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Paulo Sales
Publicado em 19 de abril de 2026 às 05:00
No som alto, Ben Webster tece seu fraseado enfumaçado como quem sofre de uma fossa irremediável. Eu, só na varanda, tomo a quarta ou quinta taça de vinho em busca de uma inspiração que, como de costume, não dá as caras. Até hoje me intriga o fato de um sujeito durão e bom de briga como Ben ter sido capaz de soar tão vulnerável e contemplativo. Seu sax tenor preenche a noite com as notas de Blues for Yolande, me fazendo lembrar de Setembro, aquele drama espesso de Woody Allen, em cuja trilha sonora despontava o álbum que ele gravou com o pianista Art Tatum. >
Setembro é um baita filme. Mais um entre tantos de uma prolífica cinematografia que merecem ser revistos de tempos em tempos. É dessas obras-primas imperfeitas nas quais os momentos essenciais somados valem muito mais do que o todo. A atmosfera carregada, a casa como personagem e prisão, os temas tocados por Art e Ben onipresentes no toca-discos, o talento e os traços incomuns de Diane Wiest, a entrega extraordinária de Mia Farrow. Depressão, desejo, traição. Setembro tem seu duplo em Interiores, outro drama de inspiração bergmaniana.>
Allen é provavelmente o meu cineasta preferido. Sua obra condensa e amplifica questionamentos primordiais da humanidade, denotando uma percepção da existência sempre pelo viés do copo vazio. E, de bandeja, ele nos brinda com um olhar muito peculiar sobre o mundo em que foi forjado: o humor sofisticado, a alta cultura, a herança judaica como bênção e maldição (mais maldição do que bênção), o jazz, a dicotomia entre pecado e remorso tomada emprestada de Dostoiévski. Acima de tudo, a evocação da beleza, do conhecimento e do amor como preciosidades da civilização.>
Como esquecer do encontro entre Michael Caine e Barbara Hershey numa livraria, em Hannah e Suas Irmãs, que culmina com a leitura de um poema devastador de e.e. cummings. É a cultura como instrumento de sedução, o poder da poesia em derreter o gelo do coração. Ou mesmo a cena final de Manhattan, o mais belo dos belos, quando Tracy (uma Mariel Hemingway ainda adolescente e muito linda) diz para Isaac (o próprio Allen): “Nem todos se corrompem. Você precisa acreditar nas pessoas”. Ou, ainda, a pungência de Crimes e Pecados, que nos lança ao abismo com ironia e uma percepção rara da nossa insignificância. Ficaria horas aqui recordando cenas.>
Já me conformei com o fato de que, aos 90 anos (completados em novembro passado), Allen não voltará a atingir o auge. Não parece ter mais fôlego, ainda mais depois da acusação de abuso sexual envolvendo a filha Dylan e todo o processo com Mia Farrow, que minou suas forças e o deixou com o olhar perdido. Hoje, Allen se contenta em filmar comédias românticas triviais ou pastiches sem brilho de suas obras anteriores. Pelo que li outro dia, existe a possibilidade de que venha a rodar um novo longa em Madri. Provavelmente assistirei, provavelmente me decepcionarei.>
Resgato uma entrevista que Allen concedeu em 2019 ao jornal espanhol El País, na qual afirmou que pouco se importava com a posteridade: “Não me interessa meu legado, não me interessa o que farão com os meus filmes quando eu já não estiver aqui, podem jogá-los no mar. Uma vez que estamos mortos, estamos mortos. Acabou-se”. Mas é pouco provável que a posteridade lhe seja tão ingrata. Quando revemos seus melhores filmes, nos damos conta do quanto permanecem íntegros, charmosos, atuais.>
A noite avança e Ben Webster sussurra os acordes de It Never Entered My Mind. Há ainda um pouco de vinho na garrafa, que transfiro para a taça. Coloco o velho DVD de Manhattan que tenho em casa e fico vendo as imagens sem som. A metrópole enevoada em preto e branco, os diálogos incisivos e divertidos, o sorriso de Diane Keaton que é puro sarcasmo destilado. Um deleite que me comove e me faz sorrir. Até que em dado momento, Isaac lista as dez coisas que, para ele, dão sentido à vida. >
Reproduzo-as aqui: 1) Groucho Marx; 2) Willie Mays (jogador de beisebol); 3) o segundo movimento da sinfonia Júpiter, de Mozart; 4) Potato Head Blues na gravação de Louis Armstrong; 5) filmes suecos; 6) Educação Sentimental, de Flaubert; 7) Marlon Brando, Frank Sinatra; 8) as incríveis maçãs e peras de Cézanne; 9) o caranguejo do restaurante Sam Wo; 10) o rosto de Tracy. Nesse pequeno rol de prazeres e inspirações, está a prova mais cabal de que um dia fomos seres civilizados.>