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Perla Ribeiro
Publicado em 18 de maio de 2026 às 15:20
O avanço dos medicamentos agonistas de GLP-1 (tirzepatida e semaglutida), usados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, começa a produzir um novo efeito nos consultórios de cirurgia plástica: o aumento da procura por cirurgias reparadoras após grandes perdas de peso. Embora ainda não existam estatísticas específicas consolidadas relacionando diretamente as chamadas “canetas emagrecedoras” ao crescimento desse tipo de procedimento, médicos afirmam que o movimento já é percebido na prática clínica. Com isso, o tema também começou a aparecer de forma indireta nos dados internacionais de cirurgia plástica e nos debates em congressos.>
Relatórios recentes da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica (American Society of Plastic Surgeons) mostram crescimento justamente nos procedimentos mais associados ao pós-emagrecimento. Entre 2022 e 2023, a abdominoplastia cresceu 5%; a braquioplastia, cirurgia para retirada de excesso de pele dos braços, aumentou 8%; o lifting de coxas subiu 2%; e o body lift, procedimento de contorno corporal, avançou 5%. >
Já a International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) passou a incluir com mais frequência em congressos científicos discussões sobre pacientes com grandes perdas de peso e cirurgias pós-emagrecimento. Para especialistas, ainda é cedo para afirmar cientificamente uma relação direta entre agonistas de GLP-1 e aumento das cirurgias reparadoras. Mas o conjunto de evidências (crescimento de mais de 5% em um ano nos procedimentos de contorno corporal, percepção dos consultórios e expansão da produção científica sobre o tema) sugere uma mudança importante no perfil dos pacientes.>
“O que estamos vendo é uma nova era no tratamento da obesidade. Hoje temos pacientes perdendo 40, 50, até mais de 100 quilos com cirurgia bariátrica, 20, 30 quilos com medicamentos ou com associação dos dois tratamentos. E essas grandes perdas de peso trazem novas demandas de saúde, inclusive relacionadas ao excesso de pele e à composição corporal”, afirma o cirurgião bariátrico, Luiz Gustavo de Oliveira, do Instituto Metabólica, no Rio de Janeiro.>
Rosto e corpo derretidos>
Nas redes sociais, multiplicam-se relatos sobre “rosto derretido”, flacidez intensa e excesso de pele pelo corpo após emagrecimento acelerado. Mas especialistas alertam que o problema não está necessariamente nos medicamentos, e sim na forma como o emagrecimento acontece.>
“A gente vê algumas pessoas usando os medicamentos de forma isolada, sem acompanhamento médico, sem orientação nutricional e sem atividade física. E aí o paciente pode perder não apenas gordura, mas também massa muscular. Não adianta perder peso e não ter uma composição corporal adequada”, explica a nutricionista Fernanda Mattos, também do Instituto Metabólica.>
Segundo ela, a sarcopenia (perda importante de massa muscular) já começa a preocupar equipes multidisciplinares que acompanham pacientes em uso de agonistas de GLP-1. “Emagrecimento rápido sem atividade física e sem reeducação alimentar aumenta, sim, o risco de perda muscular”, diz Fernanda, que é pesquisadora.>
Sarcopenia e cirurgia plástica reparadora>
A perda de massa muscular pode impactar diretamente o resultado da cirurgia reparadora. O cirurgião plástico Pablo Trindade afirma que o preparo clínico e nutricional do paciente é hoje uma das maiores preocupações antes da cirurgia. “A proteína é base de tudo no organismo, inclusive da cicatrização. O paciente desnutrido, com baixa proteína e perda muscular importante, pode ter mais complicações no pós-operatório. A cicatriz é a assinatura do cirurgião plástico. Então o paciente precisa chegar muito bem preparado para a cirurgia reparadora”, afirma o cirurgião.>
Segundo o médico, os consultórios de cirurgia plástica já percebem aumento da procura de pacientes após grandes perdas de peso, especialmente nos últimos meses. “A cirurgia plástica não é o fim do tratamento da obesidade. Ela é mais uma etapa desse processo”, diz.>
Cirurgias plásticas mais buscadas>
Entre as cirurgias reparadoras mais buscadas após o emagrecimento, a campeã continua sendo a abdominoplastia, seguida pelas cirurgias mamárias, braço, coxa, dorso e glúteos. “O abdome ainda é o procedimento que mais puxa o fio da cirurgia reparadora”, afirma Pablo Trindade.>
Mas o especialista faz um alerta: nem todo paciente que emagrece está pronto para operar. Segundo ele, existe um “tripé de segurança” para definir o melhor momento da cirurgia: estabilidade do peso, IMC adequado e correção dos distúrbios nutricionais e psicológicos. “Às vezes o paciente acha que chegou ao platô ideal (quando a perda de peso estabiliza), faz a cirurgia reparadora e continua emagrecendo. Dois ou três meses depois, já está com flacidez residual novamente e precisará fazer novo procedimento reparador. Por isso, o tempo certo da cirurgia é tão importante”, afirma.>
De acordo com o cirurgião plástico, os estudos mais recentes apontam que o ideal é esperar entre um ano e meio e dois anos após a bariátrica, ou após uma grande perda de peso estabilizada, para realizar a cirurgia reparadora. O IMC também influencia diretamente no risco cirúrgico e no resultado estético. “Os artigos mais recentes mostram que o cenário ideal é um IMC abaixo de 28. Entre 28 e 30, avaliamos caso a caso. Acima de 30, o risco cirúrgico já aumenta bastante”, explica. >