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Sacerdote de Salvador é escolhido para atuar no Tribunal do Papa e assume cargo estratégico no Vaticano

O período inicial da nomeação é de cinco anos

  • Foto do(a) author(a) Carol Neves
  • Carol Neves

Publicado em 10 de junho de 2026 às 10:35

Cônego Alberto Montealegre Vieira Neves
Cônego Alberto Montealegre Vieira Neves Crédito: Sara Gomes/Divulgação

Um sacerdote da Arquidiocese de São Salvador da Bahia passará a integrar um dos órgãos mais importantes e sensíveis do Vaticano. O cônego Alberto Montealegre Vieira Neves foi nomeado oficial da Sessão Disciplinar do Dicastério para a Doutrina da Fé e assumirá funções em Roma diretamente ligadas à análise dos chamados “delitos reservados”, considerados os crimes mais graves dentro da Igreja Católica.

Conhecida frequentemente como o “Tribunal do Papa”, a Sessão Disciplinar é responsável por conduzir processos penais relacionados, entre outros temas, a abusos contra menores e pessoas vulneráveis, além de delitos envolvendo a Santíssima Eucaristia, o sacramento da Penitência e o sacramento da Ordem. Os casos são tratados sob a autoridade do Papa Leão XIV.

Com as mudanças promovidas recentemente no Direito Canônico, esses processos podem envolver não apenas membros do clero, mas também religiosos e até fiéis leigos. Na nova função, o cônego Alberto atuará especialmente em demandas oriundas de países de língua portuguesa. O período inicial da nomeação é de cinco anos.

Basílica do Senhor do Bonfim por Arisson Marinho/CORREIO

“Irei colaborar com o Romano Pontífice, o Papa Leão XIV, na matéria que é tratada neste Dicastério da Doutrina da Fé, nesta sessão que trata dos chamados delitos reservados. Entre os delitos reservados está aquele mais grave, que é o abuso de menores e de pessoas vulneráveis por parte de clérigos e por parte também de fiéis da vida consagrada que cometeram este abuso, já com a mudança do Livro VI pelo Papa Francisco”, disse.

O sacerdote afirmou que a atuação disciplinar é parte fundamental da missão da Igreja e está ligada à preservação da credibilidade do anúncio da fé. Segundo ele, a instituição tem buscado dar maior rapidez à apuração dos casos, especialmente os que envolvem abusos, para garantir justiça e proteger as pessoas mais vulneráveis.

“A Igreja tem uma preocupação muito grande em tratar desses casos, sobretudo, de delitos de abuso contra menores e pessoas vulneráveis. A Igreja sempre pede e quer uma celeridade no tratamento desses casos para que a justiça realmente seja cumprida e que assim o bem comum da Igreja, que é a fé anunciada, testemunhada e celebrada, não venha a ser ferida e não venha a ser lesada por causa de comportamentos contrários ao Evangelho. Assim, a Igreja quer tratar com maior cuidado para também se evitar que isso aconteça, e, se acontecer, ela tratar com a justiça que é necessária. Eu acredito que é um dicastério importante hoje, e uma sessão importante que tem uma responsabilidade grande em toda a Igreja”, afirmou.

Para Alberto Montealegre, a experiência em Roma também representará uma oportunidade de aprofundar os estudos em Direito Canônico e ampliar o contato com a atuação da Igreja em nível mundial.

“No âmbito canônico, eu vou aprofundar o meu conhecimento e a minha experiência canônica, ao trabalhar nesta sessão. Mas no âmbito eclesial, eu vou tratar com a Igreja na dimensão da Igreja universal, que é algo que enriquece o nosso ministério presbiteral diante de diversas realidades. Lá, em Roma, nós bebemos da fonte que é a Sé Apostólica. Todas as pessoas que lá trabalham possuem diversas experiências e todas elas, enquanto Igreja, enquanto família, colaboram para que o Papa Leão XIV possa cumprir a missão de sucessor de Pedro no governo da Igreja no mundo”, afirmou.

Ao comentar a mudança para o Vaticano, o cônego pediu orações aos fiéis da Arquidiocese de Salvador e disse que encara a nomeação como uma missão de serviço.

“Devemos sempre nos colocar à disposição naquilo que Deus nos chama, mesmo que isso implique em deixar muita coisa que é importante para cada um de nós, mas que, nessa realidade missionária, devemos ir para onde a Igreja precisa do nosso serviço e também onde a Igreja precisa anunciar Jesus Cristo. Neste momento, eu sou chamado a anunciar e a cuidar deste anúncio de Jesus Cristo neste âmbito tão difícil e tão delicado para a vida da Igreja”, afirmou.

Quem é o cônego Alberto Montealegre Vieira Neves

O sacerdote é bacharel em Filosofia e Teologia pela Universidade Católica do Salvador (UCSal), onde também concluiu uma pós-graduação em Direito Canônico Matrimonial. Em Roma, obteve o mestrado e o doutorado em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense, concluídos em 2016 e 2019, respectivamente.

Sua formação inclui ainda cursos promovidos pela Santa Sé, como o de prática formativa da Congregação para o Clero e o de processos de beatificação e canonização. Em 2018, participou como auxiliar da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos durante a XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo, dedicada ao tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

Além da atuação acadêmica como professor da Universidade Católica do Salvador e de cursos de pós-graduação em Direito Canônico em diferentes instituições do país, Alberto exerceu funções de destaque na Arquidiocese de Salvador. Foi reitor do Seminário Propedêutico entre 2021 e 2022, integra a comissão responsável pela redação do novo estatuto da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e coordenou o Serviço Arquidiocesano de Animação Vocacional e da Pastoral Vocacional.

Também presidiu o Tribunal Eclesiástico e de Apelação de Salvador na condição de vigário judicial desde 2020. Em fevereiro de 2022, assumiu a reitoria do Seminário São João Maria Vianney, função que exerceu até 8 de junho, antes da nomeação para o cargo no Vaticano.