Menelaw Sete: “Todo o dia é dia de branco, dia de índio e dia de negro”

Somos
17.11.2013, 08:53:00
Atualizado: 17.11.2013, 17:24:53

Menelaw Sete: “Todo o dia é dia de branco, dia de índio e dia de negro”

Artista está completando 25 anos de carreira e revela que a pintura mudou o seu destino

Taiane Nazaré e Tainara Ferreira

Gotas de tinta pelo chão, uma paleta de tintas adaptada sobre a mesa com pincéis espalhados, dão à cara de um artista multicolorido. A galeria de Menelaw Sete revela muito de sua personalidade.Quando a equipe de reportagem chegou ao atelier de Menelaw, no Pelourinho, ele estava sem camisa, melado de tinta, criando em uma tela branca.

Avisado da entrevista e das fotos, ele prontamente foi buscar suas roupas que o fazem ser o que é: um artista de talento. Feitos por ele vestiu o paletó trabalhado com os seus traços e cores fortes e a sua calça combinando com a indumentária. Sentou-se na poltrona vintage e em meio às pinturas começou a contar um pouco da sua história.


O espaço da sua galeria revela um pouco do estilo artístico de Menelaw 

Menelaw é filho de Dona Helena, 76, que trabalhava como governanta na casa de uma família nobre em Salvador e nas horas vagas lavava roupas em troca de livros para presentear os filhos. Segundo ele, essa motivação foi crucial para uma boa educação, "eu sempre gostei muito do gênero literário, mas também gostava de ler Fernando Pessoa e Machado de Assis. Foi esse mundo da leitura que eu comecei a fantasiar.

Quando criança, Anselmo foi morar próximo a minha casa, em Pirajá, ele era poeta e me ensinou a recitar poesia. Depois um cara que fazia violão, um escritor, tarólogo, cantor e eu só andava no meio dessa galera", conta o pintor que cresceu próximo a essa diversidade artística.Ainda criança, ele começa a mostrar desenhos e esculturas que apontavam para um futuro próximo e, nesse mesmo período, ganhou os primeiros pincéis dados por seu mestre, Almiro Borges. Aos dezoito, foi morar no Rio de Janeiro quando ingressou na Marinha do Brasil.

Três anos depois, a caminho de fazer a prova para a patente de cabo da marinha percebeu que a vida militar não era o seu objetivo. Voltou para Salvador e começou a pintar. Na década de 90, conhece o pintor Sérgio Fontes e montou a sua primeira exposição coletiva. Se declarando como artista passa a produzir no seu primeiro atelier no Hotel Pelourinho.

Acima Homenagem a Oscar Niemeyer em 2006, à esquerda Exposição Subaquática em 2003 e à direita Exposição aérea 'Asas da Imaginação', em 2005    

Do Pelourinho para o mundo
Jorge do Nascimento Ramos, conhecido como Menelaw Sete, já levou suas obras para exposições na Alemanha, Suíça, França, Holanda, Bélgica e recentemente foi homenageado na Itália pelos seus 25 anos de carreira.

Menelaw Sette criou seu nome artístico a partir de uma visão, “em um momento ímpar de minha vida sentia necessidade de mudança e renovação. Caminhando no Rio Vermelho, próximo a estátua do Mestre Didi, comecei a refletir, foi quando surgiu o nome Menlaw Sete, nome que eu me identifiquei e abracei”, disse. O artista mantém uma forte ligação com projetos para incentivo aos jovens que moram na periferia de Salvador, “o modelo de educação no Brasil para a classe pobre é restrita e por isso que a criminalidade está em alta e nós artistas é que temos a voz da palavra. Por isso que ao realizar minhas oficinas e palestras percebo que as pessoas precisam de projetos como esse para seguirem pelos melhores caminhos”, afirmou.

Pintura afro com traços de Brasil
Salvador tem um total de 743,7 mil negros, se tornando a cidade com maior número de afro-descendentes do País, segundo o Mapa da População Preta & Parda no Brasil indicado no Censo de 2010. A cultura afro-brasileira é uma das fortes características das obras de Menelaw.


O artista multicolorido têm a sua galeria desde o começo da carreira no Pelourinho

Nas suas pinturas, podemos observar traços de denúncias sociais que todos nós conhecemos, seja um menino fazendo malabares no sinal, crianças pedindo esmola ou um bêbado caído na rua. O artista plástico diz que a partir do momento em que trabalha no Pelourinho, onde está concentrado um grande número de pessoas negras é natural se basear e retratar a cultura negra nos seus quadros.

“Todo o dia é dia de branco, dia de índio e dia de negro”, essa é a definição do 20 de novembro para Menelaw, que tem a data como um momento de reflexão do que é ser negro. Para ele é de grande importância que a sociedade não só comemore, mas busque na história o que perdemos, ganhamos e o que devemos conquistar. O artista disse também não acreditar nos movimentos afros, “esses movimentos não sei se estão trabalhando da maneira que tem que trabalhar”, contou.


Menelaw além de pintor, aprendeu a tocar violão e a costurar. Todas as suas roupas são confeccionadas por ele

25 anos de arte
Menelaw já totaliza mais de 40 mostras internacionais. Alguns de seus trabalhos estão expostos no Consulado Brasileiro, que fica em Atlanta - Estados Unidos, no Museu de Antropologia de Frankfurt, na Alemanha, na Casa das Américas, em Bruxelas. Fez exposições no fundo do mar e aérea. Já foi elogiado pelo arquiteto Oscar Niemeyer que disse o quanto gostava de seu trabalho.

Já recebeu prêmios na Europa, Itália, Argentina. Foi tema de documentário na Bahia. E durante as mais de duas décadas de arte se diz completo, “eu pinto todos os dias e durante esses 25 anos de carreira se eu ficar contando cada realização profissional da minha vida profissional ficaremos aqui uma vida. Mas posso dizer que me sinto feliz e realizado”, disse. Em comemoração, o artista plástico levou a exposição “Menelaw Sete 25 Anos de Arte”, na Itália e no Hotel Pestana Convento do Carmo, Salvador, recebendo honrarias durante os eventos.

Barrado na Espanha
Durante os 15 anos de viagens constates à Europa nada semelhante tinha acontecido. Mas no ano passado, Menelaw foi impedido de continuar sua viagem para realizar exposições na Itália e Suíça, pelo setor de imigração do aeroporto Bajaras, em Madri, Espanha. Segundo as autoridades espanholas, o artista deixou de apresentar o carimbo da polícia italiana na carta-convite apresentada por ele à imigração, que foi assinado pelo seu empresário na Itália, EzioDellapiazza. Segundo o artista, houve sinais de racismo na “escolha” dos barrados de chegar à Espanha, “O que eu percebi lá dentro foi que eles selecionaram negros, negros homossexuais. Não existiam brancos, apenas mulatos”, disse.

Durante às 24 horas que ficou retido, percebeu que a ajuda vinha apenas da mídia e de alguns amigos, “eu não tive o movimento negro do meu lado, eu não tive o poder público do meu lado. Não tive apoio dos Direitos Humanos. Foi aí que eu comecei a desconfiar. Será que esses poderes são verdadeiros? Onde vocês vêem um brasileiro enclausurado e ficam calados? Ter ficado preso lá na Espanha e ser livre aqui no Brasil não existia diferença nenhuma”, contou.

Logo após a situação e as repetidas queixas de cidadãos brasileiros por conta das condições rígidas que muitos brasileiros sofrem no aeroporto, o governo de Dilma começou a aplicar a lei da reciprocidade, que faz com que os espanhóis que querem viajar ao Brasil apresentem meios econômicos suficientes para sua estada ou uma carta assinada por um brasileiro que se responsabilize pela hospedagem e pelo retorno dos espanhóis assim que acabarem as férias. Porém, para Menelaw, as mudanças obtidas no papel só serão aceitas por ele, quando voltar a Espanha.

E para o futuro...
"Eu fico de olho no passado para não cometer os erros do passado. Homem vive de evolução", enquanto Menelaw conversava ele pintava um boné, levando cores aquilo que ganhava vivacidade através de seus traços em tinta preta. Preto, pintor, o Pelourinho é a sua casa, o mundo é o seu lugar.


O especial Somos é produzido pelo time de focas da quinta turma do Correio de Futuro. Acesse o blog.


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