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Baiana, Tatiana Chagas se inspira na conterrânea Adriana Araújo e vai em busca do sonho olímpico

Após passar por vários esportes, atleta se encontra no pugilismo e se prepara para estreia na Olimpíada de Paris-2024

  • Foto do(a) author(a) Raquel Brito
  • Raquel Brito

Publicado em 30 de julho de 2024 às 05:00

Tatiana está no boxe desde os 19 anos
Tatiana está no boxe desde os 19 anos Crédito: Wander Roberto/COB

Quando o boxe entrou na Olimpíada, em 1904, o uso de capacete não era obrigatório, não existia uma federação internacional para o esporte e as pontuações eletrônicas nem sonhavam em nascer. Mas uma ausência se destaca: a feminina. As mulheres entraram nos ringues olímpicos pela primeira vez em Londres-2012. 108 anos depois.

Já na primeira edição, a medalha de bronze veio para o Brasil, no pescoço da soteropolitana Adriana Araújo. Meses antes, em Salvador, foi o rosto da atleta vitoriosa que uma jovem de 19 anos assistiu admirada ao ligar a TV. Foi nesse momento que Tatiana Chagas decidiu entrar no mundo do boxe. Hoje, aos 32 anos, ela se prepara para estrear nos Jogos Olímpicos às 16h36, contra a coreana Aeji Im.

Nascida e criada no bairro do Uruguai, na capital baiana, Tatiana nunca tinha considerado entrar nos ringues antes disso. Recém saída do ensino médio, a jovem sofria com autoestima baixa por conta do sobrepeso. Um amigo recomendou que ela fizesse um esporte, e as tentativas foram muitas. Passou, por exemplo, pela capoeira, mas logo percebeu que não era a sua praia. “Eu tentei outros esportes, mas não era ainda isso que eu queria. Não tinha conhecimento do boxe”, conta.

Tudo mudou depois da entrevista da conterrânea. Sem pensar duas vezes, Tatiana começou a pesquisar lugares para treinar, mas se deparava com mensalidades fora do seu orçamento em todas as academias que visitava. Já tinha desistido quando passou em frente a um projeto social na sua rua e um anúncio chamou sua atenção: entre as aulas oferecidas, estavam dança, informática e boxe.

Diferente da capoeira, ela logo se sentiu em casa no pugilismo. O ambiente, porém, ainda era escasso para as mulheres, e Tatiana foi uma das primeiras nos ringues por onde passou. Isso era motivo de aflição para o professor Marco Antônio, conhecido como Marquinhos, com quem começou a treinar em 2013, na academia Champions.

“Chegava ao ponto de eu falar: ‘pô, Tati, está puxado. Não tem ninguém para fazer sparring com você’. E ela insistia para treinar contra os meninos. Com o tempo, isso virou um costume”, conta o instrutor.

Tatiana começou a treinar com o professor Marquinhos em 2013
Tatiana começou a treinar com o professor Marquinhos em 2013 Crédito: Acervo pessoal

A insistência deu frutos. Em 2020, Tatiana foi convocada para a Seleção Brasileira de Boxe. Dois anos depois, foi campeã nos Jogos Sul-Americanos de Assunção e, em 2023, levou a medalha de prata no Pan-Americano de Santiago, no qual conquistou sua classificação para a Olimpíada de Paris. A vitória mais recente foi no Grand Prix Internacional, disputado em Brasília, em junho deste ano. Foi a última parada antes de embarcar para a França.

Pela idade avançada para o esporte, a atleta e o treinador já não tinham tantas esperanças em relação à convocação para a Seleção. Ela estava quase desanimando quando, durante o Campeonato Brasileiro de 2020, lutou contra a medalhista Clélia Costa e chamou a atenção do técnico da seleção, Amonio Silva. Tati não chegou a ganhar, mas a disputa foi tão acirrada que garantiu sua entrada na equipe. Se mudou para São Paulo logo depois, para treinar com o time.

Acolhimento

Quando Tatiana abraçou o esporte, os braços de toda a família se juntaram ao enlace. Mais velha de três irmãos, ela não chegou a se preocupar com a reação dos pais quando falou que pretendia seguir no esporte. O apoio foi imediato.

“Eles nunca falaram para eu largar [o boxe]. Minha família é tudo. Era lá que eu chorava, lá que eu ouvia: ‘vai, minha filha, você vai conseguir. Mesmo quando as coisas davam errado, eles foram meu incentivo”, diz.

Quatro anos depois de começar a lutar, porém, esse incentivo perdeu uma voz importante. O assassinato do pai, que era seu fã número um e marcava presença em todas as disputas, abalou a saúde mental e a carreira de Tatiana. A vontade da atleta era desistir do esporte. Foi a memória do pai e o suporte da família – de sangue e do boxe – que a fizeram persistir.

“Meus amigos, meu professor e meus familiares me diziam muito que eu estou na carreira certa, para não desistir. E eu continuei. O boxe é hoje a minha melhor conquista e o meu meio de trabalho”.

No esporte, fez amizades e se tornou exemplo para as colegas. Uma delas é Haziel Krishna. Em tom de brincadeira, a boxeadora de 23 anos lembra com orgulho dos treinos com a mais velha – até mesmo as pancadas.

“Já levei muito pau de Tati, e até hoje é assim. Quando ela vem para Salvador a gente treina contato juntas. Se bobear, a bichinha pega”, diz, aos risos. “Ela sempre foi muito boa como atleta e como pessoa. Nós a respeitamos muito, é a nossa capitã”.

Hoje, o mesmo caminho que Tatiana fazia para treinar em Salvador, pelas ruas estreitas do bairro de Cidade Nova, é repetido diariamente por meninas como Raíssa dos Santos, de 13 anos. Mesmo lutando no mesmo instituto em que ela costumava treinar, Raíssa não conhece Tatiana pessoalmente. Ainda assim, o brilho nos olhos da jovem ao ouvir o nome da pugilista não nega: hoje, Tatiana é para as mais novas o que Adriana foi para ela em 2012.

“Eu me inspiro nela, porque é uma guerreira. Ver onde ela chegou me faz querer treinar e focar ainda mais no boxe”, diz Raíssa, que está nos ringues há um ano.

De movimentos ágeis e sorriso largo, Tatiana Chagas se prepara para a Olimpíada de Paris com expectativas altas. Antes mesmo de entrar no ringue, a temporada em Paris já teve direito a emoção na celebração de aniversário da atleta, que completou mais um ano de vida no último dia 25.

Maior que o nervosismo da estreia é a vontade de trazer o ouro para casa. A comemoração já está planejada: terá trio elétrico e muita festa na sua terra natal. Afinal, tem presente de aniversário melhor?

“Todo atleta quando entra na carreira do boxe, sonha com as Olimpíadas. Viver isso é uma felicidade para mim. Vou com toda a garra, estou bem preparada. O Brasil vai dar show lá”, declara.