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Laura Fernades
Publicado em 1 de março de 2019 às 14:15
- Atualizado há 2 anos
Ilustrar que depois da tormenta vem a calmaria é fácil: basta pensar no Campo Grande no primeiro dia de Carnaval. No início, a quebradeira de Léo Santana e do Psirico arrastaram a multidão, logo depois veio a tranquilidade dos blocos de samba que transformaram o Circuito Osmar em um lugar para todas as idades. Crianças fantasiadas, adultos e idosos entraram em cena para mostrar que quem não gosta de samba, bom sujeito não é.>
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E se alguém ousar dizer que só não vai para o Campo Grande quem “é ruim da cabeça, ou doente do pé”, vai precisar rever seus conceitos, porque não faltou gente de muleta desfilando jogo de cintura. O pé torcido, e amparado pelo instrumento, não impediu a técnica em enfermagem Elisabete Norberto, 48 anos, de manter sua tradição: há 15 anos ininterruptos ela sai no bloco Alerta Geral.>
“É a alegria que me move. Pena que não posso sambar”, riu Elisabete, enquanto apontava para a perna imobilizada. A cena foi vista de longe por um vendedor de cerveja, que gritou: “Ê, minha tia, isso que é não deixar o samba morrer!”. Elisabete e a irmã, a cozinheira Marta Norberto, 42, caíram na risada. “Não podemos deixar o samba morrer mesmo! Afinal, a gente não pode esquecer que tudo começou com o samba da Bahia, né?”, justificou Marta, sorridente.>
O joelho de Mãe Neinha, 68 anos, também estava doendo, mas isso não representou qualquer problema para a foliã que acompanha o samba do Campo Grande há pelo menos 25 anos. “E esse ano eu venho em todos os dias de Carnaval”, garantiu, convicta. Ao lado da amiga e do sobrinho, a mãe de santo disse que “o amor ao samba” é o que a faz sair de casa e enfrentar o Carnaval, mesmo com todas as limitações.>
“Estou com um cisto na perna, mas você acha que vou ficar pensando que estou doente? Se morrer, morreu. Tem que aproveitar”, justificou rindo. Amiga de Neinha, a educadora Eliete Silva, 61 anos, concordou e disse que “o samba representa o prazer”. “Aquele prazer que faz você mexer com tudo, sabe?”, perguntou, com as mãos na cintura e mostrando o molejo do corpo.>
DNA baiano Mais adiante e vestida de mulher-maravilha, a pequena Sofia, 5 anos, também desfilou samba no pé. Depois que o cantor Léo Santana passou pelo circuito, a garotinha não perdeu tempo e mostrou seu jogo de cintura quando blocos como Alerta Geral, Pagode Total e Amor e Paixão tomaram conta do Campo Grande. “Todos os anos a gente vem, já é tradição na família há 20 anos”, contou a mãe de Sofia, a educadora Roselene dos Santos, 35.>
Observando a filha orgulhosa, Roselene disse que desde pequena acompanhava o samba no Campo Grande, quando sua mãe ia trabalhar vendendo cachorro-quente e ela ficava observando de longe. A matriarca não gostava muito daquele burburinho, mas a filha acabou tomando gosto pela folia. “O samba representa a cultura baiana, a cultura negra. É encantador”, justifica.>
Bastava observar os desfiles, para entender o elogio de Roselene. Enquanto o Alerta Geral roubava a cena com seu tapete branco formado pelo chapéu de cada um dos foliões, o bloco da Capoeira, de Tonho Matéria, impressionava pelo colorido das alas de percussão, dança e capoeira. Foliã do bloco desde o início, há 13 anos, a professora de capoeira Érica Torres, 42, fez um bom resumo do cortejo: “Tonho Matéria agrega vários elementos da cultura afro: a capoeira, a dança, o samba... É como uma escola de samba da Bahia”.>