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Premiada por viver Elis Regina, baiana Laila Garin traz nova peça a Salvador

Laila é contemporânea de nomes formados no teatro baiano como Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta

  • Foto do(a) author(a) Laura Fernades
  • Laura Fernades

Publicado em 10 de agosto de 2016 às 09:08

 - Atualizado há 3 anos

Toda vez que terminava sua participação na peça de estreia, aos 5  anos, a atriz baiana Laila Garin era obrigada a voltar para casa, já que o Juizado não permitia que ficasse no teatro para ver o resto da montagem de Cleise Mendes, com direção de Luiz Marfuz. Até que um dia sua mãe bateu pé firme e ficou com a filha. “Nesse dia, vi uma mulher nua, com aquele vozeirão enorme no palco e tomei um susto”, lembra Laila, 38 anos, rindo.A memória vem à cabeça assim que começa a falar sobre a sua volta a Salvador, nesse fim de semana, para a curta temporada do espetáculo Gota d’Água [A Seco], que apresenta no Teatro Castro Alves. Radicada no Rio e responsável por conquistar o Brasil no papel de Elis Regina (1945– 1982), levando o prêmio Shell de melhor atriz, Laila diz que a cena na infância marcou sua vida.Laila em cena do musical Gota d’Água, que pode ser visto no Teatro Castro Alves, de sexta a domingo(Foto: Annelize Tozetto/Divulgação)Anos depois, o tal vozerão reapareceu nos primeiros dias de aula do curso de teatro da Universidade Federal da Bahia. Foi a professora Hebe Alves abrir a boca para Laila imediatamente voltar no tempo e dar um grito: “Ahh! Então era você!”. A voz pertencia à atriz e diretora Hebe Alves, nome de destaque do teatro baiano e uma das referências de Laila, ao lado de diretores como Harildo Deda,  Meran Vargens e Luiz Marufz.“Estava dando aula, falando de como somos convidados a enfrentar nossos próprios desafios. Então citei essa peça de Marfuz, na qual substituí Nélia Carvalho e fui surpreendida com a necessidade de fazer uma cena de nudez. De repente, Laila deu um grito no meio da aula”, ri Hebe Alves, 62, sobre o reencontro com a aluna.“Ela era uma garotinha linda que, naquele momento, já tinha esse brilho no olhar”, elogia Hebe, sobre a atriz infantil. “Fico muito feliz pela trajetória de Laila. Desde novinha ela foi se trabalhando com muita seriedade e muita entrega. Ela tem um raciocínio cênico brilhante e realmente conquistou esse lugar. Vou assitir Gota d’Água, óbvio. Não vou perder”, garante.Laila Garin em Elis - A Musical, como Elis Regina,papel que lhe rendeu o Prêmio Shell de melhor atriz(Foto: Robert Schwenckok/Divulgação)InformalidadePé no chão, Laila Garin não deixa subir à cabeça os elogios e o sucesso por sua interpretação arrebatadora em Elis - A Musical. “Elis foi um grande presente da vida. Foi um escândalo! Mas é uma peça que tem sucesso próprio, independente de mim. Nove prêmios é uma aberração, né?”, questiona, sobre as conquistas do musical dirigido por Dennis Carvalho, com texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade.Contemporânea de nomes formados no teatro baiano como Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, Laila é taxativa: “Não acho que baiano é melhor do que ninguém não. A gente tem uma autoestima muito alta! (risos). Mas não acho que somos melhores do que ninguém”.Questionada sobre o que poderia justificar o sucesso da Bahia Brasil afora, Laila aponta a liberdade com o corpo como um dos fatores. “Existe uma informalidade na Bahia que encanta as pessoas. É como se a gente tivesse uma facilidade de acessar o outro que acho que pode ter a ver com essa cultura”, justifica.Outras pessoas apontam, ainda, sua dedicação como fator de sucesso. “Laila é a pessoa mais perfeccionista que conheço. Existe o talento, mas não é só isso. Ela é uma trabalhadora da arte, incansável, artista sólida e de uma grandeza rara”, destaca o diretor e dramaturgo paulista Rafael Gomes, 33, que assina a adaptação de Gota d’Água.AssombroFilha de um engenheiro de informática francês com uma jornalista baiana, Laila respira teatro desde pequena. Além da peça que abre esse texto, a carreira da artista inclui expriências com o teatro amador na Via Magia; estudo de mímica com Nadja Turenko e George Mascarenhas; teatro de pesquisa em São Paulo, com Cacá Carvalho; estágio na França; e a novela Babilônia, da Globo.Na novela Babilônia, da Globo/TV Bahia, Laila interpretou a dona de casa Maria José(Foto: Alex Carvalho/ TV Globo)Fora de Salvador há 14 anos, Laila mora hoje no Rio, onde integra A Barca dos Corações Partidos – Companhia Brasileira de Movimento e Som, dirigida por João Falcão e responsável por musicais como Gonzagão - A Lenda e Ópera do Malandro. Também canta na banda de MPB Laila Garin e A Roda. E se prepara para voltar à TV, na próxima novela da 19h da Globo, Rock Story.  “Ela é uma artista absoluta, capaz de cantar desse jeito, atuar...”, elogia o diretor Rafael Gomes, que recebeu o Prêmio Shell pelo espetáculo Um Bonde Chamado Desejo. “A Laila é um assombro! As pessoas vão contar para o neto que viveram na mesma época que ela”, completa Rafael.

Gota d'Água a SecoPaixão, ambição, disputa entre opressor e oprimido, questão de gênero e desigualdade social. São diversos os temas que costuram o musical Gota d’Água [A Seco], cujo texto original de Chico Buarque e Paulo Pontes é adaptado e dirigido pelo paulista Rafael Gomes. Em cena, Laila Garin e o ator goiano Alejandro Claveaux dão corpo à relação visceral entre Joana e Jasão, personagens inspirados na tragédia grega Medeia, de Eurípedes (480 a.C.- 406 a.C.).Laila Garin vive Joana, mulher apaixonada e abandonada pelo ambicioso Jasão (Alejandro Claveaux)(Foto: Silvana  Marques/ Divulgação) De um lado, um homem ambicioso, do outro uma mulher cega de paixão que é abandonada e busca vingança. O embate marca o espetáculo que está em cartaz no Teatro Castro Alves, sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 20h, dentro do Catálogo Brasileiro de Teatro. “Na nossa versão, ela não é do bem e ele do mal. A gente não queria uma coisa maniqueísta, com Jasão só malandro, mau-caráter. A gente quis concentrar nesse duelo dos dois”, explica Laila Garin, sobre o projeto que relê as duas versões anteriores.

A história original de Eurípedes apresenta Medeia como uma mulher apaixonada, sendo trocada por outra mais jovem e  rica, filha do rei. Na versão de Chico, Jasão deixa Joana para que seu samba possa fazer sucesso na rádio e acaba se casando com a filha de um poderoso dono de um conjunto habitacional.

Montada pela primeira vez em 1975, com a dama do teatro Bibi Ferreira no papel principal, Gota d’Água contava com 20 atores em cena. Agora, são apenas dois na versão de Rafael Gomes, que tem direção musical de Pedro Luís e é costurada com novas músicas de Chico Buarque. Além disso, o musical traz novos questionamentos que dialogam com seu tempo.

“O subtexto vai mudando com os acontecimentos: estupro de 33 homens a uma menina; impeachment de Dilma; retirada das mulheres do quadro do ministério... Quem atualizou a peça com todo o contexto político foi a própria realidade”, afirma Laila, que também provoca outras discussões como a crescente intolerância na vida real e virtual. “A internet é boa e ao mesmo tempo um lixo, onde as pessoas vomitam qualquer coisa”, critica. 

“Essa obra continua relevante, se não continuasse a gente não faria. A grande qualidade de uma obra potente é que ela é infinita. Não importa quanto tempo passe, não importa o contexto, aquela obra vai abarcar essas leituras todas”, refoça o diretor Rafael Gomes.