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Cabeça de Lampião, Chacina da Graça e crimes da ditadura: quem foi Charles Pittex

Suíço de nascimento, famosos médico legista atuou nos principais casos criminais da Bahia, elucidando diversos deles

  • Foto do(a) author(a) André Uzeda
  • André Uzeda

Publicado em 3 de maio de 2026 às 10:19

Charles Pittex, ao lado das cabeças de Lampião e Maria Bonita, no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador
Charles Pittex, ao lado das cabeças de Lampião e Maria Bonita, no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador Crédito: Divulgação

Ao mencionar o nome de Charles Pittex, a primeira memória que salta aos seus contemporâneos é a folclórica anedota de que ele usava os pés dos defuntos como suporte para apoiar seu fumacento charuto. Isso enquanto mantinha as mãos ocupadas realizando a perícia cadavérica.

Nesta versão dos fatos, as observações forenses eram intercaladas com baforadas de tabaco, cujo propósito era aguçar a mente à procura de vestígios criminais.

Charles René Pittex nasceu na cidade de Lausanne, na parte francesa da Suíça, mas se formou em medicina na Bahia, onde trabalhou entre as décadas de 1940 a 1980 no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador. Por aqui, fez fama e construiu prestígio elucidando alguns dos crimes mais infames do estado.

“Era um homem muito reservado e de falar muito pouco. A gente tinha até um certo medo, porque parecia um mafioso italiano, com aquele porte de gringo e suspensório. Quando chegava com o carro (um modelo Hudson Hornet cinza), nossa diversão acabava. Porque a gente jogava bola justamente na garagem dele”, relembra o cronista esportivo Ruy Botelho.

As lembranças de Botelho são da infância, quando morava ao lado do famoso legista no Boulevard Suíço, um enclave localizado no então nobilíssimo bairro de Nazaré, em uma rua perpendicular ao Campo da Pólvora.

À parte a curiosidade de Pittex ter escolhido um bairro com referência a seu país natal para viver, Botelho se recorda de outros aspectos inusitados da vida do seu ex-vizinho.

“Ele morava em um casarão enorme de dois andares, ao lado da esposa, Dona Ninita. Eram só os dois. Sempre muito silenciosos. Me recordo também que ele chegou a ter o título de comodoro (diretor-geral) do Yacht Clube da Bahia, o que dá a dimensão da notoriedade que tinha em Salvador naquela época”, conta Botelho.

A cabeça de Lampião

Um dos poucos registros fotográficos acessíveis na internet de doutor Pittex é uma imagem dele segurando as cabeças de Lampião e Maria Bonita dentro do IML de Salvador – quando ainda funcionava no Terreiro de Jesus, no Pelourinho, anexo à escola de Medicina.

Os crânios do célebre casal de cangaceiros foram transferidos de Maceió para a capital baiana em 1944, por influência do médico alagoano Estácio de Lima, diretor por anos do Nina Rodrigues.

Aqui, foram feitos uma série de estudos para testar a eficácia da teoria lombrosiana, de que os criminosos possuíam características físicas específicas, com claros retrocessos evolutivos que influenciariam o comportamento delinquente.

“Foi o doutor Pittex quem comandou os estudos antropométricos e antropológicos nas cabeças dos cangaceiros. Se falava muito da existência de um apófise (uma saliência) na parte de trás do crânio deles, o que indicaria um esqueleto mais rudimentar. Doutor Pittex tomou todas as medidas, fez uma série de estudos, e não encontrou rigorosamente nada. Agiu como um cientista”, detalha o médico legista aposentado Raul Coelho Barreto.

Barreto foi trabalhar no IML em 1976, aos 21 anos. Conviveu por uma década com Charles Pittex, até que a compulsória forçou a aposentadoria do renomado suíço. Ele se lembra que o colega ia a pé para o trabalho e, ao fim do expediente, gostava de tomar uns drinques antes de ir para casa.

“Quando o conheci, ele já era uma lenda dos estudos forenses no Brasil. Era requisitado para fazer a perícia, sobretudo em casos que envolviam violência. Era muito preciso, ético e técnico, além de ter um conhecimento minucioso da anatomia humana”, conta.

“Se tornou o mais conhecido legista da Bahia, por enfrentar com boa disposição qualquer trabalho da especialidade, na capital ou no interior, para onde fosse designado”, completa o doutor Lamartine de Andrade Lima, também ex-colega de Pittex.

Chacina da Graça e Iara Iavelberg

Foi Charles Pittex quem fez a autópsia dos corpos de Fernando Souto Maia, sua esposa Zorilda, a sogra Climéria e o filho José Montanha no crime que ficou conhecido como ‘A Chacina da Graça’.

No dia 2 de março de 1970, a capital baiana amanheceu escandalizada com a morte de quatro pessoas de uma família rica, dentro de um casarão na Rua da Flórida, número 5. Um bilhete indicava que José, o filho caçula do casal, teria assassinado seus pais e avó, antes de tirar a própria vida.

Ao mergulhar na necrópsia, pela posição dos corpos e da arma encontrada na cena do crime, Pittex concluiu que esta versão era impossível de ter sido concretizada. Isso deu munição à polícia para seguir nas investigações, até encontrar o verdadeiro culpado: Marcelino Souto Maia, o filho primogênito, que havia forjado a carta para incriminar o irmão e herdar a fortuna.

O legista também atuou em dois outros casos de enorme repercussão nacional, ligados ao assassinato de militantes contrários à ditadura militar. As mortes de Iara Iavelberg e seu companheiro, o capitão Carlos Lamarca, ambos em 1971.

Pittex demonstrou uma coragem imensurável ao duvidar da versão oficial da ditadura, mesmo correndo risco por assim proceder. Iara Iavelberg foi capturada e morta no bairro da Pituba, em Salvador, após uma emboscada montada pela repressão.

Os militares falsificaram a versão de que ela havia se suicidado para não ser presa pelo regime – mas, na verdade, havia sido atingida no pulmão durante a captura.

No rascunho do registro da necrópsia, encontrado anos depois, Pittex detalhou o tamanho e o tipo de perfuração encontrados no corpo da guerrilheira, colocando uma simples interrogação ao lado da palavra ‘suicido'.

Isso foi suficiente para se somar a um conjunto de provas levantadas e, anos depois, ajudar a família a restabelecer a verdade. Por ser judia, Iara havia sido enterrada numa área destinada aos suicidas no cemitério Israelita, em São Paulo. E, como manda a tradição, com os pés voltados para a lápide, em sinal de desonra. Somente em 2003, a família conseguiu provar o crime do estado de exceção, exumar os restos mortais e transportá-los para o mausoléu da família.

A história do charuto

Por ter demonstrado sempre um comportamento ético e respeitoso, Barreto não acredita que Pittex usava os pés do cadáveres como suporte de charuto. “Essa história é engraçada porque sempre repetem ela, mas não conheço um que tenha visto. Eu, que fui colega tantos anos dele, nunca vi”, diz.

É bem possível que tal narrativa tenha ganhado vida por um hábito costumeiro do doutor Pittex. “Acompanhava muitas das manifestações culturais, religiosas e festivas afro-baianas da cidade, sempre com o seu charuto "regalia-de-balaio" aceso e pendente na boca. Era um personagem exótico e muito curioso”, pondera o também ex-colega Andrade Lima.

Com o avançar da idade, sem terem tido filhos, Pittex e Dona Ninita resolveram deixar o casarão de Nazaré e se abrigar em uma ala especial do Hospital Santa Isabel. Permaneceram lá até a morte, na década de 1980.

Ruy Botelho narra uma história cândida que revela uma faceta escondida do famoso médico legista. “Uma vez, lá no Boulevard Suíço, ele chegou interrompendo nosso baba e parou bem perto de mim. Foi até meu ouvido e cochichou: ‘você é um excelente goleiro’’. Aquilo me alegrou de uma forma indescritível. Tive poliomielite quando tinha dois anos. Jogava no gol, que era minha melhor posição. Esse episódio revela o quanto Pittex enxergava a alma muito além do corpo e da anatomia”, diz.

Essa coluna é dedicada a Francisco Neves da Rocha, perito em desvendar caligrafias indecifráveis e grande contador de histórias.