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Carmen Vasconcelos
Publicado em 3 de julho de 2016 às 09:46
- Atualizado há 3 anos
Tudo começou com uma queda e uma torção no pé. No início, enquanto recuperava a torção com imobilização, sentia câimbras e algumas dormências, mas creditava tudo ao tempo em repouso. O problema só foi revelado quando a segunda queda aconteceu e a crescente dificuldade de segurar xícaras e talheres chamou atenção da família Pereira para o fato de que o pai estava gravemente doente. A Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) não era mais algo distante, visto apenas no Desafio do Balde de Gelo. >
“É uma prisão dentro do corpo”, conta o patriarca da família Pereira (que preferiu preservar a identidade). Hoje, ele não consegue mais caminhar e só se movimenta com cadeira de rodas. A dificuldade para engolir é grande e a voz só fica audível para os familiares. Até o próximo ano, os testes de uma nova droga capaz de impedir a formação das toxinas que desencadeiam a destruição dos neurônios motores, causa da ELA, são a esperança para os portadores da doença. >
A descoberta da droga só virou uma possibilidade depois que um grupo de pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte (EUA) descobriu a causa da ELA. Os cientistas trabalharam sobre casos da doença ligados a mutações numa proteína chamada SOD-1. Eles descobriram que a SOD-1 cria um aglomerado temporário de três moléculas - chamado de trímero. Esse trímero é altamente tóxico para os neurônios motores, o que leva à morte dessas células. Os testes com uma nova droga pode levar até cinco anos. >
Genética predispostaO neurologista e coordenador de Clínica Médica do Hospital Roberto Santos, Daniel Farias, esclarece que a ELA é uma doença degenerativa, caracterizada por perda progressiva de funções do corpo, como andar, segurar, engolir e respirar. >
“A doença é provocada pela morte dos neurônios motores presentes no cérebro, tronco encefálico e na medula, que são as células responsáveis por comandar os músculos que executam os movimentos voluntários do corpo”, explica. >
O médico lembra que a doença é geneticamente determinada, mas alguns casos podem ser atribuídos a fatores ambientais. “Existem algumas alterações genéticas que estão correlacionadas com a doença, tais como a mutação da superóxido dismutase (SOD-1), que demonstrou que a proteína mutante pode formar agregado proteico patológico que leva à morte dos neurônios”, explica.>
Segundo a neurologista do Hospital Universitário Edgard Santos (Ufba) Roberta Borges Gomes Kauark, dois casos da doença são registrados em cada cem mil pessoas por ano no mundo. >
“A exceção ocorre numa das ilhas Marianas, a ilha de Guan, situada no Pacífico Oeste, abaixo das Filipinas e a leste do Japão, onde o número de casos é cem vezes maior”, pontua a especialista em Transtornos do Movimento. Ela lembra que o caso dessa localidade, a incidência da ELA se deve ao consumo de uma iguaria com morcegos que se alimentam de uma fruta carregada de glucamato. A médica ressalta que o caráter familiar, no entanto, só vai ocorrer em 10% dos casos, seguindo o padrão de herança genética.>
“Existem casos em que a ELA ainda está associada a determinados tipos de demência”, esclarece a médica, lembrando que nos Estados Unidos existem mais de 241 estudos sobre a doença em andamento. Embora a sobrevida média de um paciente com ELA seja de cinco anos, a neurologista da UFBA destaca que a Esclerose Lateral pode não aparecer da mesma forma em todas as pessoas, podendo começar de uma forma e progredir de outra. >
Curas associadasA médica destaca ainda que os agregados proteicos encontrados na Carolina do Norte são uma marca dessas doenças neurodegenerativas – como o Parkinson e o Alzheimer – e uma vez que o mecanismo de lesão esteja determinado, fica mais fácil a busca de tratamento para essas outras doenças, além da ELA. >
Vale salientar que a doença acomete com mais frequência pessoas de meia idade e tem uma leve predominância em homens: 1,5 de casos em homens para 1 caso em mulheres. O tabagismo, a contaminação por metais pesados e a prática excessiva de atividade física são fatores de risco.>