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Flavia Azevedo
Publicado em 31 de março de 2026 às 19:21
Era março de 2001. O cenário é uma casa de frente pro mar da Praia do Flamengo, perto da barraca de Galego. Aquela era a residência de verão de Alejandro*, um espanhol que não lembro como apareceu por aqui e virou nosso amigo. A casa era linda, com arquitetura e decoração criativas, não esse tipo de caixote cinzento que gente endinheirada habita hoje em dia. Mais lindos, criativos e, digamos, “disruptivos” ainda eram os encontros, as temporadas e as festas naquele endereço que, durante muitos anos, funcionou como uma espécie de Woodstock permanente, exclusivíssima, e mais do que isso não devo comentar. >
Alejandro vivia entre Salvador e Espanha, deixando a manutenção física daquele pequeno paraíso sob a responsabilidade de um casal contratado. Além disso, no grupo de amigos, existiam aqueles que tinham a chave, livre acesso e, na ausência do dono, também algumas responsabilidades. Entre esses do núcleo mais íntimo, está o personagem principal desta história: Ivo*. Arquiteto, professor universitário, inteligente, pessoa boníssima e excelente papo. Ivo também é famoso pela incrível característica de, não importando o quanto beba, nunca ter passado por uma ressaca. Nosso homem de aço também fuma bastante e permanece perfeitamente saudável aos quase 80 anos. Que São Darwin o abençoe e guarde.>
Mansão de Caetano Veloso
Pois desde aquela época, a vida de Ivo é entre Salvador e Rio de Janeiro. Ele conta que nos arredores daquele Carnaval de 25 anos atrás que já estava cometendo a inteligência de passar o verão em Salvador (hospedado por outro amigo, em Jaguaribe) quando recebe um telefonema do dono da tal casa, Alejandro. O espanhol estava enviando por avião um lote de amigos também espanhóis, para alguns dias de deleite na Bahia. Pedia, portanto, que Ivo os recebesse, levasse até a Praia do Flamengo e acomodasse todo mundo lá direitinho. Ivo já havia feito essa gentileza muitas vezes, então foi ao aeroporto, buscou o grupo de amigos de Alejandro, deixou todo mundo na casa e foi cuidar do verão dele.>
(Um dos costumes de Alejandro era andar com gente internacionalmente famosa. Por exemplo, nessa leva de amigos estavam Rosário Flores - cantora e atriz espanhola, duas vezes ganhadora do Grammy Latino - e uma mulher que Ivo me descreveu simplesmente como “aquela atriz espanhola nariguda”. Mediante envio de fotografia por WhatsApp, confirmei ser Rossy de Palma, “apenas” uma das lendárias “chicas de Almodóvar”. Além dessas duas, faziam parte do lote uma produtora aleatória e alguns ciganos também aleatórios dos quais não sabemos os nomes.)>
Depois de acomodar a “atriz nariguda”, a cantora famosa, a produtora e os ciganos aleatórios, Ivo considerava a missão cumprida. Porém, nada disso. Na manhã seguinte, o telefone toca. Do outro lado estava a tal produtora com a urgência de organizar uma festa para aquela mesma noite, porque era aniversário de alguém da turma. Queria saber se Ivo poderia ajudar indicando onde comprar tudo que fosse necessário. Mais uma vez, Ivo, solícito e simpático como sempre, sai de seus cuidados. Desta vez, pra providenciar bebidas, canapés e tudo mais com que se comemora um bom aniversário. Apenas um pedido ele não conseguiu atender: a produtora precisava demais de um violão, porém Ivo não toca nem conhecia, naquele momento, quem tocasse para poder emprestar. Mesmo com essa falha da produção, em retribuição à gentileza de Ivo, a produtora o convidou para a tal festa. De noite, claro, ele estava lá.>
Você conhece a Praia do Flamengo?
Ivo chega antes dos convidados mais esperados que, em seguida, começam a brotar. Quais sejam: Caetano Veloso com Paula Lavigne, Carlinhos Brown com Helena Buarque, Regina Casé com a filha Benedita e o lendário cineasta espanhol Pedro Almodóvar escoltado por um enorme segurança. Com eles também chega o “bendito violão”. É que, a pedido da tal produtora, Almodóvar (que, na época, toda hora estava em Salvador hospedado na casa de Caetano) havia convencido nosso conterrâneo a levar o instrumento. Pois bem. Noite agradável, conversas ótimas, risadas e os tais dois ou três ciganos tocando o violão emprestado. Em determinado momento, lá pelas 2h, Caetano dá sono e anuncia que vai pra casa. O cigano que estava tocando o violão pergunta: “e o violão?”. Gentil como (quase) todo santamarense, Caetano responde que poderia deixar com ele por aquela noite e que, no dia seguinte, mandaria alguém buscar. Caetano vai embora com Paula.>
A festa segue com os ciganos tocando e todos se divertindo por mais algumas horas. Nosso amigo Ivo, que não tem ressaca, é um dos últimos a se despedir, claro. Antes disso, recebe um convite dos ciganos para passar o dia seguinte na Praia do Forte. Ivo diz que não, obrigado, e vai embora dormir em Jaguaribe. Dia seguinte, acorda decidido a dar um mergulho e tomar uma cerveja na barraca de Galego, aquela que fica perto da casa de Alejandro. Chama outro amigo, vai de carro, estaciona no gramado da casa e aproveita para perguntar aos caseiros como estão as coisas. Entra na casa, observa que a bagunça está fenomenal e vai curtir sua falta de ressaca na praia em frente à casa. Depois da praia, passa outra vez pela casa, entra no carro (naquele tempo não tinha Lei Seca) e vai embora com o amigo, um outro conhecido professor universitário.>
Por volta das 20h desse mesmo dia, ou seja, o seguinte à festa, toca mais uma vez o telefone de Ivo. Agora era uma das espanholas completamente desesperada. O problema é que Almodóvar estava diante dela (acompanhado pelo segurança), incumbido, por Caetano, de buscar o violão para devolver ao dono. Só que já haviam vasculhado a casa toda e o bendito violão não estava lá. Ivo é, então, convocado a ir pessoalmente dar conta do instrumento. E vai. Chegando lá, o clima é pesadíssimo e começa uma acareação. Ânimos se exaltam, Almodóvar aos gritos e, por fim, Ivo é violentamente acusado de ser ele próprio o ladrão. >
Ivo liga para Alejandro, na Espanha, informando sobre o furdunço. Na confusão, o tal segurança do cineasta encosta Ivo num canto e pergunta: “quanto você quer pra devolver o violão?”. Como tudo na vida tem limite, nosso simpático e prestativo anfitrião expulsa, aos berros, cineasta famoso e segurança porta a fora da casa de Alejandro. Em seguida, vai embora cheio de indignação. Ivo conta que, ainda nessa noite, recebe o primeiro de uma série de telefonemas de Paula Lavigne, que queria saber dele mesmo porque ele mesmo não estava preso pelo roubo do violão.>
No dia seguinte de manhã, Ivo vai à delegacia de Itapuã e faz o BO do roubo do violão de Caetano de dentro da casa que estava sob sua responsabilidade. Depois disso, passa a frequentar diariamente a delegacia para saber como andam as investigações. Tão obstinada quanto ele, se mostra Paula Lavigne que passa a ligar para Ivo várias vezes por dia perguntando pelo violão. A comunicação é tão intensa que ele passa a chamá-la carinhosamente de "Paulinha", pelo menos entre os amigos. >
Ivo afirma que insistia com o investigador e com "Paulinha" que os espanhóis precisavam ser interrogados, incluindo os ciganos, de quem ele desconfiava. Porém, ambos discordavam, até porque, segundo "Paulinha", pessoas ricas e famosas não teriam motivos para roubar um violão. Quem tinha motivos, na opinião dela, era só mesmo Ivo e aquele amigo com quem foi à casa no dia seguinte à festa e ficou conhecido como “o gordinho suspeito”, conforme referido por alguém que o viu na situação. >
O investigador insistia que tudo apontava para a culpa de Ivo até o dia em que Ivo conseguiu falar com a delegada. Finalmente a par dos fatos, ela deu um esporro no investigador e mandou chamar os espanhóis para, óbvio, interrogar. Tarde demais. Parte deles já havia se picado. Os primeiros foram os ciganos, que no dia seguinte da festa tinham mesmo ido pra Praia do Forte e, de lá, para a Espanha. A essa altura, Ivo já precisava voltar pro Rio e conseguiu ser liberado pra também viajar. Porém, Ivo queria resolver o mistério. E provar a própria inocência, claro.>
Agora sedento de justiça (ou, pelo menos, curioso sobre quem teria roubado o diabo do violão), ele passa, então, a "investigar" o caso com a ajuda de amigos. Como todo mundo se conhece em Salvador, de contato em contato ele chega a uma funcionária do aeroporto, que trabalhava exatamente no guarda-volumes. Ivo estava convencido da culpa dos ciganos que haviam saído da casa de Alejandro na manhã seguinte à festa e nunca mais foram vistos. Ivo foi, então, conversar com a funcionária do aeroporto e a pista definitiva estava lá. A moça disse: “teve um pessoal aqui falando uma língua enrolada que deixou um violão e tirou no outro dia”. Conferidas as datas, a hipótese de Ivo foi, então, confirmada e ele ganhou a rodada de Scotland Yard, deixando para trás o investigador a delegada e, aparentemente, Paula.>
Resolução do caso: os ciganos aleatórios teriam retirado o violão da casa em Praia do Flamengo enquanto todos ainda dormiam depois da festa e deixaram no guarda-volumes do aeroporto. Seguiram para Praia do Forte, onde passaram o dia e pernoitaram. No dia seguinte, embarcariam para a Espanha. Aí foi só pegar o instrumento e entrar com ele no avião. >
Se pra Ivo o mistério estava desvendado e, portanto, o problema solucionado, do lado de lá a história continuava. Segundo ele, chegou a notícia de que a obstinada “Paulinha” conseguiu fazer com que os ciganos indenizassem Caetano. Como outro desdobramento, Rosário Flores não só compôs como também gravou uma música sobre o caso. Ela se chama "Cayetano" e está no Spotify. Ivo e o "gordinho suspeito" me disseram que saiu uma nota ou outra na imprensa do Rio de Janeiro, mas eu não consegui encontrar. Há também notícias de que o episódio saiu na televisão espanhola. O que eu sei é que, na Bahia, nada disso foi divulgado.>
Ivo termina de me relatar os detalhes e finalmentes fumando um cigarrinho e às gargalhadas, dizendo que deve ser a única pessoa no mundo que já expulsou Almodóvar de algum lugar. Então, lembramos daquela frase certeira de Ariano Suassuna: "o que é ruim de viver é bom de contar".>
*Alejandro e Ivo são nomes fictícios>
Por @flaviaazevedoalmeida>
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