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Flavia Azevedo
Publicado em 16 de maio de 2026 às 05:00
Depois de emocionar cerca de cem mil pessoas em duas apresentações em São Paulo, Djavan falou com o CORREIO às vésperas da chegada da turnê Djavanear 50 anos a Salvador. Em uma conversa afetuosa e sem pressa - muito parecida com a atmosfera do próprio espetáculo - o cantor comentou a decisão de manter a música no centro do palco, relembrou as críticas às suas letras “incompreensíveis”, falou sobre envelhecimento sem obsessão pela juventude e admitiu que, em alguns momentos do show, precisa se controlar para não chorar diante do público. >
Flavia Azevedo - Fiquei pensando muito no seu show porque ele coloca a música em primeiro plano de um jeito muito diferente do que a gente tem visto. Num tempo de tanta informação, tanto estímulo e tanto excesso nos grandes espetáculos, ali a música é claramente a protagonista. Fico imaginando o quanto deve existir pressão para adaptar a própria criação, a sua presença no palco e até a trajetória artística a essa velocidade contemporânea. Como você percebe isso?>
Djavan - Você começou essa pergunta falando a coisa certa: a música é o protagonismo maior, tudo tem que correr de acordo com a música. Eu não sacrifico a música por nenhuma coisa ligada a cenário, a nada. A música tem que prevalecer como ponto principal da questão. Então eu vou fazendo tudo para emoldurar a música. Tudo que está além da música é uma moldura. E é uma moldura, como você viu, pensada, trabalhada à exaustão para corresponder a essa música, para emoldurá-la da maneira certa. Portanto, eu não tenho muita dificuldade, uma vez que coloco a música sempre em primeiro lugar. >
Djavan em "Improviso"
F - Durante muitos anos, uma parte da crítica tratou suas letras como “incompreensíveis”, até com uma carga de preconceito. Você já falou sobre isso outras vezes. Mas o que eu vi no show foi uma arena inteira, com pessoas de gerações e estilos muito diferentes, cantando suas letras completas, com compreensão, memória e emoção. Você acha que o tempo acabou confirmando uma confiança sua na inteligência e na sensibilidade das pessoas? >
D - O que eu acho é que a música se tornou, de modo geral, um adendo de uma determinada programação. Muitas vezes ela não é o foco e, por consequência, não é observada da maneira devida, da maneira como deve ser. O que mudou para mim é que, com o tempo, o meu público percebeu que tem que observar a música, ouvir a música, ler a música, prestar atenção, porque ali está contido um contexto que exige atenção. Isso é diferente de ouvir uma música só para se mexer, só para acompanhar uma turma. É diferente. O meu público aprendeu a ouvir a música para entender, para discutir, para discordar, para concordar. Ou seja, ouvir a música para remover dúvidas, colocar essa música em debates, em discussões, questioná-la. Com tudo isso a minha música acabou lucrando muito, porque ganhou atenção da maneira correta.>
F - Outra coisa que vi nesse show foi a confirmação de que a sua obra passa de geração em geração quase como herança afetiva. Ao mesmo tempo, existe uma atualidade muito forte ali, tanto na música quanto na sua presença. Você sobe naquele palco aos 77 anos com uma vitalidade impressionante, mas também sem demonstrar nenhuma preocupação em parecer “moderno” e talvez por isso continue sendo. Como você olha para essa capacidade de permanecer tão contemporâneo?>
D - Eu faço uma música que tem como foco central a diversificação. Acho que isso traz um público também diverso. E tudo isso faz com que ela se torne atemporal, porque está sempre em contato com toda essa gama de diversidade do povo. A minha preocupação sempre - e acho que isso me ajudou - foi buscar aquilo que me agrada, aquilo que abranda meu coração e me dá a sensação de estar fazendo a coisa certa. Eu nunca estive preocupado com tendência, com moda, com nada disso, porque nada disso jamais foi importante pra mim. O importante pra mim foi, a vida inteira, me alegrar. Eu também nunca tive muita preocupação com crítica. Se tivesse, acho que teria parado no meio do caminho, porque já recebi muita crítica capaz de me deixar completamente desestruturado se eu levasse a sério.>
F - O momento acústico do show me impressionou muito. Quando você vai para o proscênio, sozinho com o violão, acontece uma intimidade quase improvável para 45 mil pessoas juntas. Existe um silêncio, uma atenção, um respeito muito fortes ali. De repente, parece que todo mundo está no mesmo luau, na mesma memória afetiva. O que acontece naquele momento para você? E por que você acha que consegue criar essa atmosfera com tanta naturalidade? >
D - Eu faço aquilo com a certeza de que vou fazer uma coisa que adoro, que é pegar um violão e cantar para as pessoas. Acho que elas sentem isso. Entendem que aquele é um momento de se integrar exatamente à minha emoção. É claro que também é um momento difícil para mim, porque encarar uma emoção coletiva daquele tamanho sem perder o controle não é simples. Fiquei vários momentos do show com vontade de chorar. Só que você precisa manter o controle. E eu não estou falando do controle do público, porque o público que gosta foi ali querendo que dê certo. Eu sei que o meu público gosta de mim, gosta da minha música e vai ao show para viver aquilo da melhor maneira possível. Por isso, eu até poderia dizer que o mérito não é só meu. O mérito é do conjunto de tudo: da obra, do público, do cenário, daquela atmosfera de amor que acaba prevalecendo. Então, quando estou naquele banquinho, com aquele povo imenso à minha frente, fico envolvido por todas essas questões sem poder perder o controle. Porque, se eu começar a chorar ali, vai ser difícil parar. Eu sinto aquilo profundamente. Às vezes, quando chego em casa, penso: “Meu Deus, como consegui não chorar, não perder o controle?”. >
F - Salvador foi escolhida como a segunda cidade da turnê depois da estreia, e isso parece ter um peso simbólico forte. Você sempre teve uma relação muito intensa com a Bahia, com os artistas baianos e com a própria musicalidade daqui. Em alguns momentos, inclusive, já disse que também se sente um pouco baiano. Essa escolha foi apenas uma questão de agenda ou existiu também uma decisão afetiva e conceitual por trás dela? >
D - Por tudo isso que você falou, a gente pensou que seria lindo, depois da estreia, ir para a Bahia. Existe uma relação muito visceral entre mim e a Bahia. Minha mãe morou aqui antes mesmo de eu nascer, então existe alguma coisa muito profunda nessa ligação. Os baianos, às vezes, mesmo sabendo que eu sou alagoano, dizem que eu sou baiano e eu gosto disso. Eu sinto essa identidade baiana em mim também. Gosto da espontaneidade, da musicalidade, da generosidade do povo baiano. E o povo baiano tem por mim uma atração que é recíproca. Então fazia muito sentido que a segunda cidade da turnê fosse Salvador. E eu nem quero imaginar o que vai ser esse show, porque acho que vai ser uma loucura. Uma loucura.>