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Pesquisadores comprovam ligação entre consumo de ultraprocessados na infância com danos cerebrais irreversíveis

Alimentos ricos em gordura e açúcar atuam diretamente sobre reguladores de fome, saciedade e prazer

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 26 de maio de 2026 às 04:04

Alimentação com excesso de calorias pode desregular o hipotálamo de forma duradoura
Alimentação com excesso de calorias pode desregular o hipotálamo de forma duradoura Crédito: Polina Tankilevitch / Pexels

Todos sabemos que a chamada junk food, termo usado para comida ultraprocessada, causa malefícios quando consumida em excesso. Porém, essas consequências podem ser mais duradouras do que alguns quilos na balança, principalmente para o público infantil.

Um estudo publicado na revista Nature Communications mostrou que dietas ricas em gordura e açúcar, quando consumidas em tenra idade, alteraram de forma duradoura regiões cerebrais ligadas ao apetite.

Ultraprocessados por Shutterstock

Programação precoce

Na infância, o corpo ainda está em formação. Isso inclui o cérebro, o intestino e os sistemas que ajudam a regular a fome e a saciedade. A alimentação durante esse período serve como parâmetro de calibração desses sistemas, e o objetivo do estudo era avaliar o dano causado pela junk food.

No estudo, camundongos jovens receberam uma dieta parecida com o padrão ocidental, rica em gordura e açúcar. Depois, voltaram a uma alimentação considerada normal após envelhecerem um pouco.

Mesmo com a alteração da dieta, os indivíduos que se alimentavam de forma precária apresentaram marcadores alterados quando comparados aos que não haviam sido alimentados dessa maneira.

Camundongos tendem a ser utilizados nesse tipo de teste, pois compartilham muitas estruturas e processos biológicos semelhantes aos dos humanos
Camundongos tendem a ser utilizados nesse tipo de teste, pois compartilham muitas estruturas e processos biológicos semelhantes aos dos humanos Crédito: Alexas Fotos / Pexels

As principais alterações apareceram no hipotálamo, área do cérebro que participa do controle do apetite e do equilíbrio de energia. É uma região que ajuda o corpo a entender quando precisa comer e quando já está satisfeito.

“Nossas descobertas mostram que o que comemos no início da vida realmente importa”

Cristina Cuesta-Martí

primeira autora do estudo, no material divulgado pela University College Cork.

Caminho de recuperação

No entanto, o estudo não trouxe apenas notícias ruins; ele apontou algumas possibilidades de solução. Dentre as principais, estavam o uso de uma bactéria benéfica, a Bifidobacterium longum APC1472, e uma combinação de fibras prebióticas.

Os pesquisadores observaram que os animais tratados apresentaram melhora em sinais ligados à regulação da fome e ao metabolismo. A hipótese é que a bactéria ajudou a restaurar parte do equilíbrio da microbiota intestinal, afetada pela dieta ultraprocessada.

Já as fibras prebióticas funcionam de outra forma: elas servem como “alimento” para os microrganismos benéficos do intestino. Quando fermentadas, produzem compostos chamados ácidos graxos, associados à redução da inflamação e à melhora da comunicação entre intestino e cérebro.

Os prebióticos aparecem em alimentos como banana, alho, cebola, alho-poró e aspargo, além de alguns produtos fortificados
Os prebióticos aparecem em alimentos como banana, alho, cebola, alho-poró e aspargo, além de alguns produtos fortificados Crédito: Andrew Gaertner / Pexels

“Apoiar a microbiota intestinal desde o nascimento ajuda a manter comportamentos alimentares mais saudáveis ao longo da vida”

Harriet Schellekens

Pesquisadora principal do estudo

Ou seja, consumo de alimentos ricos em pré e probióticos auxilia na manutenção de uma microbiota saudável. Com uma flora intestinal funcional, os micro-organismos que dela fazem parte auxiliam a regular os marcadores alterados derivados dos "danos" no hipotálamo.

Bibliografia complementar

Uma pesquisa publicada no The BMJ também associou o consumo materno de ultraprocessados durante a criação dos filhos a maior risco de sobrepeso ou obesidade nas crianças.

O estudo acompanhou dados de quase 20 mil crianças e apontou uma relação entre maior consumo desses produtos pelas mães e risco mais alto de excesso de peso nos filhos. A pesquisa é observacional e, portanto, não prova causa direta.

Tags:

Saúde Infância Ultraprocessados Alimentação Ciência