio Ambiente África Angola Biologia