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Fernanda Santana
Yan Inácio
Publicado em 4 de abril de 2026 às 12:00
No início deste mês, o CORREIO publicou um vídeo com uma provocação no título: “Baianos estão falando como paulistas… e tem um motivo”. A publicação no Instagram rendeu mais de mil comentários, e escalou a discussão. A repercussão levantou a pergunta: o que está, de fato, mudando no português falado na Bahia, como reflexo de fatores como a migração, o home office e o uso de redes sociais entre crianças. >
Em busca de uma resposta, a reportagem conversou com linguistas, professores, crianças e adultos. “O que a gente tem visto nos últimos anos é uma ampliação de referências de fala. Antes o modelo principal era a família, comunidade local. E hoje esse modelo também inclui as redes sociais”, explica Ana Vogeley, doutora em Linguística e Coordenadora de Aspectos da Fala da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia.>
No caso das crianças, o consumo de cada vez mais conteúdos digitais, sobretudo produzidos no Sudeste, e dos adultos, do home office, uma nova onda de contato linguístico tem provocado novas variações. “Meus amigos dizem que estou falando como paulista”, brinca Ruan Araújo, publicitário que desde 2022 trabalha em uma agência de São Paulo, em modelo home office.>
“Há mudanças cientificamente comprovadas na estrutura do português baianos”, disse Thamiris Coelho de Assis, baiana de Candeias, doutora em Língua e Cultura e professora da Universidade Federal de Pernambuco.>
Na Bahia, existem pelo menos três mudanças em progresso que já foram identificadas cientificamente: a aproximação de jovens à variedade de maior prestígio, com maior uso de formas associadas à norma culta; alterações nas formas de tratamento, como a redução do uso de “tu” e a ampliação de “você”; e a incorporação de expressões de outras regiões.>
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São três as fases de uma mudança linguística: a variação (por exemplo, o uso de "mano”, uma gíria mais comum em São Paulo que na Bahia); a mudança em progresso (quando começa a se observar que uma geração adota um tipo de fala diferente da geração anterior); e a mudança (que acontece quando essa nova forma de falar substitui completamente a anterior).>
Nas escolas, professores já observam essas mudanças no vocabulário dos alunos e tratam a variação linguística como conteúdo. A discussão também envolve o combate ao preconceito linguístico.>
“A escola fortalece nossa identidade, valoriza nossa identidade, tanto linguística, quanto literária, porque o aluno precisa se sentir pertencente à sua cultura”, destaca a professora de português Marília Gabriela, do Colégio Anchieta.>
Especialistas destacam que nem todos os aspectos mudam no mesmo ritmo. A entonação e o vocabulário tendem a variar mais rapidamente, enquanto a fonologia — a organização dos sons — é mais resistente.>
“A linguística vai dizer: a gente não pode evitar contato linguístico. O que a gente tem que cuidar é do pertencimento. É do quanto essa criança pode estar se afastando. O dialeto é só a ponta do iceberg. O quanto ela tá se afastando do cultural, do social?”.>
O conteúdo completo sobre como o português baiano tem mudado pode ser conferido no Youtube do Jornal Correio (@Correio24hBahia). Neste vídeo, conversamos com linguistas, professores, adultos e crianças para saber o que, de fato, tem se modificado. Migração, internet e prestígio estão nessa receita que mostra o lado vivo e político da língua.>