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Raquel Brito
Publicado em 30 de julho de 2024 às 05:00
Quando o boxe entrou na Olimpíada, em 1904, o uso de capacete não era obrigatório, não existia uma federação internacional para o esporte e as pontuações eletrônicas nem sonhavam em nascer. Mas uma ausência se destaca: a feminina. As mulheres entraram nos ringues olímpicos pela primeira vez em Londres-2012. 108 anos depois. >
Já na primeira edição, a medalha de bronze veio para o Brasil, no pescoço da soteropolitana Adriana Araújo. Meses antes, em Salvador, foi o rosto da atleta vitoriosa que uma jovem de 19 anos assistiu admirada ao ligar a TV. Foi nesse momento que Tatiana Chagas decidiu entrar no mundo do boxe. Hoje, aos 32 anos, ela se prepara para estrear nos Jogos Olímpicos às 16h36, contra a coreana Aeji Im. >
Nascida e criada no bairro do Uruguai, na capital baiana, Tatiana nunca tinha considerado entrar nos ringues antes disso. Recém saída do ensino médio, a jovem sofria com autoestima baixa por conta do sobrepeso. Um amigo recomendou que ela fizesse um esporte, e as tentativas foram muitas. Passou, por exemplo, pela capoeira, mas logo percebeu que não era a sua praia. “Eu tentei outros esportes, mas não era ainda isso que eu queria. Não tinha conhecimento do boxe”, conta. >
Tudo mudou depois da entrevista da conterrânea. Sem pensar duas vezes, Tatiana começou a pesquisar lugares para treinar, mas se deparava com mensalidades fora do seu orçamento em todas as academias que visitava. Já tinha desistido quando passou em frente a um projeto social na sua rua e um anúncio chamou sua atenção: entre as aulas oferecidas, estavam dança, informática e boxe. >
Diferente da capoeira, ela logo se sentiu em casa no pugilismo. O ambiente, porém, ainda era escasso para as mulheres, e Tatiana foi uma das primeiras nos ringues por onde passou. Isso era motivo de aflição para o professor Marco Antônio, conhecido como Marquinhos, com quem começou a treinar em 2013, na academia Champions. >
“Chegava ao ponto de eu falar: ‘pô, Tati, está puxado. Não tem ninguém para fazer sparring com você’. E ela insistia para treinar contra os meninos. Com o tempo, isso virou um costume”, conta o instrutor. >
A insistência deu frutos. Em 2020, Tatiana foi convocada para a Seleção Brasileira de Boxe. Dois anos depois, foi campeã nos Jogos Sul-Americanos de Assunção e, em 2023, levou a medalha de prata no Pan-Americano de Santiago, no qual conquistou sua classificação para a Olimpíada de Paris. A vitória mais recente foi no Grand Prix Internacional, disputado em Brasília, em junho deste ano. Foi a última parada antes de embarcar para a França. >
Pela idade avançada para o esporte, a atleta e o treinador já não tinham tantas esperanças em relação à convocação para a Seleção. Ela estava quase desanimando quando, durante o Campeonato Brasileiro de 2020, lutou contra a medalhista Clélia Costa e chamou a atenção do técnico da seleção, Amonio Silva. Tati não chegou a ganhar, mas a disputa foi tão acirrada que garantiu sua entrada na equipe. Se mudou para São Paulo logo depois, para treinar com o time. >
Quando Tatiana abraçou o esporte, os braços de toda a família se juntaram ao enlace. Mais velha de três irmãos, ela não chegou a se preocupar com a reação dos pais quando falou que pretendia seguir no esporte. O apoio foi imediato. >
“Eles nunca falaram para eu largar [o boxe]. Minha família é tudo. Era lá que eu chorava, lá que eu ouvia: ‘vai, minha filha, você vai conseguir. Mesmo quando as coisas davam errado, eles foram meu incentivo”, diz.>
Quatro anos depois de começar a lutar, porém, esse incentivo perdeu uma voz importante. O assassinato do pai, que era seu fã número um e marcava presença em todas as disputas, abalou a saúde mental e a carreira de Tatiana. A vontade da atleta era desistir do esporte. Foi a memória do pai e o suporte da família – de sangue e do boxe – que a fizeram persistir.>
“Meus amigos, meu professor e meus familiares me diziam muito que eu estou na carreira certa, para não desistir. E eu continuei. O boxe é hoje a minha melhor conquista e o meu meio de trabalho”. >
No esporte, fez amizades e se tornou exemplo para as colegas. Uma delas é Haziel Krishna. Em tom de brincadeira, a boxeadora de 23 anos lembra com orgulho dos treinos com a mais velha – até mesmo as pancadas. >
“Já levei muito pau de Tati, e até hoje é assim. Quando ela vem para Salvador a gente treina contato juntas. Se bobear, a bichinha pega”, diz, aos risos. “Ela sempre foi muito boa como atleta e como pessoa. Nós a respeitamos muito, é a nossa capitã”.>
Hoje, o mesmo caminho que Tatiana fazia para treinar em Salvador, pelas ruas estreitas do bairro de Cidade Nova, é repetido diariamente por meninas como Raíssa dos Santos, de 13 anos. Mesmo lutando no mesmo instituto em que ela costumava treinar, Raíssa não conhece Tatiana pessoalmente. Ainda assim, o brilho nos olhos da jovem ao ouvir o nome da pugilista não nega: hoje, Tatiana é para as mais novas o que Adriana foi para ela em 2012. >
“Eu me inspiro nela, porque é uma guerreira. Ver onde ela chegou me faz querer treinar e focar ainda mais no boxe”, diz Raíssa, que está nos ringues há um ano. >
De movimentos ágeis e sorriso largo, Tatiana Chagas se prepara para a Olimpíada de Paris com expectativas altas. Antes mesmo de entrar no ringue, a temporada em Paris já teve direito a emoção na celebração de aniversário da atleta, que completou mais um ano de vida no último dia 25. >
Maior que o nervosismo da estreia é a vontade de trazer o ouro para casa. A comemoração já está planejada: terá trio elétrico e muita festa na sua terra natal. Afinal, tem presente de aniversário melhor? >
“Todo atleta quando entra na carreira do boxe, sonha com as Olimpíadas. Viver isso é uma felicidade para mim. Vou com toda a garra, estou bem preparada. O Brasil vai dar show lá”, declara.>