Caso Daniel: delegado diz que família mente e não há sinal de estupro

brasil
06.11.2018, 12:39:00
Atualizado: 07.11.2018, 13:41:25
Jogador conheceu a família Brittes quando defendia o Coritiba (Foto: Divulgação)

Caso Daniel: delegado diz que família mente e não há sinal de estupro

Ele classificou de 'brincadeira infeliz' foto tirada pelo atleta com a mulher

O delegado Amadeu Trevisan acredita que Cristiana Brittes e a filha, Allana, mentiram em depoimento à polícia sobre a morte do jogador Daniel Côrrea, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. As duas e Edison Brittes, marido de Cristiana e pai de Allana, serão indiciados por homicídio qualificado e coação de testemunhas.

Trevisan afirmou que as duas combinaram a versão dada em depoimento com Edison, que já confessou a morte do jogador. "Eles estão mentindo", disse o delegado ao G1 nesta terça-feira (6). O corpo do atleta foi encontrado em um matagal no dia 27 de outubro, com sinais de espancamento, pescoço quase degolado e pênis decepado.

Cristiana e Allana foram ouvidas ontem pelo delegado. Edison, que confessou o crime em vídeo, ainda será ouvido. Outros três suspeitos que estavam no carro em que Daniel foi levado até o matagal também já foram identificados e prestarão depoimentos nesta quinta. 

(Foto: Reprodução)

Edison alega que agiu tomado pela emoção ao ver Daniel tentando estuprar Cristiana. Para o delegado, não há nenhuma prova de que isso ocorreu e o jogador teria feito apenas uma "brincadeira infeliz" mandando fotos ao lado da mulher para amigos. "Já conseguimos reconstruir tudo que aconteceu na casa no dia do assassinato. Vamos ouvir mais algumas testemunhas hoje e teremos o depoimento do Edison amanhã", explica. "Confrontando as mensagens que Daniel trocou com amigos e os depoimentos, parece que Daniel só fez uma brincadeira infeliz, mas não há indícios de tentativa de estupro", diz.

Para o delegado, a versão da defesa de que Edison agiu tomado por "violenta emoção" não se sustenta, já que o desenrolar do crime foi longo e daria tempo para o "calor do momento" diminuir. "Temos que observar o lapso temporal (do crime)", diz. "Edison teve tempo de espancar a vítima, de pegar uma faca, colocar a vítima no porta-malas e se deslocar até o local do crime. Não houve violenta emoção", acredita, e questiona: "E outra: violenta emoção dele, o marido – (mas) e os demais que participaram? Participaram a título de quê? Levados a violenta emoção também? A violenta emoção não se transmite, é apenas do marido. Os demais participaram para que o resultado ocorresse". 

O delegado também destacou que o meia não tinha nenhuma condição de se defender pois tinha bebido muito.  "Recebemos um laudo só até agora, que é o de dosagem alcoólica do corpo da vítima. Percebe-se que o Daniel estava bastante embriagado. Ele estava com 13,4 dg/l de álcool no sangue", afirmou, salientando ainda que ele foi atacado por quatro homens. "Pode-se colocar uma qualificadora. A vítima estava completamente indefesa, com 13,4 dg/l de álcool no sangue. E também foram quatro pessoas que dominaram a vítima: o David, o Eduardo, o Igor e mais o Edison".

Além do homicídio, os suspeitos responderão por coagirem testemunhas. O delegado explicou. "Houve a coação de testemunhas em um shopping. Eles foram na segunda-feira, quando coagiram a testemunha", diz. "Cristiana, Allana e Edison se reuniram com a testemunha em um shopping, onde o Edison pede para que eles fechem uma história só. Eles queriam tirar algumas pessoas que estavam na casa do rol de testemunhas. O Edison é muito claro, e ele alerta, adverte, ameaça a testemunha que não poderia romper aquele elo", acrescentou.

A versão combinada era de que Daniel teria visto o portão da casa aberto de manhã e ido embora com destino ignorado. "Ele (Edison) manteve essa história de que eram amigos, que havia saído pelo portão, até o momento de que a Polícia não sabia que eram os autores. Ele mudou a versão dele. Enquanto só tinha um cadáver no chão. Depois de levantada essa testemunha, mudou essa versão para uma violenta emoção", diz Trevisan. "Eles (família) começaram mentindo, inventando uma história. Logo após descoberta a autoria, eles mudaram a versão. A família tentou modificar toda a primeira história em uma fraude processual inconteste, em uma coação de testemunhas. Iremos mostrar isso após a oitiva das testemunhas agora no período da tarde".

Daniel deixou a casa ainda com vida, de acordo com os depoimentos colhidos - inclusive da própria Allana, que afirmou que ele estava se mexendo. "Logo, obviamente, estava vivo. Ele se mexia, mas não falava mais nada".

Ele afirmou que a Polícia Civil não descarta um crime premeditado e que Allana mantinha contato com familiares de Daniel mesmo antes da morte do jogador. "Nós temos que observar o lapso temporal, porque houve muito tempo para que esse crime fosse evitado", diz, sem mais detalhes. O celular de Daniel não foi localizado. "Segundo informações, ele (Edison) teria queimado celular e roupas. Essa será uma das perguntas que vamos fazer ao Edison".

Depoimento da família
Na segunda, Cristiana e Allana foram ouvidas pela polícia, dando versões que confirmam a de Edison - de que o crime ocorreu após ele flagrar Daniel tentando estuprar a esposa. Essa versão é repudiada pela família da vítima.

Cristiana foi ouvida por uma hora e meia. Ela contou que foi dormir ao chegar da boate e acordou com Daniel deitado em cima dela. Ela contou que começou a gritar, muito assustada. Segundo ela, Daniel estava "apenas de cueca", "excitado" e passando a mão por ela. Ele dizia: "Calma, é o Daniel".

O marido então entrou no quarto e começou a agredir o jogador ainda ali. Ela afirmou que pediu para que ele parasse de bater em Daniel várias vezes.

Allana contou em seu depoimento que entrou no quarto com a gritaria e viu o jogador só de cueca, com o pai o segurando pelo pescoço. O pai afirmava que encontrou o atleta "na cama que ele dorme com a mulher, mãe das filhas dele". Daniel tentava falar, mas não conseguia. 

Cronologia do crime
Sexta (26): 
Daniel chega a Curitiba. Ele vai a duas festas, inclusive o aniversário de Allana em boate
Sábado (27): A festa continua na casa da família de Allana, em São José. O crime aconteceu este dia.
O corpo foi achado neste mesmo dia em um matagal.
Segunda (29): Amigo reocnhece o corpo de Daniel
Quarta (31): Corpo de Daniel foi velado em Minas Gerais
Quinta (1): Suspeito de matar Daniel é preso e confessa crime. Mulher e filha também foram presas
Sexta (2): Perícia é feita na casa onde Daniel foi espancado

(Foto: Reprodução)

Linha do tempo (com informações da TV Globo)
21h30: Daniel chegou a Curitiba na sexta à noite, por volta das 21h30. Ele deixou as malas na casa de um amigo, com quem iria se hospedar, e saiu depois de um banho para uma festa, a primeira da noite.

00h: Por volta de meia-noite, ele e o amigo seguiram para o aniversário de Allana, em uma boate da cidade. Eles tinham convites para a festa, entregues pelo próprio pai da aniversariante.

05h40: O amigo de Daniel vai embora da boate. O jogador prefere ficar e diz que vai seguir para a casa de Allana, na Região Metropolitana, onde a festa seguiria

06h36: Daniel avisa ao amigo por mensagem que já estava na casa de Allana. Uma testemunha  contou à polícia que os convidados estavam ouvindo música e bebendo. Cristiana, que segundo a família não estava bem, foi a primeira a ir deitar. Outras pessoas também se recolheram. Ficaram na festa Daniel, Edison e outras oito pessoas

08h07: Daniel começou uma conversa com outro amigo. Ele contou que estava em uma festa, com várias pessoas dormindo. Por áudio, ele respondeu ao amigo, que perguntou se estava bêbado, e disse que "não muito". Ele falou também que tinha uma "coroa" na casa, que era a mãe da aniversariante, e que faria sexo com ela. Afirmou ainda que o pai estava junto. O amigo diz para ele se cuidar e que poderia ser expulso da casa. Daniel mandou uma foto ao lado de Cristiana, que aparenta estar dormindo. O amigo quer saber se ele fará sexo com ela acordada ou dormindo

Uma das fotos que Daniel mandou (Foto: Reprodução)

08h34: Daniel manda uma nova foto ao lado de Cristiana para o amigo e diz que fez sexo com ela. Depois, ele manda a seguinte mensagem, a última: "O que aparecer amanhã é nóis". O amigo quer saber o que isso quer dizer, mas Daniel não responde mais. Posteriormente, o amigo disse à polícia que ele, Daniel e outros dois colegas tinham um grupo de WhatsApp onde mandavam fotos das "conquistas" amorosas, geralmente quando a mulher estava dormindo

10h30: Corpo do jogador é encontrado, ainda sem identificação, em um matagal, com mutilações, marcas de faca e sinais de tortura. 

À noite: O amigo que hospedou Daniel fica preocupado porque ele não deu mais notícias e eles tinham um compromisso. Ele manda mensagem para Allana, que afirma que o jogador foi embora sozinho da casa dela. Este amigo foi quem reconheceu o corpo do jogador, dois dias depois.

(Foto: Reprodução)

Dúvidas que ainda existem
A polícia ainda investiga várias questões que provocaram dúvidas nos depoimentos dos acusados e das testemunhas. Veja os principais pontos de contradições:

Pijama
Edison, em entrevista, contou que ajudou a mulher a trocar de roupa e se arrumar para dormir depois da festa. Contudo, nas fotos tiradas por Daniel e enviadas ao amigo, a mulher aparece com a mesma roupa e colar que usou na boate - há fotos dela no aniversário da filha.

Porta arrombada
O empresário contou também que arrombou a porta, que estava trancada, quando a esposa gritou por socorro. Já Allana diz em vídeo gravado pela própria defesa que ela abriu a porta e flagrou Daniel em cima da mãe.

Arma do crime
Segundo Edison, ele usou uma faca que guardava no carro para matar e mutilar Daniel. Mas uma testemunha que presenciou o início das agressões na casa da família contou que ouviu outra pessoa gritar, na confusão, que Edison tinha pegado uma faca. O empresário negou ter armas em casa, mas tem dois Boletins de Ocorrência contra ele só neste ano envolvendo arma de fogo. Em janeiro, a polícia foi chamada após relatos de disparos na casa do empresário. 

Amizade
No vídeo gravado pela defesa, Allana diz que conhecia Daniel pouco. A família do jogador afirma que eles se conheceram quando Daniel estava no Coritiba, em 2017. Nas redes sociais, ele seguia todos os três Brittes e uma foto tirada na festa de 17 anos de Allana, há um ano, mostra o jogador ao lado da jovem.

Daniel e Allana, no aniversário do ano passado (Foto: Reprodução)

Pedido de socorro
Edison também afirmou na sua versão que ouviu a mulher gritar do quarto e foi correndo até lá, quando encontrou Daniel sobre ela. Uma versão de uma testemunha, contudo, afirma que Edison estava do lado de fora da casa e perguntou aos presentes onde estava o jogador. Os gritos só teriam começado depois que o empresário foi para dentro da casa atrás do atleta

Empresário já tinha ficha policial
Assassino confesso do jogador Daniel Côrrea, Edison Luiz Brittes Júnior, 37 anos, já teve envolvimento em outros crimes - todos menos escabrosos do que a morte do atleta, cujo corpo foi achado com sinais de espancamento e facadas, além do pênis decepado, na Região Metropolitana de Curitiba. Conhecido como Juninho, o empresário já foi denunciado em 2015 pelo Ministério Público por receptação dolosa de produto roubado, além de porte ilegal de arma e injúria. 

Segundo reportagem do Uol, a denúncia contra o empresário no caso da receptação foi assinada em junho deste ano pela promotora Mônica Baggio. Na ocasião do crime, ele foi conduzido à delegacia pela posse de um Hyundai Sonata que segundo a polícia ele sabia ter sido roubado. O chassi do carro estava alterado. O veículo tinha sido roubado no ano anterior em Porto Alegre. O advogado de Juninho, Cláudio Dalledone Junior, afirma que o cliente não sabia que o carro era roubado. 

O defensor também falou do caso de porte ilegal de arma. "Ele é atirador desportivo e tem o certificado de registro emitido pelo exército brasileiro", diz. Segundo ele, o empresário é dono de uma pistola Glock 380 e tem documento para andar armado "de sua casa ao estande de tiro". Ele acabou sendo absolvido do caso, em 2016.

Já o caso de injúria, registrado em fevereiro de 2018, o advogado não soube identificar o que teria ocorrido, mas afirmou que se trata de um crime "de menor potencial ofensivo". "Ele não tem histórico criminal, nunca foi preso, não tem nenhuma condenação", afirma.

O empresário é conhecido em São José dos Pinhais, nas imediações de Curitiba, como Juninho Riqueza. A casa da família, onde aconteceu a festa após a celebração do aniversário de Allana, filha dele, aparece no Google Maps como um bar com o nome de "Juninho Riqueza House". Foi nesta casa que Daniel começou a ser espancado. 

Juninho é fã de joias e carros esportivos - foi na mala de um Veloster que ele colocou o jogador depois das agressões iniciais. O empresário é dono de uma empresa de laticínios de Curitiba. 

Defesa da mulher
Em um vídeo gravado antes de ser preso, o empresário afirma que cometeu o crime para defender a esposa, Cristiana, que estaria sofrendo uma tentativa de estupro por parte de Daniel. O casal e a filha Allana estão presos pelo crime.

"Se eu fiz o que eu fiz, eu quero que cada um que está assistindo pense o que você faria para manter a integridade moral da sua família e ajudar uma mulher pequena e frágil", afirma Juninho no vídeo. "Eu tirei ele de cima da minha esposa, joguei ele no chão e evitei que ela fosse estuprada por esse monstro canalha."

(Foto: SPFC.Net)

Existem contradições na versão da família, contudo. O próprio Juninho telefou para a mãe de Daniel três dias após o crime para prestar solidariedade. Já Allana afirmou a amigos e parentes de Daniel que o jogador tinha deixado sua casa sem problemas. Uma testemunha que estava na festa na casa da família contou que foi ameaçada pelo empresário para inventar uma versão que o ajudasse a ser inocentado. Ela afirmou ter ouvido, durante o espancamento de Daniel, a frase "Mexeu com mulher de bandido vai morrer". A testemunha está em programa de proteção.

Prints
Mensagens de WhatsApp anexadas ao processo mostram que Daniel comentou a noite da festa com um amigo. Ele contou que tinha seguido da boate para a casa para continuar a comemoração com Allana e os demais. Depois, mandou outra mensagem dizendo que iria "comer a mãe da aniversariante" e que "o pai está junto". Dezessete minutos depois, ele fala novamente com o amigo. "Comi ela, moleque", diz, enviando uma foto ao lado da mulher, que aparenta estar dormindo - pelo menos duas fotos foram enviadas.

Uma testemunha contou que ouviu gritos de mulher vindo de um quarto, pedindo para que ajudassem a "evitar uma tragédia". Ao chegar lá, já encontrou Daniel sendo enforcado e agredido por Juninho.

Também há prints de conversas de Allana com um amigo em comum que tinha com a Daniel e com a mãe e a tia dele - todos diálogos depois do crime e com informações diferentes. A suspeita diz nas conversas que não teve briga em sua casa e que Daniel saiu tranquilamente. Na segunda, dois dias após o crime, a tia pergunta sobre o jovem e Allana diz que ele saiu por volta de 8h e pouco. A tia quer saber se houve alguma desavença. "Claro que não, imagina. Era a minha casa. Ele só levantou e foi embora", responde a jovem. 

Em outra conversa, esta ainda no sábado, logo após o crime, Allana dá outra versão. O corpo de Daniel ainda não tinha sido achado e ele era considerado desaparecido. O amigo em comum quer saber se Daniel está na casa dela ainda.  "Oi, bebê, não nem vi a hora que ele foi embora", garante a jovem. O amigo pede que ela procure saber com quem ele saiu e, se tiver sido com alguma menina, mandar o número de telefone para que ele tente achar Daniel.  "Então, a menina com quem ele ficou tá aqui. Acordei e ela tava de PT no sofá", responde Allana. "Certeza que já aparece, deve estar com alguma gata", acrescenta, tentando tranquilizar.

Mesmo tom Allana adotou com a mãe de Daniel, já quando o corpo do jogador aguardava para ser identificado. “Se Deus quiser, não vai ser ele. Vamos ter fé. Vai dar tudo certo”. Em seguida, a mãe do rapaz manda um áudio dizendo que Daniel está morto. Allana se diz surpresa. Na segunda-feira (29), pede informações sobre o velório.

A jovem ainda afirma em outra conversa que sua festa de aniversário foi "perfeita". "Ficamos muito doidos, ressaca brava hoje. Era bebida que não acabava mais", disse. "Eu amei tudo, perfeito. Todo mundo amou, graças a Deus." 

Depois que a história veio à tona, Allana endossou o pai e afirmou que viu Daniel tentando estuprar sua mãe. "Descemos e, na hora que abrimos a porta, ele estava em cima da minha mãe tentando estuprar ela. Todo o mundo começou a querer fazer alguma coisa contra ele, porque minha mãe gritava, e ele não falava nada", diz. O advogado da família afirma que o jeito que Allana agiu, contando várias versões para acobertar o crime, é natural. "Um ato impensado e desesperado de uma filha tentando proteger o pai". Allana também chegou a dizer inicialmente que mal conhecia Daniel e que ele teria seguido da boate para sua casa sem ser convidado. Nas redes sociais, contudo, há uma foto dos dois juntos no aniversário dela do ano passado.

A família de Daniel contratou um advogado para representar seus interesses no caso e tentar afastar a acusação do assassino confesso de que o jogador tentou estuprar sua mulher. A polícia ainda investiga a versão e afirma que até o momento não há confirmação sequer se houve sexo, ainda que consensual, entre Daniel e Cristiana.

Veja os vídeos que Edison e Allana gravaram antes da prisão:


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