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O que mudou na síndrome que afeta uma em cada oito mulheres em idade reprodutiva

Nova diretriz internacional reconhece que o problema envolve alterações hormonais, metabólicas e emocionais que vão muito além dos ovários

  • Foto do(a) author(a) Perla Ribeiro
  • Perla Ribeiro

Publicado em 6 de junho de 2026 às 08:53

Veja como o estilo de vida pode impactar na síndrome dos ovários policísticos
O que mudou na síndrome que afeta uma em cada oito mulheres em idade reprodutiva Crédito: Shutterstock

Uma das condições hormonais mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva acaba de passar por uma mudança histórica. A tradicional Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), conhecida por afetar a menstruação, a fertilidade e o funcionamento dos ovários, ganhou um novo nome: Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP).

A alteração foi oficializada em uma diretriz publicada pela revista científica The Lancet e apoiada por 56 organizações acadêmicas, médicas e de pacientes de diferentes países. Mais do que uma simples troca de nomenclatura, a mudança representa uma nova forma de compreender uma condição que afeta milhões de pessoas e cujos impactos vão muito além da saúde reprodutiva.

O contato físico afetuoso pode melhorar a sensação de pertencimento e conexão humana. por Shutterstock

Segundo especialistas, o antigo nome acabou contribuindo, por décadas, para uma visão limitada da síndrome, concentrando a atenção nos ovários e na fertilidade, enquanto outros sintomas importantes permaneciam pouco reconhecidos ou até ignorados. Embora os ciclos menstruais irregulares e as dificuldades para engravidar estejam entre os sinais mais conhecidos da condição, os especialistas destacam que a síndrome envolve alterações hormonais, metabólicas e até emocionais.

Entre os problemas associados estão resistência à insulina, obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, acne, aumento excessivo de pelos e alterações metabólicas que podem comprometer a saúde ao longo da vida. A nova nomenclatura busca justamente refletir essa complexidade. 

"Era importante que a compreensão da síndrome já começasse em sua denominação", explica o médico Jaime Kulak Junior, professor do Departamento de Tocoginecologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Segundo ele, o termo "ovários policísticos" acabou criando uma percepção equivocada de que o problema estaria restrito aos ovários, quando na realidade envolve diversos sistemas do organismo.

O diagnóstico ainda é um desafio

Apesar de ser uma das condições hormonais mais frequentes entre mulheres em idade reprodutiva, estima-se que cerca de 70% das pessoas afetadas ainda não tenham recebido diagnóstico. Isso acontece porque a síndrome pode se manifestar de formas muito diferentes. Enquanto algumas pessoas apresentam irregularidade menstrual, outras convivem principalmente com ganho de peso, acne persistente, excesso de pelos, dificuldade para engravidar ou alterações metabólicas.

Além disso, nem todas apresentam os chamados "ovários policísticos" nos exames de imagem. Essa característica foi uma das principais razões que levaram especialistas internacionais a defender a mudança de nome. Durante muitos anos, a ausência dos chamados cistos ovarianos contribuiu para atrasos diagnósticos e para a exclusão de pacientes que não se encaixavam no perfil considerado clássico da síndrome.

Uma doença conhecida há quase um século

A condição foi descrita pela primeira vez em 1935 pelos médicos norte-americanos Irving Stein e Michael Leventhal. Na época, a atenção estava voltada para mulheres que apresentavam ausência de menstruação, ovários aumentados e múltiplos pequenos cistos. Foi apenas a partir das décadas seguintes, com os avanços da endocrinologia, que os pesquisadores passaram a compreender que as alterações hormonais eram muito mais amplas.

Os estudos revelaram desequilíbrios envolvendo hormônios responsáveis pela ovulação, aumento dos andrógenos — hormônios associados a características masculinas — e forte relação com resistência à insulina e doenças metabólicas. Desde então, o conhecimento sobre a síndrome evoluiu significativamente.

Impactos que vão além da saúde física

Outro aspecto que vem ganhando destaque nos últimos anos é a relação da síndrome com a saúde mental. Segundo a endocrinologista Adriane Maria Rodrigues, do Complexo Hospital de Clínicas da UFPR, muitas pacientes convivem com ansiedade, depressão, baixa autoestima e transtornos alimentares, problemas que historicamente receberam menos atenção durante o tratamento.

A especialista destaca que a mudança de nome também reflete uma transformação na forma como a medicina enxerga essas pessoas. "A SOMP envolve diferentes fatores e pode se manifestar de maneiras variadas. Por isso, é fundamental tratar o indivíduo e não apenas a doença, levando em consideração suas necessidades, desejos e qualidade de vida", afirma.

O relatório publicado no The Lancet também chama atenção para um aspecto social importante: durante décadas, a condição foi amplamente discutida sob a ótica da fertilidade. Para os especialistas, esse foco excessivo acabou reforçando estigmas e deixou em segundo plano outros impactos relevantes da síndrome.

Hoje, a compreensão é mais ampla e reconhece que a condição pode afetar diferentes aspectos da saúde física, emocional e metabólica ao longo de toda a vida, desde a adolescência até a menopausa. Além disso, a nova abordagem reconhece que a síndrome também pode atingir homens trans e pessoas não binárias que possuem ovários e apresentam alterações hormonais compatíveis com a condição.

O que muda para os pacientes?

Na prática, a mudança de nome não altera imediatamente os tratamentos disponíveis, mas ajuda a ampliar a conscientização sobre a síndrome e seus diversos impactos. Para especialistas, a nova nomenclatura pode contribuir para diagnósticos mais precoces, tratamentos mais personalizados e uma compreensão mais completa da condição.

Mais do que uma mudança terminológica, a adoção do nome Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina representa uma tentativa de colocar a experiência dos pacientes no centro da discussão e reconhecer que a doença vai muito além dos ovários. E essa mudança pode ser decisiva para milhões de pessoas que convivem com sintomas muitas vezes ignorados ou mal compreendidos há décadas.