Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Conheça o pensamento de Milton Santos, o baiano que deu alma aos mapas

Geógrafo ensinou ao mundo que o território não é feito de ruas e prédios, mas das relações humanas dentro deles

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 16 de maio de 2026 às 05:00

Um dos maiores intelectuais baianos da história, Milton Santos será homenageado
Um dos maiores intelectuais baianos da história Crédito: Reprodução

Se as ladeiras do Centro Histórico de Salvador pudessem falar, neste maio de 2026, elas certamente agradeceriam ao homem que as descreveu não como meros acidentes geográficos, mas como vida. No último dia 3, Milton Santos, nascido em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, completaria cem anos. Ele foi o intelectual que trocou os tribunais de Salvador pela geografia do mundo, ampliando a abrangência da disciplina ao fazê-la olhar para o ser humano.

Advogado de formação e geógrafo na prática, Milton fez doutorado na França antes de, nos anos 1960, ser empurrado para um exílio que o transformou em cidadão de quatro continentes, lecionando da Tanzânia à Sorbonne. Com a elegância rigorosa que também se manifestava em seus icônicos e impecáveis ternos, ensinou que o território é um organismo político. Para compreender a dimensão desse baiano que se tornou o único latino-americano a receber o Prêmio Vautrin Lud - considerado o Nobel da Geografia -, é preciso percorrer um pensamento sofisticado sem perder de vista a vida comum. Em Milton Santos, a teoria mais complexa sempre desemboca na experiência de todos nós e qualquer um.

Itaú Cultural apresenta a obra e a vida de Milton Santos, um dos pensadores que revolucionou a geografia brasileira por Paulo Pinto/Agência Brasil

Espaço e ação

Milton Santos chegou para dizer que a Geografia estava “viúva do espaço”. A provocação era dirigida a uma disciplina que, segundo ele, havia se perdido em estatísticas, descrições técnicas e abstrações incapazes de enxergar as pessoas como protagonistas da paisagem. Para Milton, o espaço geográfico é resultado direto das relações humanas, dos conflitos econômicos, das técnicas e das formas de poder que moldam a vida cotidiana. O território, em sua obra, é experiência concreta, carregada de disputa.

O professor titular de Geografia Humana da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Ângelo Serpa, explica que a grande ruptura provocada pelo pensamento miltoniano foi devolver humanidade ao espaço. “O espaço não pré-existe à ação humana, ele não é algo a ser preenchido com algum conteúdo social, cultural, político ou econômico. Ele é resultado da ação humana e ele condiciona a ação humana”, afirma. Essa leitura transformou profundamente a maneira de compreender cidades, periferias e territórios populares, sobretudo em países como o Brasil, onde a ocupação do espaço sempre esteve associada a desigualdades.

É justamente dessa compreensão que nasce a chamada “filosofia das técnicas”, um dos pilares da obra de Milton Santos. Para ele, cada época produz seus objetos, suas tecnologias e suas formas de circulação, mas a técnica nunca é neutra. Ela reorganiza o cotidiano e interfere diretamente nas relações sociais. Serpa explica que a paisagem funciona como uma “sobreposição de tempos históricos”, onde coexistem construções, objetos e modos de vida de diferentes períodos. “A técnica precisa ser usada, apropriada. E esse modo de se apropriar da técnica é um saber-fazer. Isso, para Milton, é tecnologia”, resume o professor.

A secretária adjunta de políticas digitais da Secom da Presidência da República e neta de Milton Santos, Nina Santos, afirma que a obra do avô continua oferecendo ferramentas importantes para interpretar o presente digital. “Acho que está claro na obra de meu avô é que a técnica não é neutra de jeito nenhum, mas ela precisa ser analisada em conjunto com o sistema de ações que se apropria desse sistema de objetos”, afirma. Por isso, Milton recusava a ideia de um planeta completamente homogêneo. Para ele, a globalização jamais conseguiria apagar as diferenças locais, porque as pessoas reinventam continuamente o uso dos objetos e das técnicas conforme suas próprias experiências.

Fábula e perversidade

Nos anos 1990, enquanto o discurso da globalização prometia integração planetária, Milton Santos formulou uma de suas interpretações mais conhecidas: a distinção entre “globalização como fábula” e “globalização como perversidade”. A primeira é o mundo vendido pela publicidade e pelos discursos otimistas do mercado: um planeta conectado, veloz e supostamente democrático, onde a tecnologia aproximaria todos de forma igualitária. A segunda é o avesso dessa narrativa: um sistema que amplia desigualdades, concentra renda e transforma milhões de pessoas em sujeitos periféricos do mundo contemporâneo.

O professor do Instituto de Geociências da UFBA, Clímaco Dias, afirma que a crítica de Milton partia justamente da desigualdade de acesso ao chamado “meio técnico-científico-informacional”. “O consumo só é completo para quem tem dinheiro e acesso pleno ao meio técnico, científico e informacional. Então, a própria ausência do consumo, segundo Milton Santos, traz consciência”, explica. Ou seja, para Milton, a exclusão também produz percepção política. É no limite da participação social que muitos grupos passam a enxergar a violência estrutural do sistema.

Clímaco usa como exemplo os “rolezinhos” organizados por jovens periféricos em shopping centers brasileiros na década passada. “Esses shoppings começaram a tratá-los como potenciais ladrões porque eles não tinham o dinheiro do consumo e eram negros. Então, esse ‘rolezinho’ fez a maior denúncia do racismo brasileiro, mesmo sem qualquer consciência política inicial”, afirma. Para Milton Santos, o racismo brasileiro se manifesta justamente nesse “olhar enviesado” que transforma o corpo negro em suspeito antes mesmo de reconhecê-lo como cidadão. Sua leitura antecipou debates contemporâneos sobre a criminalização da juventude periférica.

Cidadão ou consumidor?

Essa lógica desigual se manifesta com força nas grandes cidades brasileiras. Milton Santos enxergava metrópoles cada vez mais fragmentadas, organizadas de acordo com os interesses econômicos e não das necessidades humanas. O Estado, nesse modelo, passa a funcionar como facilitador da circulação do capital, investindo prioritariamente onde o mercado deseja expandir seus negócios. O resultado é uma cidade onde mobilidade, infraestrutura e serviços públicos são distribuídos de forma desigual.

Foi a partir dessa percepção que Milton formulou a ideia da transformação do cidadão em consumidor. Em muitas sociedades contemporâneas, argumentava ele, o valor de uma pessoa passa a ser medido pela sua capacidade de consumir. Então, ter crédito disponível parece mais importante do que ter acesso pleno à cidadania. Nesse cenário, os direitos coletivos são substituídos pela lógica individual do mercado, enquanto parcelas inteiras da população permanecem excluídas dos benefícios urbanos mais básicos.

Nina Santos avalia que essa reflexão permanece atual diante das disputas em torno das plataformas digitais e da circulação de informação. “Essas duas visões, elas são visões que têm em comum serem extremamente deterministas na visão da técnica, como se a própria existência de uma tecnologia ou de outra gerasse um impacto social”, afirma, ao comentar tanto o otimismo inicial em torno das redes sociais quanto as leituras apocalípticas mais recentes sobre desinformação e inteligência artificial. “Pensar o digital enquanto território é também uma maneira de pensar em possibilidade de transformação desse mundo digital”, completa.

A coerência entre pensamento e vida pessoal também impressionava quem convivia com Milton Santos. Fernando Conceição, professor da UFBA e biógrafo escolhido pelo geógrafo, lembra que ele recusava o fetiche do automóvel particular, símbolo máximo do individualismo urbano moderno. “Ele nunca teve veículo, nunca teve automóvel. Gostava de usar o transporte público ou então ia de carona para a USP”, conta. Conceição lembra ainda que o antropólogo Kabengele Munanga frequentemente lhe dava carona até a universidade. Para Milton, a lógica automobilística consumia o espaço público e aprofundava desigualdades, destruindo alternativas coletivas de mobilidade e convivência.

Utopia popular

Apesar da contundência de suas críticas, Milton Santos foi um intelectual otimista. Ele acreditava que os próprios setores marginalizados pelo sistema tinham a possibilidade de reinventar a vida social. É daí que surge outro conceito central de sua obra: o “espaço banal”, entendido como o território cotidiano onde as pessoas constroem estratégias de sobrevivência e solidariedade longe dos grandes centros de decisão econômica.

Clímaco Dias explica que essa resistência nasce justamente do que Milton chamava de “reino da necessidade”. “A comunicação é dos pobres principalmente. É dada pela possibilidade de sobrevivência. É assim com a solidariedade de vizinhos em que uma parte toma conta do filho dos outros, é assim com o ‘comprar fiado’ nas vendas, é assim com pessoas que têm carro servindo de ambulância”, afirma. São gestos comuns que materializam formas de cooperação social invisíveis para a lógica financeira e tecnocrática.

Para Milton Santos, era justamente nesses espaços populares que poderia surgir uma “outra globalização”, baseada na experiência compartilhada da vida coletiva. Clímaco acredita que essa percepção se torna ainda mais atual em tempos de hiperconectividade e solidão. “Os dramas humanos só podem ser resolvidos com o humano. A gente não consegue viver no reino do algoritmo sem depressão. A depressão aumenta pelo individualismo e pela falta de solidariedade”, afirma.

Desterro e permanência

Ironicamente, o intelectual que foi aclamado e levou o nome da Bahia aos centros acadêmicos mais prestigiados do mundo encontrou resistência justamente ao tentar voltar para casa. Depois de doutorar-se em Estrasburgo e lecionar em universidades da França, Estados Unidos, Venezuela e Tanzânia, Milton voltou ao Brasil no final dos anos 1970 disposto a reconstruir sua vida acadêmica. Porém, o reencontro com a terra natal foi marcado pela exclusão.

Fernando Conceição recorda que Milton enfrentou dificuldades até mesmo para reassumir espaço na Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Ele foi um pesquisador exilado, perseguido pela ditadura militar e não aceito na estrutura da Universidade Federal da Bahia. Ele penou pelo mundo, porque todo exilado quer estar em seu país e contribuir com seu país”, relata. Sem acolhimento na própria terra, o geógrafo ainda passou por instituições no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Argentina antes de encontrar estabilidade na Universidade de São Paulo, no final dos anos 1980.

Foi na USP que Milton Santos produziu sua obra mais importante, A Natureza do Espaço, consolidando um pensamento que hoje circula pelas universidades do mundo inteiro. Cem anos depois de seu nascimento, sua obra continua atual porque o mundo que ele descreveu acontece, todos os dias, diante dos nossos olhos. Também porque ele percebeu, antes de muita gente, que nenhuma tecnologia seria capaz de substituir a necessidade humana de convivência e solidariedade.

Por @flaviaazevedoalmeida