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Rodrigo Daniel Silva
Publicado em 11 de maio de 2026 às 17:18
Quase 70 milhões de brasileiros afirmam perceber a presença, em seus bairros, de grupos organizados ligados ao tráfico de drogas ou às milícias. O número representa 41,2% da população brasileira com 16 anos ou mais, segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira (11) e encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. >
“Em termos analíticos, isso sugere que a atuação desses grupos não é percebida como fenômeno excepcional ou restrito a áreas muito específicas, mas como uma experiência socialmente disseminada, que já integra o horizonte de insegurança de uma parte expressiva da população”, aponta o relatório do fórum.>
O levantamento mostra que a percepção sobre a atuação do crime organizado é mais intensa nos grandes centros urbanos. Nas capitais, 55,9% dos entrevistados dizem haver atuação de facções ou milícias em seus bairros. Nos municípios das regiões metropolitanas, o índice é de 46%, enquanto no interior cai para 34,1%.>
“Há, portanto, um gradiente territorial: a presença percebida é maior onde há maior densidade urbana, mercados ilícitos mais robustos, disputas territoriais mais intensas e maior capacidade desses grupos de ordenar a vida local. No entanto, chama atenção que mesmo nas cidades do interior, mais de 1/3 da população perceba a presença de grupos dessa natureza em seu bairro de moradia, indicando a difusão destes mercados ilícitos pelo país”, destaca o estudo.>
A Bahia é hoje o estado com o maior número de facções criminosas em ação no país. Segundo levantamento da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), vinculada ao Ministério da Justiça, são 21 organizações atuando no território baiano. Entre as mais conhecidas estão o Comando Vermelho (CV) e o Bonde do Maluco (BDM).>
A pesquisa do Datafolha também revela o peso da influência dessas organizações no cotidiano da população. Para 34,9% dos entrevistados, os grupos criminosos exercem muita influência nas comunidades; outros 26,5% avaliam que a influência é moderada. Juntos, os dois grupos somam 61,4% dos entrevistados - cerca de 42,2 milhões de brasileiros que enxergam o crime organizado como uma força que interfere diretamente na vida local. Quando incluídos os que apontam pouca influência (19%), o percentual sobe para 80,4%. Apenas 17,7% afirmam que esses grupos não exercem influência.>
Os impactos dessa presença também aparecem nos hábitos da população. Segundo o Datafolha, 81% afirmam ter medo de serem atingidos em confrontos armados, o equivalente a 55,6 milhões de pessoas. Outros 74,9% evitam frequentar determinados locais, 71,1% temem que familiares se envolvam com o tráfico, 65,2% evitam circular em certos horários, 64,4% têm receio de sofrer represálias ao denunciar crimes e 59,5% evitam falar sobre política.>
Na prática, isso significa que cerca de 65,4 milhões de brasileiros modificam sua rotina em razão da atuação de grupos criminosos armados em suas regiões.>
O instituto entrevistou presencialmente 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 137 municípios do país.>
Em Salvador, os efeitos da violência têm atingido os serviços públicos. Ao longo de 2025, bairros da capital baiana chegaram a ficar sem transporte público devido a confrontos armados. >
Entre janeiro e agosto do ano passado, foram registradas 73 interrupções no serviço em 33 bairros, de acordo com a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob). O total é quase o dobro do registrado no mesmo período de 2024, quando ocorreram 38 suspensões temporárias.>
A segurança pública é de responsabilidade do governo estadual.>
Outro levantamento, produzido pelo Instituto Fogo Cruzado em parceria com a Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas, mostrou os impactos da violência na educação em Salvador. O estudo analisou o período entre 4 de julho de 2022 e 30 de agosto de 2024 e identificou 728 episódios de troca de tiros em áreas localizadas a até 300 metros de escolas, entre 6h e 22h.>
Nesse intervalo, houve registros de tiroteios próximos a 443 das 593 escolas estaduais e municipais da capital - o equivalente a três em cada quatro unidades de ensino. Em média, considerando os 200 dias do calendário letivo, ao menos 161 tiveram ocorrências de disparos nas proximidades das escolas. >
A violência, inclusive, lidera a lista de principais preocupações dos baianos, segundo pesquisa Genial/Quaest. O tema foi citado por 36% dos entrevistados, à frente da saúde, mencionada por 26%. O desemprego aparece em terceiro lugar, com 9%.>
A Quaest ouviu 1.200 pessoas entre os dias 23 e 27 de abril. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. >
A pesquisa foi encomendada pelo Banco Genial e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BA-03657/2026.>