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Mariana Rios
Publicado em 26 de maio de 2026 às 11:31
O que tem no prato também fala sobre desigualdade, raça, território e memória. E na Bahia — onde alimentos como dendê, feijão, farinha e acarajé fazem parte da identidade cultural — esse debate ganha ainda mais peso. Foi a partir dessa discussão que o Conselho Regional de Nutrição da 5ª Região (CRN-5 – Bahia e Sergipe) lançou a Escola Antirracista de Nutrição, iniciativa inédita voltada à formação de profissionais da área da saúde. >
O projeto foi apresentado durante o Congresso Brasileiro de Nutrição e propõe discutir como o racismo estrutural também influencia a forma como a alimentação é vista, prescrita e acessada no Brasil.>
A ideia parte de uma provocação direta: “Nutrição não é um território neutro”.>
Acarajé
Na prática, a proposta questiona desde padrões alimentares considerados “ideais” até preconceitos históricos associados a comidas populares e tradicionais da cultura negra brasileira. Segundo os organizadores, muitos alimentos ligados à identidade afro-brasileira ainda carregam estigmas dentro do próprio discurso nutricional.>
“Feijão, farinha e dendê frequentemente são tratados como alimentos pesados ou inadequados, enquanto referências alimentares europeias acabam sendo valorizadas como padrão universal”, explica o coordenador técnico do Conselho e nutricionista Anderson Carvalho.>
Para ele, parte da formação em nutrição ainda reproduz modelos distantes da realidade social da maioria da população brasileira — especialmente da população negra e periférica.>
A discussão ganha relevância particular na Bahia, onde a alimentação está profundamente ligada à ancestralidade africana, às religiões de matriz afro-brasileira e às tradições populares.>
A Escola Antirracista também pretende discutir temas como insegurança alimentar, desertos alimentares — regiões com pouca oferta de comida saudável — e a forte presença de ultraprocessados em bairros periféricos.>
Segundo o Conselho, a população negra está mais exposta à dificuldade de acesso a alimentos frescos e a políticas públicas de alimentação adequada.>
A nutricionista Bruna Crioula, que participou da construção do projeto, afirma que a proposta é incluir o debate racial como parte estrutural do cuidado em saúde, e não apenas como pauta pontual.>
Além de profissionais de nutrição, o projeto quer alcançar estudantes, gestores e trabalhadores da saúde interessados em discutir alimentação sob uma perspectiva mais social e cultural.>
Como parte da iniciativa, o CRN-5 abriu inscrições para o curso “Nutrição, Antirracismo e Justiça Alimentar”, com aulas híbridas e módulos sobre saúde da população negra, políticas públicas e práticas antirracistas no atendimento nutricional.>
A proposta também inclui materiais educativos e conteúdos audiovisuais voltados ao público em geral — porque, na Bahia, discutir comida quase nunca é apenas discutir comida.>
Profissionais interessados em integrar a primeira turma do curso devem se inscrever aqui.>