Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Da Redação
Publicado em 9 de agosto de 2009 às 14:08
- Atualizado há 3 anos
O quintal do Pelourinho. A definição para a Rocinha vem de um dos mais antigos moradores, Edmundo Oliveira Santos, 74 anos, Edvon, há 30 morando no local. “Achei engraçado esse 'von', criei assim para ficar meio alemão”. >
Na babilônica Rocinha, onde moram personagens curiosos, cercados por uma preservada área verde do Centro Histórico, resistem 60 famílias - embora 25 já transferidas enquanto aguardam o projeto que pretende transformar a Rocinha em Vila Nova Esperança. >
'Aqui você pisa na terra, cria galinha, tem árvore, manga, cacaueiro. Uma hora cuida de plantas, outrados bichos. Me faz lembrar Terra Nova (onde nasceu)“, explica o artista plástico, que vive pendurado no frontispício de Salvador. >
Ele deve ao barraco a sobrevivência. 'A gente não pagava aluguel, luz nem água. Então pude estudar, fazer cursos de inglês, fotografia e artes, para buscar uma vida melhor'. >
A vida é simples. A vizinha abre a torneira e lava os pratos fora de casa, que não tem também rede de esgoto. Sem acesso sou escadas. “Nos adaptamos ao ambiente e descemos o barranco no ritmo. O negócio é subir”, brinca Edvon. >
PromessasFoi este o cenário da posse do secretário de Cultura, Márcio Meireles, em 2007, que assumiu a recuperação como obra prioritária e cheia de simbolismo. Alguns preferem não reclamar ou cobrar pelo atraso. “Não é para falar mal, né? Porque até que enfim estão fazendo. Vamos ter paciência”, aconselhou Edvon. >
Ao todo, a Rocinha abriga 174 moradores, numa área de 8.840 m², atrás da Faculdade de Medicina da Ufba, no Terreiro de Jesus. Entre eles, a cozinheira Dinorá Aragão, 67, que vive no primeiro barraco do trajeto que leva até a roça - uma entrada desconhecida por muitos baianos pelo sobrado amarelo de número 16, na Rua Alfredo de Brito. “Quero ter minha casa de volta. Quero paz, sossego para ver a banda de meu filho Suíngue no Pelô”, explica Dinorá. >
A casa é improvisada. Edvon lembra que nenhum reparo podia ser feito na área, sob constante ameaça de despejo. Dois morreram esperando regularização. Sempre rondou a comunidade o estigma da ilegalidade e de área livre para uso de drogas. Pessoas “de vida suspeita” ainda espreitam por lá. “Mas pobre não fica contra pobre e em toda realidade da cidade tem traficante, prostituta, maconheiro, cocaineiro... não é exclusividade da Rocinha”, dispara um morador. >
Justificativas para o atraso >
Em novembro de 2008, quando foi apresentado o projeto para a comunidade, as obras estavam previstas para abril. A justificativa para o atraso, segundo o governo, é a análise da Caixa Econômica Federal (CEF), responsável pela liberação de R$ 6,5 milhões para a execução. >
O recurso é proveniente do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, em parceria com as secretarias de Cultura (Secult) e de Desenvolvimento Urbano (Sedur). “O que está complicando também é a liberação da licença ambiental e do alvará, que foi requerido em abril (ao município)”, afirmou a superintendente de habitação da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedur), Liana Viveiros. >
“Estamos aguardando estes documentos fundamentais para dar segmento ao processo. Teremos uma posição da CEF já na próxima semana. E para a Caixa licitar depende dos documentos”. >
Aninha quer potencial cultural valorizado >
“Eu quero um Pelourinho como patrimônio da humanidade, mas também patrimônio do povo da Bahia. O Pelourinho é solução para Salvador e para o turismo. É o primeiro espaço, o primeiro território que mistura as etnias. Tudo amalgamado. Temmúsica, percussão, comida e coisas fortíssimas que não são desenvolvidas como o turismo e o cinema. Temos aqui uma oferta musical incrível que começa com o lundu, bossa nova, tropicalismo, samba, axé music e pagode baiano. É uma riqueza cultural ainda mal utilizada por ignorância e maltratada, que acaba não retornando para as pessoas que moram aqui. Antes de Pierre Verger, tivemos aqui Voltaire Fraga. Acho lindo que Salvador tenha uma Fundação Pierre Verger e uma tragédia que ninguém conheça Voltaire. Devemos enriquecer conosco e trabalhar nossa riqueza. Esse é o momento de trabalharmos nossa riqueza em nosso proveito. E o Pelourinho é o lugar para isso”.>
(notícia publicada na edição impressa do dia 09/08/2009 do CORREIO)>