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Priscila Natividade
Publicado em 2 de julho de 2014 às 10:25
- Atualizado há 3 anos
Na porta da churrascaria Fogo de Chão, a hostess se vira como pode. “Six?”, pergunta a dois gringos que adentram o recinto. “Si. Sês”, responde um dos rapazes, em quase português, com seis dedos das mãos estendidos para a moça. A funcionária, então, direciona os rapazes para uma mesa com os seis lugares solicitados. É ali que eles conhecem uma felicidade chamada picanha. A carne é a preferida dos gringos que vêm a Salvador. No restaurante, uma tonelada do corte chega a ser vendida em meio ao entra e sai de um estrangeiro e outro. Se alguém pensou que os gringos cairiam matando no acarajé foi porque não passou pela fachada da churrascaria que fica no Rio Vermelho, em dia de jogo na Fonte Nova, a partir das 10h da manhã. “Chegam a atender até 1.800 pessoas e o tempo de permanência na fila é de, em média, 2h30”, conta o gerente da Fogo de Chão, Jair Marostica. A maioria destes clientes é de turistas da Holanda, Portugal, Espanha, Alemanha, Chile e México. “Deveria ter Copa do Mundo todo ano no Brasil”, comemora o movimento mais que triplicado na casa, que costumava a receber 500 pessoas por dia. Depois de experimentar o rodízio de carnes em Belo Horizonte, grupo de turistas belgas foi repetir a experiência em uma churrascaria no Rio Vermelho. Eles pediram apenas picanha (Foto: Almiro Lopes)Numa das mesas, os belgas John, Michou, Alex, Bernard e Stéphano, se viciaram na iguaria. “Fomos nessa churrascaria em Belo Horizonte, gostamos e viemos na daqui também”, explicou o piloto de avião Stéphano T’Joen, num português que aprendeu com Caetano Veloso. “Eu gostava muito de Caetano e queria entender o que ele dizia. Então, comecei a fazer um curso”. Na churrascaria, era o intérprete dos amigos. Pediu as bebidas, acompanhou no bufê e pediu o corte ao garçom. “Só picanha”, determinou. No Brasil pela primeira vez, o grupo veio para assistir Bélgica e Estados Unidos (ontem) e Holanda e Costa Rica (sábado). >
Confira todas as notícias da Copa do Mundo 2014Grata surpresa O aumento do fluxo era esperado, mas a dimensão superou as expectativas, conforme relata o gerente da churrascaria Boi Preto, João Carlos Machado. O incremento tem sido em torno de 30%: “Isso ajudou bastante porque o mês de junho é muito ruim”. O gerente da churrascaria Fogo de Chão, Jair Marostica, também concorda. “O movimento em junho fica muito fraco, pois nossos clientes costumam viajar”.Se por um lado as churrascarias se surpreenderam com o movimento, os estrangeiros confessam que se renderam mesmo ao sabor da carne. Perguntada sobre o assunto, a família israelense, que jantava em um dos restaurantes, respondeu quase em coro a única palavra que aprenderam do português. “O gosto é muito bom. Lá em Israel não tem”, disse a mãe, Chen, que é pediatra. O pai, o economista Itzik, contou que a família veio a Salvador apenas para ver o jogo da Bélgica. A surpresa também veio para o bolso do estrangeiro, que costuma pagar em restaurantes brasileiros fora do país, o mesmo dinheiro que dá para fazer o churrasco, convidar a família, juntar os amigos e movimentar a varanda de casa com direito a um troquinho. A baiana Nau Ferreira Mescoff mora em Paris e conta que um rodízio lá chega a custar 250 euros por pessoa. Em reais, isso passa de um salário mínimo, R$ 753. “Lá são servidos apenas seis tipos de carne, acompanhados com uma garrafa de vinho”, lembra. Mais carneNo restaurante A Porteira, que está estrategicamente localizado para aplacar a fome de carne dos estrangeiros que vão assistir aos jogos da Copa, o movimento também tem marcado gol de placa antes de a bola rolar na Arena Fonte Nova. “Comparado aos dias normais, estamos recebendo 70% a mais de clientes”, confirma o gerente da casa, Francisco Vitor. Ali, a preferência é pela carne de sol. São cerca de 200 pedidos do prato. “A carne de sol é sinistra”, como qualifica o boliviano Rodrigo Ramos. Em todos os jogos em Salvador, ele marca presença no restaurante antes da partida. “Faço o aquecimento aqui. É o point”. A americana Brenda Bello chegou, ontem, antes do jogo dos Estados Unidos contra a Bélgica e só deu tempo mesmo de experimentar o acarajé. Mas, ao ver o garçom passar pela mesa com a carne de sol, não se conteve: “a carne tem uma cara muito boa, após o jogo vou voltar para experimentar ela também. Fiquei com vontade”, prometeu. Colaborou Priscila Chammas. Mundial só beneficiou restaurantes perto da ArenaPara o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Luiz Henrique do Amaral, o aumento na venda de alimentos e bebidas é pontual. “Está acontecendo um fenômeno de concentração nos dias de jogos. Em outros dias, o fluxo é menor. Não há um equilíbrio”, explica. Segundo ele, esta mudança de hábito no consumo por conta da Copa acaba lotando alguns estabelecimentos e diminuindo a média de vendas em outros. “Os eventos se concentram muito em dias de jogos. Fora isso, você não tem o mesmo fluxo, na verdade tem uma baixa no faturamento”.Alguns locais potencializaram seus ganhos, enquanto outros ainda esperam recolher os bons frutos da Copa. Segundo o presidente da Abrasel, os estabelecimentos que ficam na Barra, Centro Histórico, Rio Vermelho, orla e Imbuí foram beneficiados. Enquanto os que estão localizados na Pituba, Itapuã, Graça, Ondina e nos shoppings estão em desvantagem. “É só um dia que aquilo está muito bom e no outro não está. Este impacto na mudança de comportamento é o que mais nos preocupa”, confessa. O gestor-geral do restaurante Pobre Juan, Benício Santana, reconhece a desvantagem, já que o mesmo está localizado na Avenida ACM, próximo ao Hiper Iguatemi. “Sentimos demais este impacto. Foi decepcionante, principalmente com o movimento reduzido, próprio do mês junino”. Para ele, o fluxo não chegou nem perto das expectativas. “A gente entende que os locais mais próximos bombam mais, porém ainda assim estamos esperando um movimento melhor”.>
Para alavancar o fluxo, o Pobre Juan colocou um combo em oferta para atrair os olhos e a atenção dos estrangeiros. “Durante o almoço, por R$ 74,40, o cliente pode consumir um menu completo da entrada até o cafezinho”. Benício acrescenta, ainda, que equipou o restaurante com telões para quem quiser curtir os jogos no restaurante. “Precisamos dar uma badalada maior à casa”. >
O presidente da Abrasel ainda acredita que a Copa do Mundo pode render bons negócios para o setor na Bahia. “A nossa expectativa é que atinja ainda este equilíbrio”, finaliza. Bebida ajuda turistas a vencer calor e a gritar gol Cachaça, limão, açúcar e gelo picado. A mistura parece simples, mas tem deixado muito barman com o braço doendo de tanto espremer limão. “Em dia de jogo, chegamos a vender mais de 150 caipirinhas”, conta o gerente do restaurante A Porteira, Francisco Vitor. O empreendimento está localizado no Dique, a poucos metros da Arena Fonte Nova, palco dos jogos da Copa na capital baiana. E, por isso, é um dos mais procurados pelos turistas que vieram a Salvador participar do Campeonato Mundial de futebol, o que o torna um especialista quando o assunto é o paladar e do comportamento dos gringos.E, para ele, o grito de apoio para a seleção de muitos países que passaram por aqui não seria o mesmo sem a bebida, que refresca, limpa a garganta e, claro, alegra e descontrai quem a experimenta. “Tem gente que chega a tomar até mais de seis caipirinhas numa única sentada. Bebem que nem água”, completa. Ainda segundo ele, a fama da bebida é grande e, às vezes, os gringos nem sabem o que é ou do que é feito, mas fazem questão de experimentar assim que chegam a um restaurante. E eles, desacostumados ao calor tropical, não se decepcionam. “É uma das bebidas mais pedidas, compete só com o chope, mas garante o seu lugar”, explica, realçando: “Eles realmente gostaram muito”. Quando alguém pede ‘caeperenha’, ele já sabe que é gringo e que vai faturar bastante. “Consomem demais”, brinca. E aja limão.>