Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Maiara Baloni
Publicado em 31 de março de 2026 às 07:00
Quem desembarca em Brasília pela primeira vez e decide alugar um carro logo se depara com uma estrutura viária peculiar. No coração da capital planejada pelo urbanista Lúcio Costa e pelo arquiteto Oscar Niemeyer, o tradicional cruzamento com semáforo, aquele que dita o ritmo das grandes metrópoles brasileiras, é um artigo de luxo. No lugar dele, impera uma estrutura de concreto que é, ao mesmo tempo, o orgulho da fluidez candanga e o terror dos turistas: a tesourinha. >
A cidade sem semáforos: entenda o "truque" de Brasília que confunde qualquer motorista
Para o brasiliense, a tesourinha é o quintal de casa. Para quem vem de fora, é um exercício de lógica contraintuitiva. O nome carinhoso vem do formato das alças de acesso que, vistas de cima, lembram uma tesoura aberta cortando o solo. O objetivo original do projeto do Plano Piloto era audacioso: criar uma cidade onde o fluxo de veículos nunca precisasse parar, permitindo que o Eixão, a espinha dorsal da cidade, funcionasse como uma via expressa de 80 km/h sem interrupções.
>
Se as curvas já confundem, o destino final pode ser ainda mais enigmático. Em Brasília, esqueça os nomes de ruas em homenagem a santos ou generais. O endereço é uma coordenada lógica. As tesourinhas servem de portais para as Superquadras, identificadas por siglas como SQS (Superquadra Sul) ou SQN (Superquadra Norte), seguidas por números que organizam a localização ao longo do Eixão (as centenas 100, 200, 300...) e a posição dentro da sequência das quadras (as dezenas).
>
Para o turista, chegar à SQS 210 Bloco B exige saber que a tesourinha certa é a que dá acesso ao conjunto correto de quadras no eixo Sul. Errar a numeração da tesourinha é como errar a coordenada em uma batalha naval: você acaba no setor oposto da cidade, olhando para prédios idênticos, mas a quilômetros de distância do seu compromisso. É um sistema de endereços matemático que as tesourinhas materializam no asfalto.
>
A grande pegadinha das tesourinhas reside na sua execução. Em uma cidade comum, para entrar em uma rua à direita, você simplesmente vira à direita. Em Brasília, a regra é outra. Se o seu destino é o comércio da Asa Sul ou da Asa Norte, o GPS dará a ordem que faz qualquer motorista forasteiro hesitar, mantenha-se à esquerda para entrar à direita.
>
O movimento exige que o condutor mergulhe em um pequeno viaduto sob o Eixo Rodoviário, faça a curva por baixo da pista principal e suba do lado oposto. É uma dança coreografada de concreto que, se perdida por um segundo de distração, pode custar caro. A famosa tesourinha da 210/212 Sul, uma das mais movimentadas, é o cenário clássico dessa lógica contraintuitiva. Errar a entrada ali significa ser arremessado adiante no Eixão, transformando um trajeto de cinco minutos em um tour involuntário pela arquitetura modernista.
>
A onipresença dessas curvas no dia a dia é tão forte que elas transbordaram para a cultura popular. O rock de Brasília, que ajudou a colocar a cidade no mapa musical do país, não ignorou o asfalto. Bandas como Legião Urbana e Capital Inicial incorporaram a geografia da capital em letras que dialogam com seus espaços e deslocamentos. Embora as tesourinhas raramente ganhem títulos de canções, elas são o cenário onipresente nos clipes e nas histórias de quem vive a cidade, servindo como a moldura de concreto para a mística candanga.
>
Nem o brasiliense guarda rancor das suas curvas. A prova maior de amor é o Bloco da Tesourinha, um dos blocos mais conhecidos do Carnaval candango. Fundado em 1991, o bloco costuma ocupar as entrequadras da Asa Norte (como a 409/410), arrastando multidões ao som de marchinhas e frevo. É o momento em que o concreto rígido de Lúcio Costa dá lugar à purpurina, provando que até um dispositivo de trânsito pode virar motivo de festa e identidade cultural.
>
Comparar o ritmo de outras capitais com o de Brasília é observar dois brasis diferentes. Se em cidades litorâneas o ritmo costuma ser ditado pelas ladeiras e pelo improviso das ruas que contornam o mar, em Brasília o tempo é medido pela precisão das curvas e pelo asfalto plano. Não há o quebra-mola inesperado, mas há a curva que te joga para o lado oposto do que você planejou.
>
Ao final, entender a lógica das tesourinhas e dos endereços é um rito de passagem. É o momento em que se deixa de ser apenas um turista e se começa a decifrar a alma da capital. A dica de ouro continua sendo a mesma há décadas: não tente lutar contra o mapa. Aceite a curva, mergulhe no viaduto e, se o nó na cabeça apertar, lembre-se que, em Brasília, o caminho mais curto entre dois pontos quase sempre exige fazer o contorno perfeito pela tesourinha.>