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Apenas ficção? Hagamenon Brito lança livro digital pelo Correio Cultura

Afetos, música, religião, drogas e muita cultura pop permeiam os 40 textos do e-book 'E Isso É Apenas Pulp Fiction, Homeboy'

  • Foto do(a) author(a) Laura Fernades
  • Laura Fernades

Publicado em 9 de setembro de 2015 às 08:37

 - Atualizado há 3 anos

Há quase dez anos, o crítico de música e editor de cultura do Jornal CORREIO, Hagamenon Brito, 56 anos, recebeu uma carta de um dos seus leitores (sim, ainda  mandavam-se cartas). O tom, furioso, dizia: “Como pagam para você, em um jornal sério como esse, para incentivar drogas, homossexualismo, assassinato?”

Surpreendido com a confusão do leitor, o colunista se viu obrigado a responder: “Isso é apenas pulp fiction, cara”, em referência direta ao subgênero da literatura ficcional americana. Só que não foi apenas aquele leitor que confundiu sua coluna - que um dia se chamou Parabólica  -  com um espaço de apologia ao que quer que fosse.Editor de cultura e crítico musical, Hagamenon Brito lança livro digital de crônicas e contos(Foto: Sora Maia)Então, a resposta virou uma marca. Para não restar dúvida, o jornalista passou a encerrar todos os textos de crônicas e contos, ou cronicontos como define, com a frase “E isso é apenas pulp fiction, homeboy”. O “homeboy”, termo do hip hop que remete ao “brother”, veio para arrematar.

“Eles estavam acreditando naquilo”, diverte-se Hagamenon, que reuniu parte da produção feita nos últimos 17 anos, a maioria no CORREIO, no livro cujo nome não poderia ser mais sugestivo: E Isso É Apenas Pulp Fiction, Homeboy (R$ 9,99/130 páginas).

O e-book (livro digital) tem lançamento hoje pelo Correio Cultura, selo editorial do CORREIO que surgiu com a Coleção As Sete Portas da Bahia, de Carybé (1911-1997), e lançou Irmã Dulce: Os Milagres Pela Fé, do jornalista Jorge Gauthier.Para escrever pulp fiction na primeira pessoa e fazer confissões que chamo de neoexistenciais, não tem que ter pudor em se mostrar“É mais uma publicação a dar continuidade ao objetivo de disseminar a cultura produzida na Bahia. O digital é um modelo de consumo de conteúdo literário que cresce no mundo e a gente vem estimulando também”, diz o gerente de mídias e negócios digitais do CORREIO, Fábio Gois.

Ao todo, 40 cronicontos compõem o livro de Hagamenon, que pode ser adquirido no site www.correio24horas.com.br/ebooks e tem edição impressa prevista para o Verão.

Misto de crônicas, contos e impressões neoexistenciais, os textos partem do subgênero literário nascido no início do século 20, que inspirou o filme Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino. Mas, que o leitor não se iluda: tem, sim, boa dose de realidade nessa história. “O que é verdade e o que é ficção?”, provoca a repórter. “Ah, essa é a graça!”, ri Hagamenon.

ConfessionalEscrito em tom confessional na primeira pessoa, o livro reúne personagens que vão desde uma   mãe que fumou baseado com o filho adolescente, até pais amorosos, baladeiros, solitários, assassinos, homossexuais, bissexuais e consumidores de drogas, em contextos cheios de rock e cultura pop.

Tudo com olhar poético e estradeiro, movido pelas vivências do autor por diferentes estados onde morou. Transgressão é uma constante no livro e a religião ganha um tom provocativo, irônico.

“Pode haver um Deus nos vigiando. É o que aumenta os meus tormentos. Isso porque Deus é ardiloso”, diz um trecho do texto Lembra-te de Mim, Senhor, Lembra-te.

“Deus era um personagem dentro da minha casa. Eu tinha uma mãe muito doente e religiosa”, conta Hagamenon, que teve uma formação batista e, até os 13 anos, frequentou a igreja. Curioso é que, a partir dos hinos batistas, veio o interesse pela black music por parte do jornalista, que hoje produz e apresenta os programas Black Soul e Sangue Novo, na rádio Globo FM.

AgridoceO amor paterno também não escapa aos cronicontos. Assim, sentimentos como o  carinho e o “sentir-se responsável por” aparecem seja na hora de falar do próprio pai - um sujeito “difícil”, “esquisito”, “carinhoso” e “agridoce” -, ou dos seus gatos e dos sobrinhos Bebel e Ricco.O americano Sam Shepard é uma das referências do jornalista. Além da escrita fragmentada, se aproximam na forma como falam dos pais, com distanciamento e afeto (Foto: Divulgação)Coincidência ou não, a primeira das felinas de Hagamenon, Britney Fofucha, completa 12 anos hoje. “Foi presente de uma das pessoas mais importantes da minha vida” revela, referindo-se à sobrinha e afilhada Isabella Veiga, 17, a Bebel. “São simbolismos que saltam da realidade e inspiram a ficção. Temos uma relação de pai e filha, amor incondicional”, reforça.

Para falar do falecido pai, um senhor quase analfabeto de Itapetinga (a 562 km de Salvador), onde Hagamenon nasceu, ele recorre ao estilo literário do americano Sam Shepard. Além da escrita fragmentada, há a aproximação na forma como falam dos pais, com distanciamento e afeto.

“Meu pai era mais carinhoso comigo do que minha mãe. Quem mais me beijou na vida foi ele, não minha mãe. Era um senhor duro, mas tinha carinho”, revela o jornalista. Ele ressalta que, com o tom agridoce, é possível escrever sobre tudo de forma “nem melosa sentimentalmente, nem muito ácida”.

Papel BaratoVivências pessoais, literatura pop, cinema e música inspiraram Hagamenon, que escreve às terças no CORREIO. Da literatura pulp fiction veio a ideia, já que foi criada dentro das redações de jornais ou revistas de papel barato.

“É a ideia do consumo imediato, de algo que no dia seguinte vai enrolar peixe”, diz, sobre o cruel destino de todo jornal. Outra influência vem do cantor e guitarrista americano Bruce Springsteen.O cantor americano Bruce Springsteen serviu de inspiração musical. Suas canções escritas em primeira pessoa, sobre gente comum, também inspiraram (Foto: Divulgação)Além de servir de inspiração musical para “viajar em alguma coisa” e entregar o texto dentro do prazo curto da redação, Springsteen escreve muitas canções em primeira pessoa e fala sobre gente comum. “O leitor pode odiar ou gostar daquilo que está escrito, mas tem empatia direta. Tenta se colocar no que o narrador está falando”, destaca Hagamenon.

Do escritor americano William S. Burroughs (1947- 1981) vem a inspiração para retratar as drogas como portas para a percepção, experiência dionisíaca. Já do escritor naturalizado americano Christopher Isherwood (1904- 1986) vem a admiração pela forma com a qual falava de personagens e sentimentos com sutileza e elegância.

Assim, o livro de estreia de Hagamenon vai costurando realidade e ficção, não necessariamente ligadas à música, uma das áreas de destaque da carreira do crítico musical que criou o termo axé music. “Não tenho interesse em lançar um livro contando a história da axé music. Acho que ficaria uma coisa descritiva e eu não sentiria tesão”, diz, taxativo.

Então revela o interesse em narrar papos de bastidor que teve com artistas como Cássia Eller (1962-2001), Cazuza (1958-1990) e Renato Russo (1960-1996). Enquanto isso, expõe sua literatura, sem medo. “Para escrever pulp fiction na primeira pessoa e fazer confissões que chamo de neoexistenciais, não tem que ter pudor em se mostrar porque, na verdade, você está rindo de você, um pouco”. Então, completa: “Isso é apenas ficção. Não acredita não! Ou acredita...”.